Crítica | Footloose – Ritmo Louco (1984)

estrelas 3

Footloose, juntamente talvez com Flashdance, de um ano antes, é um marco pop dos anos 80, gostem ou não do filme. E, sinceramente, é difícil descartar essa fita completamente, apesar de seus problemas.

A grande sacada do roteiro de Dean Pitchford, então estreante nessa categoria em produções cinematográficas, é contagiar o espectador com a música. Ele escreveu a maioria das canções e, entre uma e outra, costurou um roteiro objetivo e simples, baseado no batido conceito de “estranho em terra estranha” que funciona bem para seu propósito. E, seguindo o estilo dos musicais da época, remontando ao pioneiro Os Embalos de Sábado à Noite, de 1977, as músicas não são cantadas pelos personagens, apenas tocadas de forma diegética na película, o que retira a aura de fábula da história e facilita uma certa identificação com a trama. É, basicamente, um longo e divertido videoclip de 107 minutos. E não há dúvidas que, em termos pop, as canções compostas por Pitchford ficam na cabeça de qualquer um que goste dos ritmos energéticos a que ele se propôs. Desde a música título, Footloose, que abre a fita, passando por Let’s Hear It for the Boy, a romântica Almost Paradise, a frenética Holding Out for a Hero, a contagiante Dancing in the Sheets e outras, a sucessão de letras que marcaram a década e ainda são ouvidas aqui e ali por jovens que talvez nunca tenham visto o filme original (há uma refilmagem, claro), é impressionante.

Olhando para trás, é também muito relevante ver o efetivo começo de carreira de Kevin Bacon (antes eles só fizera papéis menores e em Footloose ele é a estrela), a tentativa de ascensão da terrível Lori Singer, a presença do finado Chris Penn e de Sarah Jessica Parker também dando seus passos iniciais. E, é claro, apesar da simplicidade dos papeis, é fantástico ver a facilidade com que os já então veteranos John Lithgow e Diane Wiest abraçam seus personagens, respectivamente o amargo Reverendo Shaw Moore, pai de Ariel (Lori Singer) e Vi Moore, esposa de Shaw, de longe os melhores da fita.

Assim, sob os benevolentes olhos do saudosismo, Footloose é uma película que sempre fará com que aqueles que viveram os anos 80 (como esse que subscreve a presente crítica) tenham boas lembranças, talvez de um passado mais simples, de filmes menos ambiciosos e de muitas festas em que o objetivo maior era esperar Almost Paradise tocar para ter alguma chance – por mais remota que fosse – com as meninas… Mas um crítico não pode viver de saudosismo e precisa olhar as obras – mesmo aquelas que marcaram época – com um olhar mais sério e técnico e é nesse momento que Footloose começa a ruir.

Como já deixei claro acima, descontando as canções e os números de  dança que as acompanham, o que sobra do roteiro é uma camada quase invisível que tenta reunir a fita em uma obra coesa. Pitchford até consegue fazer um trabalho medianamente competente, mas ao jamais desenvolver de verdade os personagens, ele não dá chance aos mais novos de serem muito mais do que rostinhos bonitos e cabelos armados (ou espetados). Bacon demorou para aprender a ser um ator bom e, em Footloose, ele consegue convencer unicamente por seu enorme simpatia e por ter o papel do jovem (Ren McCormack) que chega na cidade onde a música é proibida somente para ser rechaçado e, mais tarde, dar a volta por cima, papel esse que é impossível não simpatizar. Lori Singer nem faz força. É um rostinho bonitinho em um corpo esquelético a quem não foi exigido um mínimo de conhecido do que é “atuar”. Chris Penn diverte no papel de Willard, “lento” e desengonçado jovem que se torna o único amigo de Ren na selva de valentões que povoam a escola. E, finalmente, Sarah Jessica Parker inaugura, em Footloose, o papel que repetiria para o resto da vida (até agora): o de mulher insuportavelmente chata.

Sem muito com o que trabalhar, os atores acabam tendo que literalmente pular de um número musical para o outro, em direção a um desfecho absolutamente previsível e completamente anti-climático que poderia ter acontecido pelo menos uns 20 minutos antes se a montagem tivesse sido mais econômica e certeira e se a direção de Herbert Ross não fosse tão pouco imaginativa.

Se um filme puder ser julgado por quanto tempo ele fica em sua cabeça após o término, então Footloose teria seu lugar reservado no panteão de grandes obras. A não ser que você tenha coração de pedra, é impossível não cantar junto ou, ao menos, estalar os dedos no ritmo (ou tentando) durante a projeção e por dias depois. Isso pode não transformar Footloose em um excelente filme, mas já faz dele uma boa memória para se ter.

Footloose – Ritmo Louco (Footloose, EUA – 1984)
Direção: Herbert Ross
Roteiro: Dean Pitchford
Elenco: Kevin Bacon, Lori Singer, John Lithgow, Dianee Wiest, Chris Penn, Sarah Jessica Parker, John Laughlin, Elizabeth Gorcey, Frances Lee McCain. Jim Youngs, Douglas Dirkson
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.