Crítica | Frozen: Uma Aventura Congelante

estrelas 2,5

Desde 2009, o departamento de animação da Disney vem em um crescendo em qualidade, mostrando que a Casa do Camundongo conseguiu achar-se novamente na técnica que a notabilizou. Com o ótimo A Princesa e o Sapo, o estúdio conseguiu revitalizar o conceito de “princesa Disney”, trazendo modernidade para a narrativa e uma heroína fácil de se identificar, além de improváveis “bichos fofinhos” como um gordo crocodilo e um debilitado vaga-lume.

Em 2010, foi a vez de Enrolados, que recriou a fábula de Rapunzel e saiu do conceito de “musical”, além de criar um herói sarcástico e autoconsciente. Em seguida, em 2011, a Disney enterneceu corações ao lançar O Ursinho Pooh com desenhos tradicionais e uma linda história fiel ao original.

Em 2012, uma enorme e grata surpresa: Detona Ralph. Um filme nostálgico e ao mesmo tempo dinâmico, muito longe do padrão “princesa Disney”, mas cheio de personagens marcantes.

Mas, é triste notar que, em 2013, a Disney parece ter retrocedido completamente com Frozen: Uma Aventura Congelante. Lançado com grande sucesso e com todos os cartazes e trailers alardeando que é um desenho dos mesmos criadores de Enrolados, Frozen desaponta tremendamente.

E o primeiro departamento em que a fita falha fragorosamente é o de design. Enquanto a animação em si é como sempre excelente, os personagens e figurinos foram criados sem nenhuma imaginação. O grupo principal, formado pelas irmãs princesas Anna (Kristen Bell) e Elsa (Idina Menzel), o príncipe Hans (Santino Fontana) e o mercador de gelo Kristoff (Jonathan Groff) são iguais uns aos outros, diferenciando-se, apenas, pela cor do cabelo.

Os alívios cômicos não-humanos, a rena/cavalo/cachorro de Kristoff, Sven e o boneco de neve com nariz de cenoura Olaf (Josh Gad), não são muito melhores. Sven é a versão com chifres de Maximus, o ótimo cavalo de Enrolados, comprovando realmente que Frozen é dos mesmos criadores do desenho de Rapunzel. Olaf é o único personagem que minimante se destaca no meio da mesmice, por ser carismático e engraçado o suficiente pelos poucos minutos que aparece durante a projeção.

Os vilões, geralmente tão bem trabalhados nas fábulas Disney, simplesmente não existem em Frozen. Claro, há um ou dois personagens maus (não vou revelar segredos aqui, ainda que eles sejam dolorosamente óbvios desde o primeiro minuto de filme), mas suas respectivas interferências na história são tão poucas e tão desimportantes que é como se eles não existissem.

Em termos de história, a produção tem a audácia de dizer que é baseada no conto A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen. Bom, para aqueles que não leram a história original, que é uma das melhores do autor dinamarquês, de semelhanças mesmo só existem a rainha, a neve e a mágica que afeta os corações, regelando-os. Mas é só. O resto é criação da roteirista e co-diretora Jennifer Lee (que provavelmente gastou toda sua criatividade em Detona Ralph), que simplesmente faz uma história que corre atrás do rabo e não cria expectativas.

Fazendo um gigantesco prólogo (se é que posso chamar isso de prólogo), vemos Anna e Elsa quando crianças, brincando alegremente em seu castelo. Elsa tem o inexplicável poder de criar gelo e neve (“criocinese”, de acordo com a sinopse oficial) e, durante a brincadeira, ela quase mata a irmã, que é revivida por simpáticos trolls a pedido do rei e da rainha. E, ato contínuo, sem qualquer sentido, as meninas são separadas e nunca mais se veem ou saem do castelo, até que chega o dia da coroação de Elsa como rainha. Sabemos que tudo dará errado e caberá a Anna resolver o problema, mas esse problema só existe de forma endógena, causada pela premissa da história, sem que haja interferência de fora. E, ao tentar dar um frescor ao final que seria de outra forma óbvio, Lee não sai da mesmice e da necessidade que tem de repetir tudo exaustivamente como se crianças e adultos fossem bobalhões.

Com isso, a narrativa não consegue engajar o espectador a não ser pelos malabarismos da câmera em penhascos nevados e pela bela computação gráfica (para o cenário e movimentação de personagens). Tudo é muito frio e distante, além de estranhamente escuro, o que piora com o óculos 3D.

Falando em 3D, aliás, o uso da tecnologia em Frozen não ajuda o filme em absolutamente em nada. Há até momentos em que os diretores flertam com o terrível artifício de jogar coisas na cara do espectador, mas, por sorte, ficam só no flerte mesmo.

E as músicas? Assim como o design dos personagens e o roteiro, elas não são nada inspiradas. Mas claro, fica difícil julgar de verdade, em razão da versão dublada em português que assisti, em que, quando a música não é alta, fica difícil entender o que estão falando e, quando é alta, é alta demais, histriônica mesmo e nem um pouco marcante.

Uma pena.

Mas continuem lendo!

estrelas 5

É Hora de Viajar (Get a Horse!)

Se Frozen periga afastar o espectador, o curta metragem que o antecede, É Hora de Viajar (Get a Horse!), é absolutamente brilhante e imperdível. Em 6 minutos, Lauren MacMullan, uma das desenhistas de storyboard de Detona Ralph e que já havia dirigido diversos curtas e episódios de séries de TV, faz o que Frozen não consegue fazer: hipnotizar o público.

O desenho homenageia os primeiros curta da Disney com Mickey e sua turma. Tudo começa em preto e branco (mais precisamente em tom sépia), com Mickey e Minnie pegando carona em uma carroça puxada por Horácio e que também conta com a Clarabela. As vozes dos personagens são de arquivo em sua maioria e Mickey é dublado por ninguém menos do que o próprio e saudoso Walt Disney. Vagarosamente, então, eles vão pela estrada até que vem o Bafo de Onça em um automóvel, dizendo para eles abrirem espaço para a “modernidade”. É claro que, quando ele bate o olho em Minnie, a confusão começa, confusão essa que extrapola os limites da telinha quadrada e em tom sépia e explode para toda a tela do cinema, com cores vivas, modelagem em 3D e o uso de estereoscopia.

Sim, vemos o antigo e novo convivendo na tela brilhantemente depois do minuto inicial, com os personagens entrando e saindo do antigo e do novo, alterando suas cores e sua modelagem (2D para 3D e vice-versa). E a estereoscopia 3D é do tipo que “joga coisas na cara do espectador”, que eu geralmente abomino, mas em É Hora de Viajar, tudo é feito pensando na tecnologia, de forma a se criar novas e divertidas maneiras de se fazer o óbvio. É um prazer total e razão mais do que suficiente para se chegar na hora no cinema.

Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen, EUA – 2013)
Direção: Chris Buck, Jennifer Lee
Roteiro: Jennifer Lee (baseado em um conto de Hans Christian Andersen)
Elenco (no original): Kristen Bell, Idina Menzel,  Jonathan Groff, Josh Gad, Santino Fontana, Alan Tudyk, Ciarán Hinds, Chris Williams, Stephen J. Anderson, Maia Wilson
Duração: 102 min.

É Hora de Viajar (Get a Horse!, EUA – 2013)
Direção: Lauren MacMullan
Roteiro: Lauren MacMullan
Elenco: Walt Disney, Marcellite Garner, Russi Taylor, Billy Bletcher, Will Ryan
Duração: 6 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.