Crítica | For the Love of Spock

estrelas 4,5

Spock é, sem dúvida alguma, um dos mais famosos e reconhecíveis personagens da cultura pop. Seja você um fã de Star Trek ou alguém que apenas já ouviu falar da série ou dos filmes, mesmo sem jamais demonstrar interesse, muito provavelmente lembrará, de alguma forma, do nome e da imagem do alienígena de orelhas pontudas, sobrancelhas levantadas e semblante sério. E, se duvidar, reconhecerá também a saudação/benção característica com a mão e a frase “vida longa e próspera”.

E Leonard Nimoy, o ator que, com base nas esparsas ideias de Gene Roddenberry em 1966, criou e desenvolveu o personagem, entrou no imaginário popular da mesma forma, sempre associado a Spock, claro, mas talvez de maneira mais envolvente do que todos os demais tripulantes da Enterprise. Ele tinha a seu lado a estranheza e peculiaridade dos textos escritos para ele, mas se Star Trek pode ser encapsulado em um personagem, este é Spock e muito disto se deve sim a um compenetrado Nimoy que criou a famosa saudação (tanto o gesto como a frase) e o clássico “aperto de nervo vulcano”, além de ter insistido no uso da orelha pontuda prostética (a NBC queria “arredondá-la” para ele não ficar parecido com a imagem do diabo de forma a não escandalizar a audiência religiosa). Mas Nimoy foi talvez o único ator da tripulação clássica que mostrou um invejável leque de atividades fora da série que o consagrou como diretor (famosamente dirigiu Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock, Jornada nas Estrelas IV: A Volta para CasaTrês Solteirões e um Bebê), ator teatral, cantor, escritor e fotógrafo.

Portanto, é até com surpresa que constato que For the Love of Spock é o primeiro documentário sobre o personagem, ainda que Adam Nimoy, filho de Leonard, tenha feito bem mais do que uma homenagem ao ícone pop. O filme, que nasceu em novembro de 2014, tinha realmente como objetivo abordar o personagem e não o ator por trás e contava com a bênção de Nimoy (o pai). Mas eis que ele viria a falecer fevereiro de 2015, levando Adam a escalar sua ideia original para algo que também estudasse o bostoniano que, contra a vontade de seus pais, se mandou para Los Angeles para perseguir a carreira de ator, aceitando qualquer tipo de trabalho pago (de cuidador de aquários a pedreiro) para ter uma chance em Hollywood. E, mais além ainda, Adam procura olhar para trás em sua conturbada relação com o pai, quase que como um altar não para pedir desculpas por eventuais desentendimentos que eles tiveram ao longo dos anos (afinal, como ele deixa claro, ambos são culpados por sua relação difícil), mas para homenagear o homem por trás das orelhas pontudas.

Para que isso fosse possível, porém, Adam iniciou uma bem sucedida campanha de crowdfunding para arrecadar 600 mil dólares que permitiria que ele obtivesse todas as licenças necessárias para o uso de trechos dos mais variados filmes (cujo uso ele acaba abusando e arrastando o documentário aqui e ali), além de ter dinheiro para trazer um grande número de personalidades para a frente de sua câmera, desde o elenco original, passando por Nicholas Meyer (o diretor de Jornada nas Estrelas II e VI, além de co-roteirista de Jornada nas Estrelas IV) e Jeffrey Katzenberg (o responsável por trazer Nimoy de volta aos filmes), até o elenco do reboot cinematográfico de J.J. Abrams. E, claro, o orçamento também permitiu polimento ao documentário, que se beneficia de filmagens em convenções e no set dos novos filmes.

A riqueza e variedade dos depoimentos enchem os olhos. Há, como é de se esperar, muita reverência ao personagem e ao ator, mas é belíssimo notar como todos parecem realmente sinceros com seus sentimentos. E alguns têm até espaço para mostrar um pouco o lado crítico sobre Nimoy, ao falar de seus trabalhos como cantor (Shatner é especialmente ferino aqui, mas de forma benigna, até porque Adam dá espaço para ele assim o fazer) e também como ator às vezes difícil e orgulhoso (Katzenberg mostra suas garras ao falar das negociações para trazer Nimoy de volta à série).

Mas é o próprio Adam, por diversas vezes entrevistado (é particularmente emocionante vê-lo sendo entrevistado por Zachary Quinto), que dá toda a dimensão de Leonard Nimoy e o que significava viver com uma figura de pai que precisava ser compartilhada por milhões de fãs. Adam tem a função de “fio da meada”, carregando a história que quer contar e transformando-a de adoração a Spock em um passeio pela carreira mais ampla do pai, chegando às críticas mais fortes de relacionamento. Como disse, porém, o mote é reverencial e os problemas e questões pessoais de Leonard Nimoy – alcoolismo, ausência em casa, imersão no trabalho, divórcio e afastamento completo da família – são minimizados, ainda que todos sejam efetivamente abordados e não escondidos, de forma que o espectador possa ter um retratado bastante (mas provavelmente não completamente) honesto do ator. Mas documentários são assim mesmo: normalmente contam – e devem contar – uma versão, uma interpretação da história desde que não pisoteiem fatos estabelecidos sem uma análise técnica.

As lentes de Adam Nimoy, ainda que indiretamente, são muito felizes em trabalhar os efeitos da fama sobre a pessoa e todos que o cercam e como ela pode ter um resultado pernicioso de longo prazo. Esse pensamento fica logo abaixo da superfície do trabalho documental e nunca é tratado de frente verdadeiramente, até por não ser mesmo o objetivo da obra, mas ele está lá e por vezes vem à superfície de maneira mais franca e direta, somente para, no momento seguinte, sumir mais uma vez. O mesmo se pode dizer sobre o outro lado dessa moeda: o culto à celebridade. Como há uma abordagem cronológica da carreira de Leonard Nimoy, temos vislumbres da evolução (alguns diriam involução…) da sana dos fãs por qualquer coisa de seu ícone, desde algum souvenir das lixeiras da casa dos Nimoy até os mais elaborados cosplayers. Novamente, não é o foco da pegada do diretor, mas o assunto é jogado para discussão, algo que de certa forma é até metalinguístico, considerando-se os mais de 9 mil fãs que contribuíram na campanha online de arrecadação de fundos e cujos nomes (e em alguns casos fotos) aparecem diligentemente nos créditos finais.

Com isso, For the Love of Spock consegue triunfar em ser uma tocante homenagem de um filho a um pai, um passeio pela vida de um ator profundamente inserido no imaginário popular, uma salva de palmas à sua criação máxima, o lógico e falsamente frio e calculista Spock, e um sincero agradecimento aos fãs pelo amor que incondicionalmente sentiram e sentem por tudo que ele encapsula. Além disso tudo (e talvez apesar disso tudo), é um documentário muito competente que tem o poder de atrair mesmo aqueles que estão à margem de Star Trek e, quem sabe, tragá-los para essa extraordinária e imortal franquia.

For the Love of Spock (Canadá/EUA, 2016)
Direção:
 Adam Nimoy
Com: Chris Pine, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, William Shatner, Zachary Quinto, Mayim Bialik, J.J. Abrams, Jim Parsons, Leonard Nimoy, Nichelle Nichols, Jason Alexander, George Takei, Walter Koenig, Catherine Hicks, Neil deGrasse Tyson, Adam Nimoy, Jeffrey Katzenberg, Nicholas Meyer
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.