Crítica | Fora do Figurino – As Medidas do Jeitinho Brasileiro

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estrelas 2

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que Fora do Figurino é um documentário bastante informativo e muito divertido. É até possível que o espectador saia da sala cotando altas estrelas para o filme, rindo de determinadas falas dos entrevistados (“meu pai é índio, já minha mãe é normal mesmo“) e discutindo com alguém sobre aquilo que é o objeto de estudo da película: a ausência de um senso antropométrico no Brasil, ou seja, um estudo das medidas do corpo dos cidadãos em diferentes regiões, a fim de ajustar melhor a indústria de calçados e vestuário e evitar desconforto e desperdício na fabricação e no consumo do produto, que quase sempre precisa de ajustes, após sair da loja.

A denúncia e o tema são pertinentes e infelizmente pouco discutidos. Para dar voz à sua campanha, o diretor entrevista pessoas das mais diversas profissões e ocupações, tenta trazer um olhar diferenciado para cada um desses blocos específicos, e quase consegue realizar uma obra que tenha um ponto a mais do que a plena citação, mas no final das contas, essa vontade é pisoteada pela forma que ele dá ao documentário. Baseado unicamente em entrevistas picotadas e montadas de maneira ensandecidamente didática, Paulo Pélico perde a oportunidade de entregar uma obra que poderia sim trazer uma importante luz para o tema.

Os problemas iniciais aparecem na opção do cineasta em não apontar opiniões divergentes ou realmente discutir sobre o problema. Digo isso porque os entrevistados repetem um grande número de vezes a mesma informação, mas poucas são as falas que trazem alguma coisa mais profunda, um raciocínio contextualizado e crítico sobre as tais medidas fora do figurino. A impressão clara é que toda a parte teórica foi recortada do filme, permanecendo apenas as impressões imediatas, flashes pessoais sobre experiências e situações. E esse incômodo se estende para o fato de que todas as opiniões giram em torno de um mesmo círculo de ideias. E vejam que há um grandioso número de entrevistas e entrevistados. Não há mal nenhum em mostrar um pouco do lado pessoal dos artistas, políticos e empresários em relação às suas roupas e seus sapatos, mas não seria mais rico uma abordagem que fugisse do imediato e apontasse para a memória deles? Das famílias, ou mesmo da profissão, principalmente os atores e apresentadores, que trabalham com troca de figurino a tantos e tantos anos? Não seria interessante buscar uma comparação industrial e realmente dizer quais são os padrões usados em grande parte no Brasil e por quais principais indústrias?

Paralelo a esses problemas, podemos ainda citar a falta de um critério mais rigoroso para o que deveria estar ou não no filme. O espectador fica desorientado com as dezenas de caras e depoimentos de 50 segundos para cada grande bloco temático, o que nos leva para a culminante falha, resultado da montagem: a ausência de uma linha narrativa no filme. O problema não é, em essência, o uso quase único das entrevistas como fonte de dados. Se bem usado, esse pode ser um modelo até interessante. Mas a quebra de opiniões no meio de uma construção de raciocínio acaba deixando certos temas incompletos ou falhando em não explicar determinadas coisas, como: por que aquele professor, na Amazônia, realiza aquele tipo de pesquisa solitária? Cientificamente falando, há alguma utilidade nesse tipo de medida do crânio? Por que não dar mais voz ao sociólogo que abordou a interação étnica em uma linha histórica desde o início do século XX, até a Era JK? Por que deixar no filme aquele comentário inútil do economista que fala que estamos esperando que todos fiquemos ricos, e então, partamos para o início de um estudo antropométrico?

As perguntas são muitas e as repostas temos no filme: apesar de se tratar de algo de verdadeira importância, a falta de critério e maior minúcia nas escolhas pôs a perder todo um trabalho documental. Tenho até a impressão de que se o filme fosse remontado, teríamos um produto completamente diferente, e certamente, melhor. Confesso que me dói escrever desse modo sobre Fora do Figurino, porque como disse no início do texto, é uma obra bastante divertida e informativa, mas é impossível não identificar e se incomodar com os problemas ideológicos, a terrível montagem e a falta de uma cadência lógica para tudo o que é mostrado. Uma pena mesmo.

Fora do Figurino – As Medidas do Jeitinho Brasileiro (Brasil, 2011)
Direção: Paulo Pélico
Roteiro: Paulo Pélico
Duração: 73 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.