Crítica | Freud – Além da Alma

Nomeado como pai da psicanálise, Sigmund Freud já foi utilizado largamente como subsídio para diversas análises fílmicas acadêmicas e jornalísticas, mas poucas vezes levado ao cinema como personagem. Freud – Além da Alma, cinebiografia indicada ao Globo de Ouro e lançada em 1962 traz o ator Montgomery Clift na pele do psicanalista que precisou enfrentar as barreiras do preconceito em uma sociedade que desconhecia um terreno científico delicado: o comportamento e a mente humana.

O cineasta John Huston, que também é narrador do filme, ao realizar esta cinebiografia sobre Freud, já tinha lugar de prestígio entre os realizadores de sucesso no sistema industrial. Filho de lendário ator de teatro e cinema, o sangue artístico já corria em suas veias. Tornou-se roteirista em Hollywood nos anos 1930, tendo notoriedade na direção com Relíquia Macabra, uma das pérolas do cinema noir, lançado em 1941. Teve também vasta experiência “humana” ao trabalhar para o exército durante a Segunda Guerra Mundial, além de assumido o comando de clássicos como O Tesouro de Sierra Madre, a primeira versão de Moulin Rouge e uma adaptação de Moby Dick.

Em Freud – Além da Alma, através da trilha sonora densa de Jerry Goldsmith, somos mergulhados na cinebiografia com tons romanceados do pai da psicanálise, uma trilha narrativa focada na elaboração da teoria psicanalítica, campo que buscava melhor compreender a constituição da psique humana. Entre os destaques estão algumas experiências pessoais e profissionais, tendo o Complexo de Édipo muito bem delineado.

Os personagens e histórias que gravitam em torno do roteiro não são reais, mas variações de casos tratados por Freud em Viena. O filme começa com a internação de uma pessoa com histeria, algo que não é consensual entre todos os envolvidos no estudo do caso. Mais adiante, um personagem passa pelo processo de hipnose e revela os seus desejos escusos em relação ao pai, o que promoverá uma sessão de autoanálise do próprio Freud mais adiante.

A produção foi viabilizada depois que muitas coisas sobre Freud começaram a ser publicadas. Cartas, relatórios e afins, materiais que iam além das informações de cunho científico. Com o filme, tinha-se uma oportunidade de humanizar o personagem. O roteiro começou numa parceria entre John Huston e Jean-Paul Sartre. Conforme aponta o professor Renato Mezan, da PUC – São Paulo, nos materiais extras veiculados pela versão lançada recentemente no Brasil, a relação entre o cineasta e o filósofo não deu certo. Enquanto Sartre elucubrava, Huston pedia mais comedimento. Quando ambos decidiram desfazer o trato, o material escrito era o equivalente à 12 horas de produção, algo inconcebível e que acabou na participação de Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt para a formulação do texto que seria transformado em filme.

Com abordagem onírica e linguagem repleta de metáforas, o filme vai do período da graduação em Medicina, na Universidade de Viena, até o desenvolvimento de suas teorias. Cinematograficamente falando, é edificante, pois a direção segura de John Huston nos guia por uma história pouco palatável e sem o estilo popular de outras produções do cineasta. Já no quesito didático, é largamente utilizado em cursos de Psicologia e afins, mas a depender do público, principalmente as últimas gerações fast-food que a contemporaneidade tem nos oferecido, a narrativa pode encontrar alguns obstáculos para ser aceita e compreendida.

O resultado foi um filme que condensou vinte anos de teoria psicanalítica, algo necessário para o suporte narrativo. Com direção de fotografia de Douglas Slocombe, responsável pelos três primeiros filmes da saga de Indiana Jones, Freud Além da Alma é um interessante drama sobre um homem que precisou ser muito forte para enfrentar as pressões de uma época em que as pessoas não tinham os devidos esclarecimentos acerca das histerias, neuroses, desejos reprimidos, pulsões sexuais, etc. Esnobado por parte da comunidade científica, ganhou a devida notoriedade mais adiante, apesar de na contemporaneidade, ser muito relevante, mas ter parte de suas teorias relativizadas e revisadas.

Freud Além da Alma (Freud) — Estados Unidos, 1962.
Direção: John Huston
Roteiro: Charles Kaufmann, Wolfgang Reinhardt (Jean-Paul Sartre – não creditado)
Elenco: Montgomery Clift, Susannah York, Larry Parks, Susan Kohner, Eileen Herlie, Fernand Ledoux, David McCallum, Leonard Sachs, John Huston, Joseph Fürst
Duração: 140 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.