Crítica | Forever – 1ª Temporada (2018)

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É difícil falar sobre Forever. Lançada pela Amazon Prime Video, esse é o tipo de série que se beneficia ao ser assistida por quem não tem qualquer ideia do que está por vir, e mesmo se tiver, você provavelmente não será capaz de acreditar na quantidade de surpresas por episódio. Com isso em mente, vou me arriscar e tentar manter essa crítica menos reveladora possível.

June (Maya Rudolph) e Oscar (Fred Armisen) são um casal que já caiu na rotina há anos, repetindo os mesmos rituais diários. Assistimos os dias passando através do movimento lateral da câmera logo na abertura da série, revelando novos ambientes e elementos cenográficos, mas a mesma interação entre o casal. Essa é a primeira mas não a última das maneiras criativas que a série encontra para executar suas cenas e aprofundar-se nos temas sobre angústia e, quando sobra espaço, melancolia.

A escolha de dois comediantes conhecidos por seu humor excêntrico, ambos da escola Saturday Night Live, dá a impressão de que Forever será uma comédia. E ela é. Mas… também não é. Eu sei que é complicado, e por um bom motivo, porque a proposta é nunca estabelecer um tom certo para a produção. Se o primeiro episódio é mais cômico e envolve o casal brigando com crianças por conta de uma aula de patinação, o segundo não tem sequer uma piada e é carregado de diálogos mais secos e dramáticos. Isso é bom até certo ponto. Se por um lado mostra a versatilidade de Maya Rudolph como atriz (hilária em um segundo, ausente por conta de seus dilemas em outro), por outro revela uma fragilidade na estrutura básica da série, que só vai se sustentar dependendo de como você lida com essa constante mudança de tom. Além de Rudolph, temos Armisen, que particularmente acho excelente em sua própria série, Portlandia, mas aqui parece um pouco perdido. Sua personalidade quase apática – perfeita em outras ocasiões – não combina com os momentos de surpresa e excitação que essa série proporciona.

Comandada pela dupla Matt Hubbard e Alan Yang, que já escreveram e produziram episódios de Parks and Recreation e Master of None, Forever segue um ritmo mais alinhado ao segundo exemplo. Independente da quantidade de informação e surpresas que são apresentadas, a série não abandona sua abordagem delicada, mesmo quando beira à timidez, com diálogos e situações mornas que não servem muito propósito narrativo além daquele momento. E não é como se o elenco se limitasse ao casal principal. Não demora muito para conhecermos os vizinhos: Kase (Catherine Keener) é a típica durona da temporada; Mark (Noah Robbins) tem a história mais intrigante, o que infelizmente não quer dizer que a série tenha feito um bom trabalho com ela (spoilers: não fez). Vale mencionar aqui que Peter Weller tem uma ponta em dois episódios e seu personagem é o mais misterioso.

Nenhum desses personagens é tão interessante quanto acha que é, e as oportunidade perdidas na hora da série criar algo diferente são quase frustrantes, como a brincadeira que o casal, ao lado de Mark, decide fazer com uma família “mais feliz do que deveria”. E esse talvez seja o meu maior problema com a série. A confirmação de minha insatisfação curiosamente veio com o ótimo sexto episódio, Andre and Sarah, que é estrelado por um casal completamente diferente de June e Oscar. Andre e Sarah (interpretados por Jason Mitchell e Hong Chau, respectivamente) são corretores de imóveis que acabam se apaixonando, mas não sabem como lidar com o fato de que ambos estão comprometidos com outra pessoa. A intenção é revelar o contraste da relação deles com a do casal recorrente da série, mas Andre and Sarah acaba sendo um pequeno espaço de meia hora onde Forever realmente parecia estar mais focada e expressiva.

Como eu disse antes, essa é uma produção que aposta em um enredo inesperado, porém não absurdo o suficiente como uma outra série em exibição no momento que também tem uma premissa parecida. E isso é um pouco decepcionante, mostra que Forever talvez não seja tão forte quanto acha que é, mesmo abordando tantos temas complexos sobre felicidade e relacionamento e tendo um trabalho visual bem acima da média. Talvez não convença alguns, e eu posso compreender, mas se você tem interesse em assistir, indico que o faça em uma tacada só. São apenas oito episódios e o formato de streaming permite que tudo seja assistido de uma vez, então quem sabe essas discrepâncias no tom sejam menos incômodas. Não foi um começo ruim, mas também não me deixou ansioso por mais.

Forever — 1º Temporada (EUA, 14 de setembro de 2018)
Criadores: Matt Hubbard e Alan Yang
Direção: Alan Yang, Janicza Bravo, Miguel Arteta
Roteiristas principais: Matt Hubbard, Alan Yang e Ali Gusberg
Elenco: Maya Rudolph, Fred Armisen, Catherine Keener, Noah Robbins, Sharon Omi, Kym Whitley, Julia Ormond, Peter Weller, Charles Emmet, Jason Mitchell, Hong Chau
Duração: 8 episódios de aprox. 30 minutos.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie