Crítica | Following (1998)

estrelas 4,5

Alguma vez já parou para observar uma pessoa completamente aleatória? Um único indivíduo no meio de uma multidão, até que esse homem ou mulher passasse a ser uma espécie de personagem em sua cabeça? Following, o primeiro longa-metragem dirigido e escrito por Christopher Nolan trabalha em cima de tal premissa, nos mergulhando nela e a expandindo, até formar um grande thriller psicológico de tom similar ao que veríamos em obras posteriores do diretor, como Amnésia e A Origem.

A projeção é dada início com um homem sem nome (vivido por Jeremy Theobald) contando sua história. Um dia como outro qualquer ele começou a seguir pessoas, de forma randômica, segundo ele como forma de pesquisa para seus livros. Com o passar do tempo, contudo, tais perseguições passaram a se tornar algo mais, criando um vínculo maior entre esse suposto escritor e seus observados. Passado um certo período, um desses indivíduos percebe estar sendo seguido e aborda o sujeito. Após um diálogo inteligentemente escrito que consegue mesclar o realismo com o suspense em doses bem equilibradas, descobrimos que o homem observado, Cobb (Alex Haw), é um ladrão. O motivo por trás de sua atividade, porém, não é a óbvia busca pelo dinheiro e sim a ânsia pela adrenalina, a excitação – similar ao que o próprio jovem sem nome procurava. Não demora muito para as duas atividades se misturarem e esses dois desconhecidos assumirem uma estranha parceria.

Mas uma trama criativa não é a única qualidade de Following. O diabo mora nos detalhes e é justamente através destes que Nolan consegue, desde o início, se firmar como um realizador fora do comum. Com uma fotografia completamente em tons de preto e branco, nos é passado, desde os primeiros minutos, a sensação de estarmos diante de uma narrativa baseada no emocional do protagonista. Ampliando ainda mais essa característica, os enquadramentos assumem, a princípio, uma linguagem de documentário, perfeitamente se encaixando com o caráter de relato que a obra adota em seu início. Com o passar do tempo, aos poucos, a ficção se firma com planos ponto de vista e constante uso de closes nos rostos dos personagens, que, de forma bem sucedida, conseguem nos transportar para dentro da história, como um personagem extra, ali para presenciar aqueles eventos.

O caráter de narração psicológica ainda se amplia através da narrativa não-linear, que intercala quatro tempos distintos da vida do protagonista. Esses são bem ilustrados e diferenciados pela própria aparência do personagem, conseguindo nos situar bem dentro da trama, ao mesmo tempo que gera uma grande expectativa para sabermos o que irá acontecer. Com essa montagem precisa, nas mãos de Gareth Heal e do próprio Christopher, o filme ganha uma notável fluidez. Dessa forma, o diretor consegue, com êxito, mascarar uma trama lenta, entregando a ela o dinamismo necessário para ficarmos completamente vidrados.

Acima de tudo, ainda podemos traçar um interessante paralelo entre a obra e os dias atuais, mais especificamente as diversas redes sociais, nas quais, bem ou mal, seguimos as pessoas. É claro que somente vemos o que os outros desejam que vejamos, mas não se trataria de uma forma menor de voyeurismo, talvez uma forma mais “comportada” e menos ousada? Following abre tal questionamento em nossa mente quase que imediatamente e o mérito vai para a já comentada identificação que assumimos em relação ao protagonista, tal qual somente é possível pela precisa direção de Nolan, que, desde já, sabe extrair as necessárias emoções, mesmo de atores amadores.

Para não dizer que estamos diante de uma obra impecável, o longa conta com um desfecho que acaba fugindo de seu realismo, trazendo um plot-twist demasiadamente forçado e difícil de acreditar. Piorando a situação, temos uma exagerada teatralização da personagem feminina, vivida por Lucy Russel, que muito nos lembra uma atuação vinda diretamente do cinema clássico americano. Tais deslizes, todavia, não atrapalham nossa positiva percepção da projeção como um todo.

Com apenas 69 minutos de duração, Christopher, em seu primeiro trabalho para a tela grande, consegue nos prender do início ao fim, adentrando na psique humana e nos contando uma história que não é só original, como bem estruturada. Com uma estética que organicamente se encaixa com a proposta e uma narrativa não-linear, Nolan já mostra todo o seu potencial que garantiria uma filmografia com quase 100% de aproveitamento.

Following (idem – Reino Unido, 1998)
Direção:
Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Jeremy Theobald, Alex Haw, Lucy Russell, John Nolan, Dick Bradsell
Duração: 69 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.