Crítica | Frantz (2016)

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estrelas 4

Em 1932, o diretor alemão Ernst Lubitsch, já em exílio artístico nos Estados Unidos, co-adaptou e dirigiu uma peça de Maurice Rostand para a Paramount Pictures, o filme Não Matarás (Broken Lullaby, no original), que conta a história de um soldado e músico francês da Primeira Guerra Mundial que, consumido em culpa por ter matado um alemão, viaja até a cidade do jovem militar para conhecer sua família, contar o que aconteceu e pedir perdão. Discutindo diretamente o pacifismo, a sensibilidade artística e os horrores da guerra, este mesmo enredo é visitado por François Ozon em Frantz (2016), que adapta com bastante competência este romance de profundas questões humanas e bem inseridas discussões históricas.

É impossível não perceber como a polêmica dos imigrantes na Europa durante a safra em que o filme foi realizado, especialmente nos países que o produziram (França e Alemanha) é abordada aqui, mas dentro de um outro contexto, onde a inimizade de guerra, a destruição de muitas cidades francesas e a humilhação alemã com a assinatura do Tratado de Versalhes trazem à superfície um forte pensamento xenofóbico para as duas nações. Ao mesmo tempo, o roteiro de Ozon, com colaboração de Philippe Piazzo, destaca certos aspectos sociais e políticos da República de Weimar em escala menor, através de “reuniões políticas em um pequeno bar”, fazendo surgir o ovo da serpente que chocaria no dia 30 de janeiro de 1933, com o início da Alemanha Nazista.

Alternando cenas preto & branco e coloridas, em um exercício belo e correto mas não particularmente glorioso do fotógrafo Pascal Marti (parceiro de Ozon em outros dois filmes), o longa vai aos poucos construindo uma atmosfera de descobertas, sentimentos e verdades, de certa forma “enganando” o espectador para que ele suspeite de alguma situação que em breve descobrirá como falsa. A princípio, o diretor abraça o luto de maneira ritualística, flertando, em espaços abertos e escalas de cinza, com O Quarto Verde (1978), para logo em seguida deixar claro que este será apenas um dos muitos aspectos da película, que nos sugere uma relação homossexual, depois a possibilidade de o protagonista estar louco, o conhecimento lírico da verdade e algumas agressões pessoais e desilusões intricadas, todas bem trabalhadas em um roteiro labiríntico, que respeita seu tema, falhando pouquíssimas vezes — na extensão de cenas ou finalização de arcos de personagens –, sabendo bem a hora de mostrar ou somente sugerir alguma coisa para o espectador.

O compositor Philippe Rombi faz aqui uma ótima adaptação do Noturno nº20 de Chopin, que embala algumas das melhores cenas do filme, tornando a obra romântica aqui e nas escolhas de ambientação, como notamos na festa tradicional alemã; na entonação d’A Marselhesa; no movimento de um quarteto de cordas de Tchaikovsky e nos temas originais do compositor. Neste amontoado de sentimentos à flor da pele, entre o romance romântico e o niilismo, é que se destacam Adrien (Pierre Niney) e Anna (Paula Beer), ambos os atores em ótimas interpretações. De certa forma presos a um homem morto e posteriormente impulsionados a viver fora da culpa e do luto, Adrien e Anna perceberão que, uma vez retiradas suas mortalhas atuais, sobrarão ainda diversas camadas de obrigação social e moral para cumprir e respeitar. E que essas camas não são tão diretas quanto uma discussão sobre “crimes de guerra”.

Tendo em mãos um elenco afiado, Ozon dirige aqui um filme que abraça a História para mostrar a força e a fraqueza da humanidade ao longo da vida. Frantz é uma história de culpa, mas também de redenção, de obrigações sociais, de renúncias, desalentos e esperança. Principalmente de esperança. Porque mesmo depois da destruição causada pela guerra, da corrente preparação ideológica para um outro grande conflito e dos impasses da vida — além da deixa artística com o quadro O Suicida, de Édouard Manet — Anna encontra razões para viver. O filme é encerrado realmente como um oposto de seu início, também em aspectos técnicos, tais como música, cor e temática. O jogo entre vida e morte; guerra e paz; suicídio e esperança  de melhores dias para os dissabores é a mensagem final do roteiro. Um delicado e bem construído chamado para viver a vida.

Frantz (França, Alemanha, 2016)
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon, com colaboração de Philippe Piazzo (baseado no roteiro de Ernst Lubitsch, Reginald Berkeley, Samson Raphaelson e Ernest Vajda, adaptação da peça de Maurice Rostand).
Elenco: Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow, Anton von Lucke, Cyrielle Clair, Alice de Lencquesaing, Axel Wandtke, Rainer Egger, Rainer Silberschneider, Merlin Rose
Duração: 113 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.