Crítica | Fonte da Vida

fonte da vida

estrelas 4

Mesmo após dois filmes que receberam críticas extremamente positivas da crítica especializada (o intrigante Pi e o arrebatador Réquiem para um Sonho), Fonte da Vida, terceiro trabalho do diretor Darren Aronofsky, sofreu uma grande rejeição. E isto bem antes de seu lançamento, pois os astros Brad Pitt e Cate Blanchett, que seria os protagonistas da história, abandonaram o projeto pouco antes de suas filmagens (Pitt foi participar do irregular Tróia), e o estúdio, desconfiado do resultado que o projeto poderia alcançar com a saída de seus dois astros, cortou o orçamento inicial de U$75 milhões, reduzindo-o para apenas U$35 milhões. Mesmo com tantos percalços, Aronofsky, teimoso e ambicioso como é, lutou para finalizar a produção, retornando ao tema que marcou o início de sua carreira: a busca pela finitude da vida, o sentido da existência humana e a proximidade do homem com Deus.

O fato é que Fonte da Vida é o filme mais pessoal e intimista de Aronofsky, o que talvez tenha gerado o repúdio de boa parte daqueles que o assistiram. Não é um filme de fácil digestão ou compreensão, pois o diretor faz questão de trabalhar com a sonoridade e a plasticidade para levantar diversas indagações religiosas e existenciais, mas jamais busca uma resposta concreta para as mesmas. Narrando três histórias paralelas com diferenças de mil anos entre si: nos tempos atuais, um neurologista luta para encontrar a cura do câncer que acomete sua amada (Rachel Weiz); na Espanha do século 16, um navegador (Jackman novamente) parte para o Novo Mundo em busca da lendária árvore da vida; e no século 26, um astronauta (Jackman mais uma vez) encontra respostas para questões fundamentais da nossa existência.

Também uma ode ao amor e uma espécie de reflexão sobre morte e renascimento, Fonte da Vida é uma experiência é, inicialmente, uma experiência visualmente rica e sensorialmente desafiadora. Em seu projeto mais grandioso até então (tudo promete mudar com o vindouro épico bíblico Noé), Aronofsky busca inspirações em Stanley Kubrick e seu 2001: Uma Odisseia no Espaço para criar soluções e rimas visuais que auxiliam na tradução de seus objetivos e discursos, fazendo do filme uma poesia para os olhos, tamanha a beleza das imagens elaboradas pelo diretor, que cria planos de câmera meticulosos a fim de evocar a força reflexiva de sua história, que conta com diversos simbolismos ao longo da projeção, onde até mesmo a fotografia dourada de Matthew Libatique e a trilha sonora de Clint Mansell encontram ecos na atmosfera do longa. É tudo extremamente subliminar, o que certamente, dificultou a aceitação em cima do projeto.

É de se louvar a ousadia de Aronofsky, um dos realizadores mais anti-Hollywoodianos dos tempos atuais, em conceber algo tão distante da sede de boa parte dos espectadores, sempre ávidos por entretenimentos ágeis e de fácil digestão. Aronofsky sabe disto, mas parece pouco se importar com tal questão, e procura vender sua ideia ao público de maneira a desafiá-los, transformar o espectador em cúmplice de uma trama profundamente reflexiva, onde o debate inicial é, claramente, a visão particular do diretor sobre tais questões, mas se existirem respostas, elas devem ser originadas do próprio espectador.

De narrativa lenta e não linear, porém jamais cansativa (ao menos para aqueles que conseguirem embarcar na difícil proposta do filme), Fonte da Vida é carregado de um clima delirante e mítico, quase um estudo metafísico transformando em imagens. Tal qual a busca de seus personagens, o filme de Aronofsky é uma experiência para além das palavras e total compreensão. Ambição a mil.

Hugh Jackman, na época ainda em ascensão por seu papel como o mutante Wolverine na série de filmes X-Men, surpreende ao demonstrar versatilidade e sobriedade na composição dos três personagens, cada um com sua própria distinção física e personalidades singulares, algo feito com louvor graças ao esforço de Jackman em não soar repetitivo em cena. Rachel Weiz, apesar de não possuir tempo suficiente em cena para comprovar todo seu talento, consegue brilhar em diversos momentos da obra, traduzindo com perícia a intensidade emocional das personagens que interpreta, especialmente Izzi, vítima do câncer. E talvez pelo foco ser, excepcionalmente, estes dois rostos, outros nomes do elenco acabam sendo desperdiçados, como a talentosa Ellen Burstyn.

Entretanto, a verdadeira importância não está nas interpretações de seu elenco (embora estes sejam indispensáveis), mas na sua força reflexiva, que leva o espectador a buscar suas próprias respostas sobre as diversas questões levantadas por Aronofsky, que apesar de se atrapalhar nos momentos finais (a conclusão é um tanto equivocada e superficial), concebeu mais uma grande obra que reafirma a singularidade de Darren Aronofsky no meio cinematográfico.

Fonte da Vida (The Fountain, EUA, 2006)
Roteiro: Darren Aronofsky e Ari Handel
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weiz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Donna Murphy
Duração: 96 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.