Crítica | Fragmentos do Horror

O ano de 2017 tem sido muito especial para fãs de mangás no Brasil. Além da republicação de grandes clássicos como Lobo Solitário, Vagabond, Cavaleiros do Zodíaco e Akira, muitas editoras têm apostado também em títulos inéditos de autores consagrados no Japão como é o caso de The Ghost in the Shell, Pluto e Alive. E este é o caso da editora Darkside que trouxe neste ano Fragmentos do Horror, de Junji Ito.

Apesar de possuir um portfólio considerável, Fragmentos do Horror é somente o segundo trabalho de Ito publicado no Brasil. O primeiro foi Uzumaki no longínquo ano de 2006 pela editora Conrad. Ito é um dos maiores mangakás do gênero de horror da atualidade; com seu característico estilo surreal e desenhos de formas distorcidas, suas histórias são inquietantes e perturbadoras.

Fragmentos de Horror é um título absolutamente adequado para esta coletânea de oito histórias curtas, pois trata-se de uma síntese precisa do que encontramos no conteúdo do mangá. As muitas formas pelas quais o horror pode se manifestar assumem aspecto grotesco, escatológico e doentio ao longo dos contos. O que acontece aqui é que o leitor se sente desconfortável e incomodado com situações e imagens criadas por Ito. O choque se dá pelo estranhamento e não pelo susto; e aí, naturalmente, o que é estranho ou diferente gera medo. Prova disso é o momento de Monstro de Madeira no qual Megumi olha pela porta entreaberta e vê Manami em atitudes no mínimo estranhas; ou então em Pássaro Negro, quando vemos a mulher desconhecida pela primeira vez. São situações inicialmente mundanas, que conseguimos visualizar facilmente em nossas vidas, e por isso verossímeis, mas que se transformam em coisas estranhíssimas em poucos quadros.

A arte da capa é uma adaptação do famoso quadro O Grito, de Edvard Munch, marco do expressionismo alemão. Os sentimentos de angústia e desespero são os mesmos que Ito transmite em diversos momentos de sua obra, como, por exemplo, em Tomio – Gola Rulê Vermelha e Magami Nanakuse. Ainda do expressionismo alemão, Ito toma emprestado a sensação de desconexão com a realidade, que permeia vários de seus contos, e também as figuras e expressões deformadas, como percebe-se facilmente em Magami Nanakuse, Pássaro Negro e Dissecação-chan.

Arte da capa de Fragmentos do Horror.

Apesar de tais influências, há bastante originalidade e criatividade em Fragmentos do Horror. O livro começa com Futon, o mais curto e também mais tímido conto deste volume. Mesmo com uma linda página dupla e do forte teor alucinógeno, sua conclusão é fraca e até decepcionante. Em seguida, vem Monstro de Madeira, que consegue criar uma atmosfera angustiante, transmitindo ao leitor uma forte sensação de que algo está errado, mas o final ainda fica aquém do esperado. Os momentos mais tensos ainda estariam por vir.

Já a partir de Tomio – Gola Rulê Vermelha a qualidade das histórias cresce e Ito, aparentemente, assume maior confiança no desenvolvimento dos contos, nos conduzindo por caminhos tortuosos, passando pelas situações mais inusitadas e assustadoras que se pode imaginar. Inclusive, no final do volume, há um posfácio no qual Ito fala um pouco sobre como foi o processo criativo de Fragmentos do Horror, de sua própria adequação e evolução após um período de oito anos sem escrever.

Fragmentos do Horror é de fato um conjunto de pequenas ideias ou experimentações de Ito, sendo que muitas delas têm inclusive potencial para virarem histórias maiores ou serem adaptadas para outras mídias. Durante a leitura imaginei facilmente um filme ou anime de Pássaro Negro e Suave Adeus, por exemplo. Ambos possuem um desenvolvimento surpreendentemente consistente (levando-se em conta o pouco número de páginas), personagens interessantes e um final criativo e impactante.

Vale a pena observar que o conto Magami Nanakuse tem algumas semelhanças com o filme franco-canadense Martyrs. Apesar da excentricidade das personagens de Ito, que destoa bastante da seriedade das personagens do filme, há um viés bem parecido na motivação e nos métodos dos vilões de ambas as obras. Assim, quem gostou muito deste conto, pode encontrar algo parecido no filme (com mais crueldade e violência, ressalto).

Fragmentos do Horror é um lançamento mais do que acertado, tanto pela qualidade do material quanto pelo peso do nome de Junji Ito. Seu terror estranho e surreal é incômodo, inquietante e não deixa o leitor se esquecer tão facilmente de algumas passagens. Sua arte transita entre o mundano e normal até o disforme e horripilante numa simples virada de página, do jeito que deve ser para este tipo de história. Uma ótima introdução à obra de Ito e também ao terror japonês.

Ma no kakera – Japão (2014)
No Brasil: Fragmentos do Horror (2017)
Texto: Junji Ito
Desenhos: Junji Ito
Capa: Junji Ito
Editora: Darkside
224 páginas (edição nacional)

DANIEL TRISTÃO . . . Paulistano, gosto de quadrinhos desde criança, aos 10 anos me interessei por literatura ao ler suspenses infantojuvenis e ainda adolescente já assistia filmes como um dos meus principais hobbies. Alan Moore, Neil Gaiman, Warren Ellis, Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Christopher Nolan, Agatha Christie e H.P. Lovecraft são alguns dos autores que mais admiro. Sou formado em Administração e trabalho com TI; leio livros, gibis e assisto filmes mais do que muita gente considera normal, mas menos do que eu gostaria.