Crítica | Frankenstein: Entre Anjos e Demônios

estrelas 1

Existe um tipo de filme ruim que você não consegue odiar de todo, mas em compensação não tem praticamente nenhum elogio para ele. Esse talvez seria o caso de Frankenstein: Entre Anjos e Demônios, com a diferença de que o espectador não sabe direito o grau de ódio que teve da obra e, salvo a trilha sonora e uma surpresa meio boba ou outra (que de certa forma são minimamente interessantes, afinal, quando a gente paga ingresso pra ver uma coisa dessas, não estamos sendo muito racionais, não é mesmo?), não há nada de relevante no filme.

O roteiro foi escrito com base nas personagens de Mary Shelley, especialmente o “homem-retalho” que dá título à obra, e teve seu conflito interno vindo da Graphic Novel I, Frankenstein, de Kevin Grevioux. Basicamente vemos Frankenstein revoltar-se contra o seu criador e, por puro acaso, dar de frente com um grupo de demônios que queriam levá-lo à presença de Naberius, o Príncipe das Trevas. Na primeira luta, as Gárgulas-Anjos-Ou-Sei-Lá-O-Que aparecem e ajudam um confuso Frankenstein a vencer os capirotos, que morrem liberando um foguinho do corpo.

O que mais me chama atenção nesse tipo de obra é que você consegue divisar nas entrelinhas uma seriedade praticamente impossível numa história desse porte! Dá a impressão de que o roteirista estava realmente se levando a sério e, por isso mesmo, desanda a citar símbolos e tenta elencar metáforas visuais e verbais a fim de dar profundidade ao texto, uma tentativa que parece conto fantástico escrito por aluno do Ensino Médio, já que tudo no filme é muito gratuito, muito imediato, sem nenhum tempo para grande desenvolvimento dramático ou psicológico das personagens.

Há quem aponte no Frankenstein de Entre Anjos e Demônios uma interessante força psicológica, mas é preciso entender que esse desenvolvimento – ou pelo menos a sua citação – não é de Stuart Beatti ou mesmo de Kevin Grevioux, mas de Mary Shelley. A única parte que realmente tem a ver com a obra da escritora é justamente a motivação inicial de Frankenstein, considerando aí todas as licenças artísticas usadas para adaptação – mas disso eu não reclamo.

Todavia, a trama caminha para um outro lado. Frankenstein volta e meia acaba se encontrando com as Gárgulas e somos inseridos com ele numa guerra de câmera lenta entre anjos e demônios, onde os dois lados do bem citados anteriormente lutarão contra diabos-humanoides em defesa da humanidade (quem já assistiu Anjos da Noite vai achar que está vendo um remake, só que em outro universo). Perguntas como: “por quê tão poucas Gárgulas por tão longo tempo? Como as Gárgulas se criam? Frankenstein criou alma ou uma resistência monstruosa à possessão? Frankenstein podia se apaixonar a ponto de guiar sua ação em defesa de uma garota? Como se cria uma alma numa criatura criada por um humano” … são deixadas de lado, como se fossem amenidades fúteis. Nenhuma dessas questões são impossíveis de existir, mas isso só pode acontecer se há explicações e desenvolvimento para tanto.

Ao passo que o filme caminha para o seu término, percebemos que os furos de roteiro são os mais infantis possíveis. Como existem três lados em luta (o anti-herói Frankenstein, os anjos-Gárgulas e os demônios), o mínimo que deveria ser feito era expor a contento informações sobre cada um deles, a fim de criar no espectador a sensação de notabilidade dentre as personagens, uma característica bastante comum em filmes do gênero simplesmente por um motivo: fazer valer a luta final. Ora, nós ficamos totalmente indiferentes à batalha no prédio dos capetas e a única coisa que realmente se destaca ali é a já citada resistência à possessão de Frankenstein – apesar de não ter sido explicada nem antes nem depois, algo que paradoxalmente tira pontos da surpresa.

Mas o pior de tudo talvez seja o foco no romance da metade para o final. Num mundo em guerra e com personagens que passaram a vida matando e lutando para defender a humanidade (com qual objetivo mesmo?), a paixão adolescente vem na mesma medida que a canastrice de parte do elenco. Até Bill Nighy, de quem gosto muito, parece estar completamente desconfortável no papel, entregando um capetão-chefe que mais parece o pai de um adolescente com raiva ou uma personagem com a maquiagem errada vinda de um dos filmes da franquia de Piratas do Caribe. É de doer a alma… Mas não a consciência de Mary Shelley viva em todos nós, porque é preciso muito esforço (e sem resultados finais) para ver vestígios do bom terror gótico se expressar no visual e textual de Entre Anjos e Demônios.

Frankenstein: Entre Anjos e Demônios  (I, Frankenstein) – EUA / Austrália, 2014
Direção: Stuart Beattie
Roteiro: Stuart Beattie, Kevin Grevioux (baseado nos personagens de Mary Shelley).
Elenco: Aaron Eckhart, Yvonne Strahovski, Miranda Otto, Bill Nighy, Jai Courtney, Socratis Otto, Aden Young, Caitlin Stasey, Mahesh Jadu, Steve Mouzakis
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.