Crítica | Francofonia: Louvre Sob Ocupação

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estrelas 4,5

Assim como no histórico Arca Russa (2002), Aleksandr Sokúrov faz, em Francofonia (2015), uma viagem pela História através da Arte e reflete a condição humana em tempos de guerra e tempos de paz. Como cineasta, Sokúrov prova mais uma vez que pode aliar elementos das ciências humanas em um filme-ensaio, um documentário, ficção, alucinação ou tudo isso junto, guiado pelo espírito feminino da França, que repete a máxima iluminista de “Liberdade, Igualmente, Fraternidade“, e o fantasma narcisista de Napoleão Bonaparte, que em tudo vê a si mesmo e produto de sua causa. Como historiador, Sokúrov não está livre dos perigos que uma tese histórica pode trazer, o mais ingrato deles, a omissão, nesse caso, dos judeus, parte da obra que poderia inclusive dar um complemento temático, orgânico e necessário à sua reflexão. Essa ausência é a única parte negativa do filme, mas ela não pesa na observação do todo e ganha sentido — concordemos ou não com ele — ao final.

Para contextualizar essa escolha, é preciso olhar com maior atenção para o filme, primeiro, partindo de sua metáfora da memória através do tempo e da reescrita da História, talvez um tipo cinematográfico de revisionismo, oposto ao executado por Tarantino em Bastardos Inglórios Django Livre, por exemplo. Sokúrov não está preocupado em reescrever fatos com polêmica, em recolocar atores históricos em lugares onde não estiveram, em marcar o horror na pele de indivíduos que nunca sofreram na pele a dor que infligiam aos seus dominados.

Qual é, então, a proposta do diretor? Se sabemos que sua intenção é passear por um instantâneo do passado, e de lá, lançar algumas luzes (ou sombras?) para o presente, para quê isso serve? O que ele propõe, com isso? Vejam que dúvidas assim são legítimas à medida que o público vê um filme parcialmente cifrado, que exige engajamento e imersão do espectador para sintonizar-se com a multiplicidade de formatos — a alteração das dimensões da tela também faz parte da narrativa –. Sokúrov não é um diretor fácil, porque, como todo poeta de imagens, prefere falar pouco dizendo muito, escolhendo com precisão as cores, os ângulos, planos, efeitos sonoros, tempo e camadas textuais com as quais irá apresentar, de maneira lírica (esta é a chave!) a sua mensagem. Fazer poesia com a lembrança trágica do passado da Europa, tendo o Museu do Louvre e a França como palco é um exercício de análise de identidade, de presença e ausência, de escrita da “história dos vencedores” sobre a “outra história”, a dos perdedores, aquela não contada nem nos livros, nem no filme.

De certa forma, a autocrítica serve como impulso para o mais contemporâneo bloco da obra, aquele onde temos o diretor em seu escritório, tentando estabelecer contato com um amigo tripulante de um navio, em um mar bravio, carregando inúmeras obras de arte. Este é o nosso tempo. Perdidos, no mar da História (a ideia da arca, assim como no filme de 2002, volta aqui, bem como o uso do mar como metáfora do tempo e da arte como eterna marca do homem sobre a Terra, muito mais do que sua descendência), o tripulante pós-moderno não consegue estabelecer um diálogo, a tecnologia parece servir apenas de sinalização de que ele existe, mas surte pouco efeito quando mais se precisa transmitir algo importante através dela. Claro que existe exagero nessa visão, mas perceba que ela tem sim paralelos com a realidade, e não são poucos. O curioso é que, para se salvar do mar revolto, a velha prática de jogar a carga no mar é executada. Diante da quantidade de informações e dificuldades de comunicação em tempos de tempestade, muito conhecimento precioso é jogado ao mar, tratado como excesso e visto como desnecessário. A pergunta primária grita: o que será dessa “Nova Ordem” sem esse conhecimento descartado?

Uma das formas de construção colocadas no roteiro, também assinado por Sokúrov, é a importância da herança cultural, em cima da qual novos conhecimentos e perspectivas se construíram ao longo dos séculos. Sem isso, o que seria da humanidade? Como ele mesmo pergunta para si e para o público, em dado momento: “o que seria de mim se não conhecesse os olhos dos que vieram antes de mim?“.

O formato do filme favorece essa reflexão de ideias e criações através do tempo. Com o soberbo trabalho do fotógrafo Bruno Delbonnel, que já havia trabalhado com Sokúrov em Fausto (2011), o espectador atravessa paletas de cores saturadas como se afastasse cortinas para ver melhor o “novo velho mundo”. A ocupação retratada é tanto dos nazistas, cujo plot no filme é tratado como uma ameaça Universal, podendo ser aplicada a qualquer invasor e dominador bélico, cultural, ideológico… em qualquer tempo possível; quanto do público e do próprio diretor, que não pretendem administrar os tesouros do Museu, mas fazer-lhes perguntas, inferir-lhes significados, pedir-lhes conselhos como se fossem remédios certeiros para que a tragédia [da Segunda Guerra Mundial e outras] não se repetisse no futuro, ironia do diretor para os que imaginam a verdadeira função da História como uma prevenção de males.

Francofonia: Louvre Sob Ocupação é um cutucão poético em digital, um filme inquieto sobre uma ocupação que pode estar acontecendo agora mesmo, em outra conjuntura e com outros atores históricos, cujo resultado é impossível de se medir. O Louvre, no filme, explorado desde as suas origens medievais, passando por suas fundações e obras até o momento atual, onde a metalinguagem interfere em sua paz a fim de contar uma saga, serve como uma máquina do tempo para que Soúrov fale de arte, de vida e morte, de História e Memória, da humanidade, da base de um povo, e de uma identidade que não se pode conseguir de outra forma. Não é um filme fácil. Mas é uma experiência tremenda.

Francofonia: Louvre Sob Ocupação (Francofonia) — França, Alemanha, Países Baixos, 2015
Direção: Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Aleksandr Sokúrov
Elenco: Aleksandr Sokúrov, Louis-Do de Lencquesaing, Benjamin Utzerath, Vincent Nemeth, Johanna Korthals Altes, Jean-Claude Caër, Francois Smesny, Peter Lontzek
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.