Crítica | Frankenstein (1931)

estrelas 5,0

Adaptado da peça de Peggy Webling, que, por sua vez, é originada do icônico romance de Mary Shelley, Frankenstein é parte da famosa franquia de monstros da Universal, iniciada com O Corcunda de Notre Dame. Curiosamente, Bela Lugosi, que vivera o vampiro de Bram Stoker em Drácula, no mesmo ano, tinha pretensões para participar da obra como o Dr. Frankenstein, mas, ao invés disso, fora escalado para viver o monstro em si. O resultado, após inúmeros testes de maquiagens, contudo, foi um completo fracasso e o ator foi substituído por Boris Karloff, que garantiu a imortalidade dessa retratação de um dos maiores personagens da literatura gótica.

A história todos já conhecemos. O Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive), absorto e praticamente hipnotizado pelos seus próprios experimentos deseja trazer vida a um cadáver. Para isso ele rouba inúmeras partes de diferentes mortos a fim de construir seu próprio ser humano. Seu assistente, Fritz (Dwight Frye), todavia, acaba trazendo para o doutor o cérebro de um assassino, garantindo à criatura renascida um caráter violento que logo foge do controle de seu criador.

O diretor James Whale não perde tempo em nos apresentar de início os personagens centrais de sua narrativa. Na primeira sequência estamos em um cemitério, onde familiares choram pela perda de um ente querido em meio a um cenário escuro repleto de crucifixos inclinados, remetendo-nos automaticamente às influências do Expressionismo Alemão na obra. A presença da tristeza na cena perfeitamente ilustra o caráter nefasto das experiências de Frankenstein – o corpo logo fora enterrado e ele, em meio a símbolos religiosos o tira de seu descanso eterno sob a terra. Os planos médios que percorrem os familiares se contrapõem aos closes nos rostos de Henry e Fritz que já se estabelecem como uma espécie de vilões para a trama.

A apresentação de seu laboratório solidifica essa nossa percepção – um lugar inóspito, escuro, aparentando um velho castelo, estratégia certeira da Universal, ao passo que o público já havia se deparado com Drácula anteriormente em um de seus filmes. O design de produção é invejável e mesmo hoje em dia permanece irretocável, nos fazendo verdadeiramente acreditar que estamos diante da pesquisa de um cientista maluco. A tensão, dessa forma, se estabelece de forma crescente no espectador e alcança o primeiro ponto alto na realização do experimento, que eleva o cadáver aos céus para ser atingido por um raio. Neste ponto Colin Clive, vivendo o doutor, assume um caráter verdadeiramente louco, um homem que vê em seu trabalho tudo que há de importante para sua existência.

Em contraponto temos sua noiva, Elizabeth (Mae Clarke), que traz uma dose de sanidade a todos aqueles acontecimentos e nos faz enxergar o que seu noivo era antes de ser absorvido pela sua pesquisa. As cenas fora da torre do doutor chegam a criar um choque no espectador, não só pela maior intensidade da luz, como pela ambientação em si. Esse fator, naturalmente, apenas amplia a sensação de que aquele local sombrio afeta a mente de Henry, transformando-o em algo muito próximo do monstro que ele criaria.

Com a experiência terminada e a criatura criada a tensão da obra sofre algumas mudanças. O suspense, de fato, continua, mas de forma diferenciada e ao invés da curiosidade em vermos o experimento de Frankenstein dado continuidade sentimos uma nítida angústia ao perceber que aquilo nunca poderia dar certo. A cada momento esperamos que o monstro assuma o caráter de psicopata de seu cérebro e Boris Karloff nos convence a cada segundo com sua retratação quase robótica da criatura. Cada movimento realizado é como se observássemos uma pedra se movendo, o que perfeitamente condiz com a força sobre-humana do ser. Seu olhar ameaçador permanece assustador até hoje e grande parte do trunfo é, claro, do ótimo trabalho de maquiagem, que aumenta as duras feições de Karloff garantindo a ele uma aparência cadavérica.

Mais uma vez a influência do Expressionismo Alemão se faz presente e a cada aparição do monstro, especialmente na icônica sequência da perseguição final, que parece ter sido diretamente tirada de O Gabinete do Dr. Caligari, mas que nem por isso perde seu impacto ao ser assistida agora na produção americana.

Frankenstein certamente é merecedor de sua fama no cinema. Sob a batuta de James Whale, o monstro ganha vida através de Boris Karloff em uma retratação imortal da icônica criatura de Mary Shelley. Mesmo mais de oitenta anos depois a obra mantém seu impacto e o suspense, acompanhado de chocantes cenas, é o suficiente para manter qualquer um com olhos presos na tela. O triste é constatar que dificilmente conseguem trazer uma experiência tão aterradora quanto essa na atualidade.

Frankenstein (idem – EUA, 1931)
Direção:
James Whale
Roteiro: Garrett Fort, Francis Edward Faragoh (baseado na peça de Peggy Webling e no livro de Mary Shelley)
Elenco: Colin Clive, Mae Clarke, John Boles, Boris Karloff, Edward Van Sloan, Frederick Kerr, Dwight Frye
Duração: 70 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.