Crítica | Freddy vs. Jason

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

A união destes dois personagens icônicos era um sonho dos fãs e um desejo irrefreável de ganhar dinheiro por parte dos produtores, haja vista que mesmo em produções de roteiro duvidoso, os dois maiores antagonistas dos anos 1980, unidos, era sinônimo de sucesso de bilheteria. A produção rolou por muitos anos até que em 1993, houve um sinal verde, principalmente após o final do nono episódio da série, Jason Vai Para O Inferno – A Última Sexta-Feira, com a cena da mãe de Freddy puxando a máscara de Jason para as profundezas.

Freddy Vs. Jason é o décimo primeiro filme da franquia Sexta-Feira 13 e o oitavo de A Hora do Pesadelo. Enfraquecido, o psicopata dos pesadelos alheios decide enviar Jason para a famosa Elm Street, pois como o antagonista se alimenta do medo dos jovens, o mascarado se torna o catalisador ideal para o retorno de Freddy.

Os jovens do filme são bem estereotipados, seja pelos trejeitos ou roupas minúsculas e caricaturas da adolescência estadunidense. A cada evolução narrativa você escutará a palavra “bitch”, além dos já esperados gritos e sussurros dos personagens em perigo com a dupla preocupação: acordados, precisam fugir da ira de Jason; dormindo, precisam preocupar-se com o psicopata do mundo dos pesadelos. Há poucas alternativas para os jovens, sendo a luta o caminho mais viável.

Como em todos os filmes da saga de Jason, o roteiro sempre acaba apresentando um problema. O investimento fracassado da vez é apresentar o mascarado como alguém com medo do elemento água. E mais: criam uma subtrama fulgaz sobre o antagonista ter sido praticamente jogado no lago pelas crianças do acampamento, numa tentativa frustrada de inserir o bullying como um tema tangente do roteiro. Não funcionou, mas como passou tão velozmente, o impacto foi muito fraco para desmerecer toda a produção.

A direção é, sem dúvidas, o maior problema do filme. Ronny Yu até tenta, mas o seu trabalho de gerenciamento e realização é muito afetado. Há excessos na performance de Freddy, um contraponto em relação à presença de Jason, desengonçado e sem presença em cena. Os protagonistas e coadjuvantes são demasiadamente gritalhões, criam uma confusão em cena e em alguns momentos atrapalham a fluência narrativa.

No que tange ao processo de caracterização, há melhor desempenho de Freddy Krueger (Robert Englud). O Jason interpretado por Ken Kirzinger é muito afetado e estranho. Excessivamente grande, mas nem um pouco assustador. Com exceção dos protagonistas, os demais personagens foram inspirados em pessoas reais, da adolescência de Mark Swift, um dos roteiristas do filme, em relatos na mídia na época do lançamento da produção, em 2003.

A direção de arte, inspirada em cidades chinesas que cresceram sem planejamento urbano, com fios, tubos e demais instalações a céu aberto, é um espetáculo à parte. O trabalho de som não fica devendo aos últimos episódios da série, mas também não é um primor (aliás, em toda a série, nunca foi nada mais que uma inspiração mediana do trabalho de som realizado em Psicose). Segundo aponta o diretor no documentário Por Trás de Crystal Lake Memories, de Donald R. Beck, o ideal era voltar ao básico, sem pensar em efeitos muito elaborados, mas utilizar um cenário com aspectos teatrais, assim como na direção de arte do musical australiano Moulin Rouge – Amor em Vermelho.

Com 97 minutos de duração, Freddy vs. Jason é extremamente divertido. Logo na abertura, somos brindados pelas canções temáticas de ambas as franquias, para logo depois, nos divertimos com as piadas e o jeito despojado e satírico de Freddy, personagem que salva a trama, pois se o filme dependesse do desajeito Jason, seria um fiasco. Um absurdo a não contratação de Kane Hodder ou um ator do mesmo porte para a interpretação. As partes 7 e 8 podem não ser as melhores da série, mas demonstravam uma espécie de Jason ideal: relativamente alto, corpulento e assustador.

Os envolvidos na produção da refilmagem, lançada em 2009, conseguiram, pelo menos, acertar na escolha, para o alívio dos fãs. Dirigida por Marcus Nispel, diretor responsável pela ótima adaptação do clássico O Massacre da Serra Elétrica para a contemporaneidade, a produção trouxe Jason para uma nova geração de jovens e ficou marcada como a estreia mais rentável para um filme de terror em toda a história do cinema.

Freddy vs. Jason (Freddy vs. Jason, Estados Unidos – 2003)
Direção: Ronny Yu.
Roteiro: Damiam Shannon e Mark Swift, baseados em personagens de Wes Craven e Victor Miller.
Elenco: Robert Englud, Ken Kirzinger, Monica Keena, Jason Ritter, Kelly Rowland, Chris Marquette, Brendan Fletcher, Katharine Isabelle, Tom Butier.
Duração: 97 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.