Crítica | Friends (Série Completa)

estrelas 4,5

David Crane e Marta Kauffman trabalharam juntos em dois projetos que antecederam Friends. O primeiro deles, a série Dream On (1990 – 1996), e o segundo, o telefilme Couples (1994), durante o qual já seguiam os preparativos finais para a estreia de um novo projeto em conjunto na NBC.

Os produtores receberam sugestões de diversos títulos para a nova série antes de chegarem ao simples e objetivo “Friends“. Títulos como Insomnia Cafe (a sugestão original a dupla) Friends Like Us, Once Upon a Time in the West Village e Across the Hall foram cotados por um tempo, mas a emissora insistiu em algo mais direto, pois tentava não correr riscos além daqueles que já estava correndo, muito menos um erro primário de marketing, ao dar a impressão de que esta seria uma comédia sofisticada e que penderia para o erudito, como Seinfeld (1989 – 1998).

Para colocar Friends no ar, a NBC precisou fechar seis contratos de 22.500 dólares por episódio — um valor que foi renegociado para mais e para menos, dependendo do ator/atriz, na segunda temporada da série e que, a partir da terceira temporada, passou a ter a união do sexteto na negociação de aumento, estabelecendo que todos deveriam receber o mesmo valor, que chegou a 1 milhão de dólares nos dois anos finais do programa.

A história dos amigos Rachel Green (Jennifer Aniston), Monica Geller (Courteney Cox), Phoebe Buffay (Lisa Kudrow), Joey Tribbiani (Matt Le Blanc), Chandler Bing (Matthew Perry) e Ross Geller (David Schwimmer) foi pensada, acima de tudo, para atingir um público que não necessariamente queria decifrar citações. A proposta angular do show, como os próprios produtores disseram, era fazer uma crônica mais ou menos desajeitada e sem muitas pretensões sobre o cotidiano de seis grandes amigos que viviam em Manhattan, Nova York. A pauta era o mais popular possível, como vemos na citação original do argumento endereçado à emissora:

…[Friends] É sobre sexo, amor, relacionamentos, carreira, um momento em sua vida quando tudo é possível. E também é sobre amizade, porque quando você é solteiro e em uma cidade, seus amigos são sua família.

Crane e Kauffman queriam fazer algo diferente de Seinfeld, mas retiraram de lá inúmeras referências e símbolos da fórmula mágica para se fazer “um bom programa de comédia nos EUA, nos anos 90“, como avaliaram tempos depois.

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O ingrediente elementar da série foi a aproximação com o público, que começou já nos créditos de abertura, embalados pela canção I’ll Be There For You, dos The Rembrandts, com os seis protagonistas dançando e se divertindo em torno de uma fonte. Não só a música mas também o formato de “clipe musical” trazem imediatamente o espectador para perto dos personagens, fazendo valer não só a temática da amizade mas também pondo em cena a emoção necessária para fidelizar o público. E ainda vale dizer que esta cena final da abertura nos mostra um dos objetos mais icônicos da série, o sofá, marca eterna do Central Perk. Foi exatamente nesse clima de reunião e diversão, com alguns pequenos atalhos pelo caminho, que os enredos dos episódios foram escritos.

Séries de comédia clássicas nos Estados Unidos como I Love Lucy, A Feiticeira ou, um pouco mais recente, Cheers, sempre tiveram um largo apelo popular pela inteligência das situações colocadas em cena, pela presença do absurdo e do burlesco no andamento das temporadas e por não se furtar em, de tempos em tempos, trazer ao público episódios-slapstick, um motivo barato de comédia mas que, se colocado em um bom contexto e na medida certa, funciona muito bem. Em Friends, é exatamente a relação desses pontos que vemos se desenrolar ao longo das 10 temporadas, cada uma delas com características específicas e avanços significativos + mudanças para atender o lado realista do show (basicamente, para acompanhar as inovações do mundo em volta) e para desenvolver os seus personagens sem alterar-lhes a essência.

Em retrospecto, os roteiros das 3 primeiras temporadas se mostraram mais estruturais para a psicologia dos protagonistas (vistos em convivência), marcando o território de cada um e plantando os futuros “pequenos arcos” da 4ª temporada e os “grandes eventos” das 6 temporadas finais, como os casamentos de Ross; as conquistas na vida de cada um dos friends; os desenlaces do romance Ross-Rachel; o romance Monica-Chandler; a gravidez de Phoebe — pensada para aproveitar a gravidez real de Lisa Kudrow –; os preparativos para o final do show… É impressionante que esses blocos tenham sido colocados de forma mais ou menos espalhada ao longo de uma década e, quando as coisas começaram a se organizar para a despedida, já em meados da 9ª Temporada, essas mesmas pontas foram amarradas com inteligência e precisão.

A despeito de todo crescimento dos personagens, os textos da temporada final não negaram as origens humildes, a ingenuidade dos “vinte e tantos anos” e os sonhos do passado de cada um. Com o maior respeito ao público e cientes do legado que deixariam, Crane e Kauffman prepararam um término emotivo, fechando a contento o ciclo aberto em 1994 e terminando o programa com um novo começo, um capítulo diferente na vida dos personagens, algo que o spin-off Joey – Vida de Artista (2004 – 2006), corrobora.

Mas não só de boa estrutura nos roteiros sobreviveu Friends. Mesmo em se tratando de uma “série povão”, ou… menos exigente em termos de conhecimentos culturais (algo que a excelente 1ª Temporada de The Big Bang Theory cobrou — e depois desistiu), isso não significa que ela foi um clímax eterno de “piadas sobre qualquer coisa”. O show teve o mérito de trabalhar, a seu modo, temas transversais de enorme importância, como a igualdade de gêneros, a sexualidade, a ciência — Ross era paleontólogo! –; a arte — Joey era ator e representava, muitas vezes, o ponto metalinguístico do programa –, e questões familiares ou fraternas que, embora não tenham sido uma novidade na TV, ganharam versões simpáticas, criativas, engraçadas e bem representadas pela excelente química do grupo em cena.

Também é sempre importante lembrar aos que cobram “TV-verité” de Friends: não estamos falando de um documentário sobre os aspectos sociológicos, econômicos ou comportamentais das agitadas metrópoles! Friends é uma sitcom de caráter realista. Uma Sitcom! Ou seja, o que podemos cobrar desse modelo de ‘realismo’ é que se faça valer as regras de seu próprio mundo e não se desvirtue elementos para encaixar um trama aqui e outra ali, o que, a rigor, só vemos na série em doses muito pequenas, na primeira temporada.

As indicações culturais através dos excelentes trabalhos de direção de arte para os apartamentos do grupo — em especial o de Monica — e a exposição de itens da cultura pop através de pôsteres, nomes de personalidades ou artistas, citações de grandes obras da literatura, teatro, cinema ou eventos históricos são os “pontos nerd” que os mais atentos podem perceber e admirar na série. Reparem que já nos primeiros episódios, quando temos citações, homenagens, tirações de sarro ou representações simbólicas de Pinóquio (1940), Psicose (1960), A Noviça Rebelde (1965), Banzé no Oeste (1974), O Poderoso Chefão – Parte III (1990), Sociedade dos Poetas Mortos (1990) e O Silêncio dos Inocentes (1991), constatamos que a ideia dos produtores era fazer uso de sucessos cinematográficos ou da cultura pop em geral para prender o público com algo que já lhe era familiar, elementos que também se tornaram ponte entre o mundo externo ao programa e o mundo onde se passava o programa (uma realidade quase nossa). E isso sem contar no apelo dos easter-eggs vindos com as inúmeras participações especiais de atores da TV e do cinema ou com a recorrência de personagens icônicos como os pais de Ross e Monica; Ursula, a gêmea má de Phoebe; e Janice, com seu insuportavelmente hilário OOOH – MY – GOD!

Friends é uma daquelas produções artísticas que nunca enjoam e sempre farão parte dos preferidos do público. A série não apenas marcou um tremendo movimento de mudança na estrutura de produção televisiva (seguida das mudanças vindas com Lost e, anos depois, com o advento dos serviços de streaming e o Netflix), mas por conseguir conquistar públicos distintos e estabelecer um novo padrão para as séries de comédia que a sucederam, ou em imitação, ou em oposição. Criando bordões como o inesquecível How you doin’? de Joey; adotando um modelo de direção de episódios bastante imaginativo para contornar o engessamento do cenário majoritariamente fechado; estabelecendo e contrariando modas (com a ajuda de uma admirável equipe de figurino); trazendo versões musicais impagáveis como a famosa Smelly Cat, de Phoebe; e tratando os temas mais comuns — tristes ou alegres — da vida, a série formou em torno de si uma escada de gerações que simplesmente queriam rir de coisas que lembravam o cotidiano ou um estágio específico de suas vidas. Uma identificação através sátira e do humor à vezes cáustico, libidinoso, fácil e inteligente.

Na maioria das vezes, os enredos de Friends riam do material que traziam à tona, mas, em outros momentos, expunham suas questões de uma forma mais filosófica, humana, analítica, o que não era a base da série, é verdade, mas que esteve presente em alguns icônicos episódios ao longo dos 10 anos em que o programa se manteve no ar — especialmente no capítulo de despedida — e que fez muita gente chorar, falar sobre o que acontecia com esses personagens e compará-los ou imitá-los, De fato, um saldo extremamente para uma jornada que começou com estas exatas palavras: “Não há nada para dizer!“.

Friends (EUA, 1994 – 2004)
Criadores: David Crane, Marta Kauffman
Principais diretores: Gary Halvorson, Kevin Bright, Michael Lembeck, James Burrows, Gail Mancuso, Peter Bonerz, David Schwimmer, Ben Weiss
Principais roteiristas: David Crane, Marta Kauffman, Ted Cohen, Andrew Reich, Scott Silveri, Shana Goldberg-Meehan, Greg Malins, Sherry Bilsing, Ellen Plummer, Adam Chase, Brian Buckner, Sebastian Jones
Elenco principal: Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry, David Schwimmer, James Michael Tyler, Elliott Gould, Christina Pickles, Maggie Wheeler, Paul Rudd, Jane Sibbett, Helen Baxendale, Jessica Hecht, June Gable, Tom Selleck
Duração: 24 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.