Crítica | Fragmentado

estrelas 4

M. Night Shyamalan teve uma carreira problemática em Hollywood. Tendo sido considerado o “novo Hitchcock” devido a seu trabalho em O Sexto Sentidolouvado tanto pela crítica quanto pelo público, o diretor continuou se demonstrando uma figura promissora com longa-metragens como Corpo FechadoSinaisA Vila. Isso, contudo, não refletiu em sua aceitação por parte das audiências, que cada vez menos consumiam suas obras, especialmente após elas serem massacradas pelos críticos, como é o caso de Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar, chegando a tal ponto que Depois da Terra sequer fora anunciado como um filme de Shyamalan, como era o costume. Felizmente, A Visita representou um retorno do diretor à sua época de ouro, ainda que não em total forma – Fragmentado vem para mudar isso, resgatando tudo aquilo pelo qual nos apaixonamos nos primórdios da filmografia do realizador.

thriller tem início em uma comemoração de aniversário de uma garota. Enquanto ela e suas amigas se divertem, uma delas, Casey Cooke (Anya Taylor-Joy) se demonstra à parte de todos, permanecendo em silêncio, sendo a excluída do grupo. Na hora de ir embora, o pai da aniversariante oferece uma carona para a menina, junto de outra amiga. Mal sabiam, contudo que o pai seria desacordado por um homem desconhecido que sequestraria as três garotas. Mantidas em cativeiro, elas precisam arranjar uma forma de escapar, enquanto descobrimos mais sobre Kevin (James McAvoy), seu sequestrador, que conta com vinte e três personalidades distintas vivendo em seu corpo, com uma, referida apenas como a Besta, estando prestes a se libertar.

Antes de entrarmos nos muitos acertos de Fragmentado, comecemos pelos seus deslizes, que são poucos, mas consideráveis, prejudicando parte da atmosfera de tensão e até a suspensão de descrença tão necessária ao funcionamento da obra. Através da figura da psiquiatra de Kevin, a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), o roteiro de Shyamalan busca firmar sua construção em um fundamento científico, ou quase, infelizmente, isso afeta como encaramos a persona quase sobrenatural de Kevin, especialmente no terceiro ato do longa-metragem. Se tal figura se ausentasse, não funcionando como um recurso do texto presente unicamente para fornecer explicações ao espectador, aceitaríamos muito melhor a condição mental do personagem, que diretamente afeta seu corpo físico – o roteirista, dessa forma, tira um pouco do trabalho destinado à nossa imaginação, um típico caso de quando o menos seria mais.

Outro deslize da obra são os flashbacks da infância de Casey. Evidente que isso está presente para construir a personalidade da garota, explicar o porquê de seu constante silêncio, mas isso poderia ser feito sem a presença de tais cenas, deixando mais a cargo de nossa interpretação dos sinais apresentados pelo filme. Uma das cenas finais dá cargo disso, através da relutância da protagonista (não irei dizer mais para não entregar algum spoiler). É como se Shyamalan não confiasse mais em seu público, querendo entregar tudo o mais mastigado possível. O mais agravante é que tais sequências, inseridas ao longo da projeção, prejudicam o ritmo da narrativa, criando rupturas que dilatam o tempo de duração, tanto se tratando de nossa percepção da obra, quanto da extensão do filme em si.

O diretor, porém, consegue se desvencilhar dessas armadilhas que ele próprio insere em sua produção ao criar uma atmosfera verdadeiramente claustrofóbica para nós, espectadores. Muitas vezes sentimos como se estivéssemos presos ali ao lado das três garotas, cuja única interação são as diferentes personas de Kevin, que cria uma aura de instabilidade ao passo que jamais sabemos quando as mais ameaçadoras delas irão ressurgir. O melhor é que o roteiro sabe trabalhar tudo isso por um viés mais psicológico, sabendo que a violência física propriamente dita surte menos efeito que o clima ameaçador fornecido pela sensação de incerteza, tão presente ao longo dos cento e dezessete minutos de projeção.

Esse fator, evidentemente, é mérito de Shyamalan, cuja decupagem jamais revela com clareza o que estamos prestes a ver. O diretor trabalha com um gigantesco espaço fora da tela, que mantém a tensão como uma constante angustiante, algo que já pode ser visto nos minutos iniciais do longa, mais especificamente na sequência do sequestro. Através de movimentos de câmera com evidente função narrativa, buscando criar o suspense, sem estragar a surpresa, o realizador brinca com nossas expectativas e quando esperamos algum tipo de “estouro”, nos deparamos com a calma de uma das personas de Kevin, tranquilidade essa que nos perturba mais do que qualquer personagem verborrágico.

James McAvoy, que conta com a árdua tarefa de representar esses diversos personagens, nos entrega seu melhor trabalho em anos, demonstrando controle absoluto desse antagonista de tantas facetas. Apesar de seu figurino se alterar para refletir a personalidade que se sobressai no momento, conseguimos identificar qual delas está presente unicamente pelas expressões faciais e voz do ator, que se torna uma figura verdadeiramente assustadora, sem exagerar. Essa moderação na construção de cada uma das personas de Kevin é essencial para que a figura da Besta se sobressaia e, nesse ponto, Shyamalan não tem medo de explorar a vertente sobrenatural da obra, enquanto McAvoy chega a parecer como se fosse outro ator totalmente distinto, nos fornecendo uma representação verdadeiramente apavorante.

Ele, porém, não é o único que se destaca, visto que Anya Taylor-Joy, mesmo com poucos diálogos, consegue transmitir profundo medo, sem soar como a figura fragilizada, típica de filmes de terror. A atriz, que já se destacara em A Bruxa, agrega à obra um alto teor de realismo, sem ser aquela protagonista que toma as decisões mais estúpidas possíveis ou tira ideias simplesmente do nada. Tudo que é realizado por ela é explicado ao longo do filme, pautado em suas observações do local e de seu sequestrador, por ser uma pessoa que claramente conta com algum tipo de trauma, ela consegue melhor entender o antagonista e sua percepção bastaria para nós próprios tomarmos consciência de sua condição, dispensando, portanto, os didatismos que giram em torno da figura da psiquiatra falada acima no texto.

O ato final, sim, conta com alguns exageros quando se trata da figura da Besta, mas isso é perfeitamente contornado pelo surpreendente plot-twist, que justifica as escolhas do diretor, ao passo que aprofunda consideravelmente toda sua construção até aqui. De fato, ao assistirmos os segundos finais da projeção, toda nossa percepção da obra é alterada, ela ganha mais peso e tem sua própria natureza transformada em algo mais. Aqui faço um apelo para aqueles que viram o filme, que não entreguem sobre o que estou falando nos comentários abaixo.

Como um triunfal retorno às origens, Fragmentado nos faz lembrar de tudo o que tanto gostávamos na filmografia de M. Night Shyamalan. Através de um thriller marcado pela incerteza e instabilidade, o diretor sabe gerenciar as expectativas do espectador plenamente, de forma similar ao que fizera há tantos anos com O Sexto SentidoCorpo Fechado. Com belas atuações e o melhor trabalho de direção de Shyamalan em anos, temos aqui uma obra que redime, de uma vez por todas, o realizador, nos deixando ansiosos pelo o que está por vir e na vontade de assistir Fragmentado mais uma vez, dessa vez, com o olhar diferenciado que o seu twist final nos proporciona.

Fragmentado (Split) — EUA, 2016
Direção:
M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson, Betty Buckley, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus
Duração: 117 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.