Crítica | Forrest Gump, o Contador de Histórias

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estrelas 4,5

Poucos são os filmes que conseguem trazer uma narração convincente e, ao mesmo tempo, relevante. Em geral vemos vestígios do material original adaptado, livro ou conto, do qual o roteirista não consegue se afastar. Forrest Gump é uma dessas exceções, contando com a carismática voz do protagonista, dada vida por Tom Hanks, naquele que, possivelmente, seja seu melhor papel. É um filme sobre o destino e como um homem pode ser levado por ele ou conduzi-lo.

Essa temática já é reforçada desde os primeiros minutos do longa, quando vemos uma pena sendo jogada de um lado para o outro pelo vento, até que pousa próximo a Forrest. O personagem, então, começa a contar sua inacreditável história de vida para a pessoa mais próxima, sentado em um banco no ponto de ônibus.

A obra, espelhada no livro de Winstom Groom, do qual foi adaptada, possui uma narrativa capitular, amarrada pela narração já citada do personagem. Sua condição mental, que o torna praticamente uma criança, possibilita a abordagem descontraída de temáticas pesadas e, muitas vezes, garante o humor junto das inusitadas situações passadas pelo protagonista. Da inspiração para a dança de Elvis Presley até o escândalo Watergate acompanhamos Gump por diversos acontecimentos históricos sendo reescritos, como se ele estivesse presente ou até fosse o responsável por cada um deles.

A voz em off de Tom Hanks também funciona como elemento coesivo da montagem, permitindo a união de imagens desconexas e pequenas ou grandes elipses temporais. Há um grande teor cíclico na obra, reiterada pela repetição de trechos seja pela imagem, seja pela fala do protagonista. Aliada à fotografia de Don Burgess, repleta de movimentos de câmera e planos mais abertos, o filme foge da extrema convencionalidade, não pecando pelo exagero de planos e contra-planos. Aqui vale ressalvar a pouca quantidade de diálogos propriamente ditos dentro do longa-metragem – em geral, o que temos, é o grande monólogo de Forrest se estendendo até o trecho final do filme.

O que mais chama atenção, contudo, independente de fatos históricos ficcionalizados ou contos inacreditáveis, é a relação do protagonista com os outros personagens, em especial seu grande amor, Jenny (Robin Wright), e o tenente Dan Taylor. A química entre cada um deles é inegável, possibilitada, principalmente, pela atuação de Tom Hanks que consegue deixar o espectador preso do início ao fim. Embora Forrest, efetivamente, não mude muito como personagem são tais interações que garantem uma profundidade à história por ele contada.

O longa-metragem, contudo, não é ausente de defeitos e o maior deles está em sua duração. Com 142 minutos de projeção, a audiência acaba se cansando nos trechos finais, algo que poderia ser facilmente resolvido com o corte de algumas cenas ao longo do filme. Graças a isso, o encerramento soa arrastado, por mais que ele não conte com defeitos por si só, muito pelo contrário: encerra a narrativa reiterando não só seu teor cíclico, como seu foco no destino de cada indivíduo.

Forrest Gump é um filme para se assistir e depois assistir novamente, uma verdadeira jornada de um homem que luta contra todas as adversidades impostas sobre ele. Com memoráveis atuações, roteiro bem fechado, montagem e fotografia à altura do texto, é uma obra com a capacidade de agradar qualquer um. Sua abordagem descontraída de fatos históricos, pesados ou não, irá tirar risadas do espectador que se sentira como a pena vista na sequência inicial, sendo levado pela narração daquele homem com uma história extraordinária.

Forrest Gump, o Contador de Histórias (Forrest Gump, EUA – 1994)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Eric Roth, baseado no livro de Winston Groom
Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Bob Penny, Sam Anderson, Margo Moorer, Peter Dobson, Siobhan Fallon.
Duração: 142 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.