Crítica | Frank

estrelas 3

A criação de músicas é um processo muitas vezes sigiloso. Alguns artistas têm rituais próprios e preferem não ser incomodados. Outros são tão reclusos que muitas vezes nem fazemos ideia de que estava em estúdio e quando descobrimos um álbum já está pronto e prestes a ser lançado. Essas são algumas das excentricidades do mundo da música.

Porém, ninguém foi tão excêntrico quanto o falecido comediante Chris Sievey que tinha como alter ego musical Frank Sidebottom, onde sua principal característica era usar uma cabeça gigante de papel machê em todos os shows, aparições e até mesmo no dia a dia. As suas músicas eram cheias de angústia, sofrimento com uma pequena dose de atitude punk.

O filme que leva o nome de seu alter ego, não é exatamente uma cinebiografia, pois foi inserido mais dramaticidade aos eventos ocorridos. Mas sim uma singela homenagem a todos os outros músicos que são ou foram tão diferentes e singulares quanto o próprio Frank/Chris.

Domhnall Gleeson é Jon, personagem responsável pela narrativa do filme e inspirado em Jon Ronson que também escreveu o roteiro. Um jovem frustrado que sempre quis viver de compor canções, mas se encontra preso na rotina do emprego comum. Quando um inesperado convite aparece é a chance que Jon estava esperando. Ele então embarca numa viagem para um local remoto juntamente com uma banda formada por músicos nada convencionais para a gravação de um álbum. A esquisitice da banda começa pelo próprio vocalista e líder, Frank que nunca foi visto sem sua enorme cabeça de papel machê, algo que Jon considera intimidante. Contudo, nada o impede de produzir e cantar as mais loucas músicas. Aos poucos Jon vai tomando gosto especial pela coisa e acredita piamente que a banda pode fazer sucesso, mas encontra em Clara um enorme obstáculo tanto para seus desejos quanto para sua sanidade.

Frank não é apenas um filme para ser visto. É preciso mergulhar a fundo no universo que nos é apresentado e até conhecer um pouco da história a qual ele se originou. O homem por trás da máscara é alguém muito perturbado, instável e inseguro e essa enorme cabeça lhe dá a segurança que ele precisa para ser criativo, ousado e conseguir subir no palco. Sem ela, torna-se alguém que não sabe qual caminho escolher ou quem é de verdade. Contraponto esse que é possível notar graças a brilhante atuação de Michael Fassbender, literalmente o homem dentro da cabeça. Chris Sievey não possuía os problemas mentais insinuados no filme, mas sofria um pouco toda vez que tirava a cabeça, lhe deformando um pouco o nariz. Era como se aquele enorme adereço fosse uma parte real do seu corpo. Algo que fica bem evidente para o espectador mais próximo ao final do filme.

Outro ponto proposto pelo filme é a discussão, ainda que de forma indireta, de como a fama afeta a relação interna das bandas e qual é a noção que cada membro tem sobre o assunto. Jon claramente achava que essa era a resposta para tudo o que eles haviam passado aquele tempo todo na cabana, até mesmo uma forma de recompensa, enquanto os outros membros achavam que só aquilo ali que tinham era o suficiente.

A grande lição em Frank, e sim há uma moral, é aprender a abrir mão de uma verdade absoluta. Nesse caso Jon ao tentar consertar Frank e a banda acaba estragando tudo, pois, nada precisava ser mudado a não ser ele mesmo.

Frank (Frank – UK 2014)
Direção: Leonard Abrahamson
Roteiro: Jon Ronson, Peter Straughan
Elenco: Michael Fassbender, Domhnall Gleeson, Scoot McNairy, Maggie Gyllenhaal, François Civil, Carla Azar, Moira Brooker, Paul Butterworth, Phil Kingston, Billie Traynor, Shane O’Brien, Chris McHallem, Michael James Ford, Mark Huberman, Tess Harper, Bruce McIntosh
Duração: 95 min.

MELISSA ANDRADE . . . Uma pessoa curiosa que possui incontáveis pequenos conhecimentos desde literatura a filmes a reality shows a futebol alemão e está sempre disposta a aprender muito mais. Por isso sou Jornalista por experiência e vocação. Fotógrafa Profissional com muita paixão e um olhar apurado e Roteirista frustrada e uma Crítica de Cinema em ascensão.