Crítica | Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

foxcatcher

estrelas 3,5

Foxcatcher apresenta um enredo simples, reafirmando a predileção do diretor, Bennett Miller, por histórias baseadas em fatos reais e que dão maior enfoque para a fotografia e as atuações, e não os diálogos e a história — como observamos também no premiado Capote (2006), do mesmo diretor.

Basicamente, o filme se concentra em três personagens. Os irmãos Mark Schultz (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo) possuem uma relação extremamente próxima, inclusive no que diz respeito às suas carreiras. Dave é o irmão mais velho e um famoso medalhista de luta greco-romana, que treina Mark, com uma carreira também promissora e em ascensão. A relação entre os dois é abalada quando o irmão mais novo recebe o convite do milionário, “ornitólogo, filatelista e filantropo” John Du Pont (Steve Carell), para ir treinar em sua fazenda com a própria equipe, Foxcatcher. Mark aceita, atraído pelo dinheiro e condições técnicas; todavia, a personalidade forte de Du Pont produz resultados perigosos.

O principal acerto do filme está nas atuações. Concentrar em apenas três personagens a grande maioria das cenas é algo arriscado. Contudo, o desempenho apresentada pelos atores (que rendeu duas indicações ao Oscar: Steve Carell, como melhor ator, e Mark Ruffalo como ator coadjuvante) surpreende. De fato, a redução de Foxcatcher a um elenco pequeno causa um certo desconforto e monotonia em certas partes do filme. Entretanto, é de se respeitar a coragem do diretor e a preparação dos atores — durante as gravações, Carell entrou em reclusão, se recusando a falar com outros atores, para dar a tensão característica de sua personagem, e Bennett Miller não poupou os atores de diversos momentos desconfortáveis.

As personagens são construídas de maneira distante do telespectador, com poucos traços de humanidade, e acabam contribuindo fortemente para o teor tenso e tenebroso do filme. O que é uma grande arma utilizada por Miller, também acaba se tornando um defeito, visto que, ao chegar ao clímax da película, o distanciamento com as personagens dificulta o que seria um grande momento de comoção. Acompanhar o percurso e a evolução dos irmãos Schultz e de John Du Pont também acaba sendo algo árduo, que é deixado em segundo plano por aqueles que assistem à película.

Uma das maiores dificuldades de Foxcatcher é prender o telespectador. Poucos diálogos, uma fotografia propositalmente pesada e repetidos momentos de tensão entre as personagens não irão agradar a todos. O filme, muitas vezes, parece se arrastar com cenas desnecessárias e momentos que poderiam conter mais história. Miller poderia ter apelado mais para um lado sentimental, ou pesquisar um mais de enredo para agradar o grande público. Películas que seguiram o estilo biográfico e que retratam fatos do esporte, como Rush – No Limite da Emoção (2013) e Menina de Ouro (2005), conseguiram captar melhor o público; não somente por serem grandes produções, mas principalmente por buscar maiores acontecimentos ao decorrer do filme e, por fim, conseguirem entreter — que é um dos pontos fracos de Foxcatcher.

Entre defeitos e proezas, o filme de Miller consegue fazer um retrato cru dos Estados Unidos antes de uma de suas maiores crises econômicas. A ideia de que o dinheiro compra tudo fica evidenciada nos primeiros momentos da película, quando Du Pont consegue Mark, formar sua própria equipe e, posteriormente, após uma grande relutância, conquista Dave. Não é uma crítica tão explícita como fez Scorsese em O Lobo de Wall Street (2013), porém, segue o mesmo objetivo. A ilusão dos milionários de que podem comprar tudo, inclusive nossos valores, é desmistificada. O surgimento de pessoas com ideais diferentes do de Du Pont e a percepção de que não pode manipulá-los completamente e tê-los em suas mãos, leva o magnata à loucura, concretizada pela tragédia no final do filme. O diretor reforça a visão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925) de que vivemos na modernidade líquida que, por sua vez, é repleta de volatilidade e incertezas, nas quais as relações são artificiais e frágeis.

Foxcatcher não agradará a todos e, apesar de contar com grandes atores de Hollywood, não tem o apelo de uma grande produção da indústria cinematográfica. Está de longe de ser um dos melhores filmes do ano, todavia Miller deve ser respeitado por sua audácia em produzir algo que conquista e ambienta pela fotografia e pelas atuações, e muito pouco pelo diálogo e o roteiro. Filmes como esse são necessários tanto como para a observação de novas técnicas do cinema como para a reflexão acerca do mundo em que vivemos e os valores que atribuímos às relações pessoais.

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher) — EUA, 2014
Direção: Bennett Miller
Roteiro: E. Max Frye, Dan Futterman
Elenco: Channing Tatum, Mark Ruffalo, Steve Carell, Anthony Michael Hall, Brett Rice, Daniel Hilt, Guy Boyd, Roger Callard, Sienna Miller, Tara Subkoff, Vanessa Redgrave
Duração: 129 min.

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.