Crítica | Freaks and Geeks – A Série Completa

estrelas 5,0

“O baile é amanhã. Ela é uma líder de torcida. Você assistiu Star Wars vinte e sete vezes. Faça as contas.”

Contém spoilers.

A vida escolar é um dos períodos mais interessantes para serem abordados em séries de TV. Enquanto os dilemas adolescentes passam a ser considerados dramalhões até mesmo superficiais com o chegar da vida adulta, o seu universo único é capaz de ser relevante para o público alvo ou até mesmo para os nostálgicos de sua época. Ganhando espaço aos poucos no cenário televisivo, os dramas adolescentes receberam um real destaque no início dos anos 90, com a série Beverly Hills 90210, também conhecida como Barrados no Baile, no Brasil. Com a popularização do subgênero, ao final da década de 90, Paul Feig escreveu o roteiro para um possível piloto de Freaks and Geeks, sua obra hipotética. Nas mãos de Judd Apatow, o roteiro foi para frente e exibido pela NBC, as desventuras dos irmãos Weir, na década de 80, tornaram-se realidade.

A trama tem dois focos principais, ambos protagonizados pelos Weir. Por um lado temos Lindsay Weir (Linda Cardellini), que transtornada pela morte de um ente querido decide transformar-se de estudante ideal em uma adolescente rebelde. Juntando-se aos Freaks, grupo composto por Daniel Desario (James Franco), Nick Andopolis (Jason Segel), Ken Miller (Seth Rogen) e Kim Kelly (Busy Phillips), Lindsay tem que se adequar à um mundo que não é, em um primeiro momento, verdadeiramente seu.

Por outro lado, Sam Weir (John Francis Daley), irmão mais novo de Lindsay, representa junto de seus melhores amigos: Neal Schweiber (Samm Levine) e Bill Haverchuck (Martin Starr) os Geeks. Tendo que lidar com a rejeição da maior parte dos alunos do William McKinley High School, o trio é fortificado pela amizade que um tem pelo outro, lidando com a maior parte dos problemas, juntos.

No lado dos Freaks, Lindsay, antiga “matematleta”, agora se vê tendo que lidar com problemas que não faziam parte de seu habitual. É papel de Kim se opor à entrada de Lindsay no grupo. Ela possui problemas pessoais sérios. Ela possui uma família desgastada e relações conturbadas com seus parentes. Ela é realmente uma Freak, deslocada socialmente não só do espaço acadêmico, como do mundo. Em contrapartida, Lindsay tem ao seu lado a família perfeita. Ela possui pais atenciosos. Possui condições econômicas agradáveis. Tudo está teoricamente à favor de Lindsay, então por que ela quer ser uma Freak? Se envolver com aqueles adolescentes marginalizados? Ela é realmente aquilo que aparenta ser? Um questionamento pertinente que é respondido apenas ao final do último episódio.

Pode ser usada como parênteses do item acima, o pequeno arco de Millie Kentner (Sarah Hagan) no episódio Dead Dogs and Gym Teachers. Após alguns acontecimentos, Millie, maior parceira de Lindsay antes dela se juntar aos Freaks, busca aproximação com o grupo de Daniel Desario. No entanto, diferentemente de Lindsay, a mudança de Millie soa artificial, enquanto a de Weir soa natural. A amizade entre as duas se eleva até chegar ao ápice enquanto uma tenta provar para a outra que aquele universo não pertence à outra. Uma prova de que uma verdadeira relação não precisa estar cercada pelas mesmas pessoas, pelos mesmos eventos e pelos mesmos objetivos.

Em termos interpretativos, Linda Cardellini é espetacular em transmitir as inseguranças de Lindsay. A personagem passa por recaídas do seu estado de espírito atual para o passado e nenhuma aparenta ser um artifício narrativo barato. É um trabalho de construção e desenvolvimento de personagem muito eficiente. O seu conflito com Kim Kelly, a título de exemplo, é provocativo, sem se tornar clichê. Em poucos episódios a divergência entre as duas sofre uma reviravolta monstruosa não deixando o arco maçudo.

Diferentemente dos Geeks, que já são abordados inicialmente em um nível de amizade enraizado, Lindsay tem que aprender a se relacionar com aquelas pessoas. Nick, personagem de Jason Segel, é o primeiro a estabelecer vínculo com a garota. Os dois acabam por entrar em um relacionamento, que foge das convenções desse estilo de série, acabando por se tornar mais crível. Segel, em um de seus primeiros grandes trabalhos, está perturbador, levando o espectador à sentir pena em determinados episódios e medo em outros. É o personagem com mais camadas dentro do trio masculino de Freaks. Já Ken Miller é Seth Rogen, e Seth Rogen é Ken Miller. E isso que estamos falando da estréia de Rogen atuando. Mas pelo menos o ator é funcional e engraçado. E o roteiro também colabora impulsionando, mesmo que tardiamente, um lado mais sensível do personagem na incorporação da personagem Amy Andrews (Jessica Campbell).

Mas ainda temos James Franco interpretando Daniel Desario, que com o auxílio do roteiro, faz emergir do arquétipo de má influência um personagem, assim como Nick, multidimensional. Mesmo situando os Freaks em meio à drogas, sexo e muito álcool, o roteiro não procura criticá-los moralmente. Não há certo e errado. O texto da série explora todas as questões apresentadas de forma bastante realista e ambígua. Nada é verdadeiramente preto no branco. Por exemplo, é papel de Daniel protagonizar a maior parte dos encontros dos Freaks com os Geeks. A conclusão desse arco no último episódio Discos and Dragons serve como uma amálgama para ambos os grupos, coincidindo com as diversas maneiras de se observar o mundo e de se comportar nele durante a fase escolar. Em uma visão mais pobre, os Geeks seriam uma concepção mais próxima do correto e os Freaks do errado. Mas temos aqui uma obra que não trata ambos como opostos. Os dois só querem, no final das contas, se sentirem inclusos.

Para complementar é preciso ressaltar o episódio The Little Things e sua mensagem sobre politização na adolescência. Há um forte teor ácido envolto da presença do vice-presidente George Bush no colégio, que ressalta a importância da informação e da discussão de ideias. Quando Lindsay está confusa em o que perguntar ao político durante sua estadia, o Sr. Rosso (Dave Allen), orientador da escola, tem papel crucial na construção da personagem de Linda Cardellini. É um dos laços mais honestos entre professor e aluno da televisão. Além disso, também há uma impagável participação especial de Ben Stiller, que participou da série por convite de Apatow.

Levando a análise para o lado dos Geeks, temos uma ótima construção de aceitação pessoal. Sam não quer ser um nerd. Ele quer ficar com a garota de seus sonhos, ser respeitado pelos outros alunos e não sofrer mais o assédio moral dos bullys, principalmente de Alan (Chauncey Leopardi). Com a ajuda de seus amigos, ele vai entendendo que o mais importante é ele continuar a ser ele mesmo, pois no futuro o que restará de bom foi ter passado esse momento, atualmente tão problemático, com as melhores companhias possíveis.

Sua atenção e cuidado com Lindsay é muito bonita, e mesmo que não seja aprofundada, rende situações e diálogos muito bons, como os dos dois primeiros episódios Pilot e Beers and Weirs. A representação dos pais dos Weir, Jean Weir (Becky Ann Baker) e Harold Weir (Joe Flaherty), é feita de forma extraordinária pelos roteiristas. Adentrando no subjetivo paternal, temos aqui duas pessoas que buscam a todo custo manter contato com seus filhos. Enquanto os jovens tendem a se livrar dos mais velhos, os mais velhos entram em uma caminhada de reencontro com suas criações. Em episódios como Tricks and Treats, vemos com pesar Lindsay preterindo sair com seus amigos a ter um momento a sós com Jean, sua mãe, que acaba por ter que lidar com o distanciamento de sua filha. Para não tornar a carga dramática dos pais muito pesada e quebrar o tom da série, os dois, principalmente Harold, são impregnados com ótimas sacadas cômicas, rendendo desde a primeira cena momentos hilários.

O trio de Geeks é completado por Bill e Neal, os melhores amigos possíveis para se ter na história da televisão. Neal é o mais sério do grupo e o mais consciente do status de perdedores que os olhos alheios colocam neles. No entanto, Neal também procura retirar o conceito de Geek que os outros atribuem a ele, e sim colocar ele e seus amigos como pessoas não compreendidas. O personagem também se adentra em alguns segmentos sobre traição paternal, que apesar de aparentar inicialmente um desvio de foco, acaba por gerar algumas discussões instigantes e termina em uma nota substancialmente agridoce.

E para finalizar, temos Bill Haverchuck, o personagem mais icônico da série. Em oposição à Sam e Neal, Bill tem orgulho do que ele é, possuindo um enorme coração, sempre disposto à ajudar os outros. Tudo que a série tem de melhor há oferecer está relacionada à Bill. Interpretado maravilhosamente por Martin Starr, o ator recebe os momentos mais dramáticos ao envolver a introdução de seu treinador Ben Fredericks (Thomas F. Wilson, ou o eterno Biff Tannen) como um possível padrasto. O desenvolvimento da identidade de Bill é orientado pela inclusão de momentos hoje já considerados clássicos da televisão estadunidense, como as introduções de The Garage Door e Noshing and Moshing. Ah, e não posso deixar de citar a deslumbrante, formidável, sublime e quem sabe talvez fantástica sequência de Bill assistindo televisão ao som de I’m One, da banda britânica The Who. Sério, é uma cena realmente encantadora.

Falando em músicas, Freaks and Geeks possui um acervo de músicas espetaculares, desde a abertura com Bad Reputation, de Joan Jett para o encerramento em seu décimo e oitavo episódio, com Ripple, da banda americana Grateful Dead. Para completar a excelente trilha sonora há a presença de David Bowie, Diesel Boy, Queen, Joe Jackson, Van Halen, Styx, Billy Joel, Journey e muito mais.. Mais um ponto a ser admirado nessa obra.

Infelizmente, mesmo com a carta de amor à Freaks and Geeks transposta na crítica acima, e mesmo com os milhares de fãs que a série acolheu nesses quase 20 anos de sua exibição original, o programa teve apenas uma temporada, sendo cancelado pela baixa audiência. O seu legado está transmitido na sua presença em inúmeras listas de “Maiores Séries de Televisão de Todos os Tempos”, arrebatando um terceiro lugar na lista de “Maiores Séries de Televisão dos Anos 2000”, da revista Time. Também está posicionada, dessa vez em primeiro lugar, na lista de “60 Programas Cancelados Cedo Demais” da revista TV Guide. Freaks and Geeks é afinal uma série excepcionalmente bem escrita, que traz uma comédia afiada, dramas de alto nível, personagens inesquecíveis e uma trilha sonora digna de aplausos. Mesmo seu fim prematuro, nem mesmo bullys malvados irão tirar esses méritos.

Freaks and Geeks – A Série Completa (EUA, 1999-2000)
Criador: Paul Feig
Produtor Executivo: Judd Apatow
Elenco: Linda Cardellini, John Francis Daley, James Franco, Samm Levine, Martin Starr, Seth Rogen, Jason Segel, Busy Phillips, Becky Ann Baker, Joe Flaherty
Duração: 18 episódios de aprox. 44 min. cada.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.