Crítica | Frankenstein (1931)

“Está vivo! Agora eu sei o que é se sentir como um deus!”

A autora britânica Mary Shelley revolucionou a literatura europeia ao escrever Frankenstein, um terror gótico, pioneiro em experimentar as fronteiras do horror com a ficção científica. O mesmo pode ser dito da obra-homônima cinematográfica, segunda reinterpretação dessa mesma história, adaptada diretamente da peça de Peggy Webling. Dessa forma, Frankenstein, de 1931, apesar de não ser o início da onda de monstros fomentada pela Universal Pictures, é, ao lado de Drácula, do mesmo ano, o verdadeiro precursor de algo, sob as medidas corretas, atemporal – a recriação cinemática de histórias e criaturas aterrorizantes que marcariam gerações, dando espaço para uma popularização crescente do gênero. Quando, todavia, colocamos Nosferatu, de 1922, ao seu lado, Frankenstein não se equipara. A glorificação permanece e o tamanho do legado é absurdo, incomparável no caso específico do Monstro de Frankenstein, que tem uma idealização imagética incapaz de ser esquecida, singular em sua composição visual. A obra redefine o horror, querendo distanciar-se do impacto gráfico para chegar ao impacto psicológico, de um monstro que não sabe o que é ser humano, exótico, relegado a ser estudado. Na premissa, os trabalhos moralmente questionáveis de Henry Frankenstein (Colin Clive), isolado em um ambiente inóspito, mas acompanhado de seu assistente Fritz (Dwight Frye), provam-se ser um sucesso. O homem cria vida e o conto torna-se um pedaço da história da sétima arte, mesmo sendo mais impressionante nos livros do que na tela. O grande destaque, porém, é a criatura que incorpora o monstro.

Em um primeiro plano, a direção de James Whale sabe imprimir ótimo suspense em diversas cenas. Devemos saborear, por exemplo, o enervante encontro do monstro com a pequena Maria (Marilyn Harris). Nesse âmbito, da relação da criatura com o mundo, Frankenstein alcança os seus maiores êxitos. A começar, o trabalho de maquiagem, provido por Jack Pierce, é assombroso, criando uma representação que ainda se categoriza como atual, nunca tendo sido superada por produções posteriores, que tentaram trazer visões diferenciadas do monstro. A iconografia não precisa ser o terror, mas um gancho. O brilhantismo intrínseco, no entanto, é responsabilidade de Boris Karloff, que molda um ser multidimensional, mesmo sem ter nenhum apoio do roteiro. O ator prova-se um gênio da fisicalidade, promovendo uma construção comportamental magnética. Tanto o olhar vazio, que solidifica uma aparente omissão de alma para a figura, quanto as expressões de alegria, estonteantes e verdadeiras, dão base para um personagem eterno. Os grunhidos nos levam a experimentar a dor, trazendo para o público, nos momentos de maior agonia, uma relação muito próxima deste com a criatura. De tal modo, sinaliza-se a carga de empatia que a interpretação de Karloff traz; um desempenho que deveria ser muito mais valorizado do que é. O monstro, portanto, emitindo apenas grunhidos, mas nos dando muito mais que isso, é o objeto de estudo mais maravilhoso dessa obra, tornando-a um marco de imediato – o desespero após afogar a garotinha no lago permanece impressionante.

O resto, contudo, é pobre. Nenhuma das interpretações consegue equiparar-se a de Karloff, visto que o roteiro não promove nada além do simplório para estas e suas respectivas personagens. De momentos tão marcantes quanto os que envolvem a criatura, apenas a contagiante loucura de Henry ao perceber que a sua criação está viva. No mais, em um olhar do início do filme, enquanto Frankenstein e Fritz – tendo uma rivalidade com a criatura pouco explorada de forma significativa -, trivialmente, buscam corpos humanos pelas ruas, percebe-se uma edição sem muita continuidade formal, mas adequada à situação. As incoerências retornam. A ideia de justificar a maldade de um monstro porque o cérebro dele vem de um antigo degenerado contradiz uma tentativa, por parte da obra, de dar mais camadas ao personagem. Se existe alguma construção ou caracterização mais complexa sendo feita, ela provavelmente se resume à performance de Karloff. As intenções para a narrativa, enfim, são resolvidas sem qualquer estudo, desprovido do mínimo de encorpamento, necessário para mais estruturação a diversos acontecimentos – a perseguição à criatura, a própria relação dela com Frankenstein e Fritz, o relacionamento de Elizabeth (Mae Clarke) com o seu noivo, entre outras pontuações. Em um tempo no qual a “indústria” via a passagem do cinema mudo para o cinema falado, nota-se, em Frankenstein, um constante aprimoramento da linguagem. O monstro, sem falas, é o maior acerto do filme, símbolo do envolvente, do imprevisível e do aterrorizante – mas também do tocante.

Frankenstein continuará a ter vida pelas próximas gerações de amantes do cinema de terror. Diante de toda a iconografia que traz, o impacto é forte, como uma fita inovadora, posterior ao horror de antes. Estamos falando de um dos mais icônicos filmes de monstro da história, senão o mais, que permitiu o mundo assustar-se mais com a imprevisibilidade de um ser do que com suas feições particulares. Nosferatu era um pesadelo. Frankenstein, mesmo visualmente ímpar, é triste. O longa-metragem de James Whale, incomparável à obra-prima de F. W. Murnau, quer distanciar-se dela, ao passo que aproxima-se esteticamente para evidenciar o contraste. A maldade do ser, maniqueísta, some, dando espaço para um terror que não mais quer apenas aterrorizar, mas quer chocar e refletir sobre a natureza humana. O apuro estético ainda mostra-se atemporal – o expressivo desenho de produção remetente a obras do expressionismo alemão, cheio de arquiteturas disformes e sombras contornadas, além da própria figura da criatura, uma imagem imortal e inesquecível. Em termos narrativos, porém, temos uma intenção que não casa com o resultado. Semelhante à criatura, Frankenstein permanecerá caminhando, mesmo que dentro dele existam tanto partes que ganharam vida pelas mãos de James Whale quanto partes mortas, que se apodreceram pela ação do tempo. Juntas, as intocadas e as desgastadas, continuam a nos, surpreendentemente, encantar, graças a, acima de tudo e todos, Boris Karloff e uma interpretação à beira do indescritível, sinônimo do melhor que o cinema de monstro há de nos oferecer.

  • Crítica escrita em 11 de março de 2018, mas não republicada.

Frankenstein – EUA, 1931
Direção:
James Whale
Roteiro: Garrett Fort, Francis Edward Faragoh (baseado na peça de Peggy Webling e no livro de Mary Shelley)
Elenco: Colin Clive, Mae Clarke, John Boles, Boris Karloff, Edward Van Sloan, Frederick Kerr, Dwight Frye, Marilyn Harris, Michael Mark
Duração: 71 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.