Crítica | Fruitvale Station: A Última Parada

Fruitvale Station imagem destacada

estrelas 2,5

Nada, absolutamente nada justifica o assassinato de Oscar Grant na fatídica madrugada do dia 1º de janeiro de 2009, na estação de metrô nos arredores de São Francisco que dá nome a esse filme. Foi um ato de violência policial como tantos outros que infelizmente vemos por aí em diversos países, com especial destaque ao nosso, em que, adicionando sal à ferida, a impunidade dos envolvidos é quase absoluta.

Ryan Coogler, diretor e roteirista estreante (em longas metragens), tomou de assalto a edição do festival de Sundance de 2013 com seu pequeno filme independente que conta as últimas 24 horas de Oscar. Amealhou tanto o prêmio do Grande Júri como o da audiência e, ao longo de sua carreira em festivais, levou diversas outras láureas.

No entanto, a fita é muito mais poderosa no quesito atuação do que por sua estrutura narrativa e roteiro.

Coogler é inteligente ao iniciar a projeção já com as famosas imagens verdadeiras da tragédia e, a partir dali, volta um dia no tempo para mostrar Oscar Grant (Michael B. Jordan) acordando para mais um dia em sua complicada vida. Ele perdera o emprego há duas semanas por chegar tarde, mas ainda não contou para sua namorada Sophina (Melonie Diaz). Os dois têm, juntos, uma filha, Tatiana (Ariana Neal), apelidade de “T”. Oscar e Sophina discutem em razão da infidelidade dele e vemos, ao longo de seu dia, ele repensando sua vida, tentando encontrar o caminho correto, efetivar uma mudança de curso.

Usando uma câmera nervosa (mas não tremida), Coogler dá um tom documental à fita, mas ao mesmo tempo consegue trazer Oscar para perto, com planos próximos que nos fazem identificar com o rapaz. Mas, em seu afã de manipular o espectador, o diretor/roteirista acaba tornando tudo muito mais um conto de fadas do que um filme-denúncia. Oscar tem seus defeitos, claro, mas todos eles são enterrados debaixo de toneladas de bom-mocismo, a começar pela simpatia que Jordan consegue passar encarnando Oscar.

Mas a coisa não para por aí. Coogler, ao passear pela vida de Oscar, nos mostra que, mesmo desempregado, ele ajuda uma cliente do supermercado em que ele trabalhara, ligando para sua avó e passando o telefone para a moça de forma que as duas possam conversar sobre como fritar peixe. Não demora muito, quando Oscar está colocando gasolina em seu carro, ele vê um cachorro abandonado e faz carinho nele, apenas para que, alguns segundos depois, ele testemunhe o atropelamento do bichinho, corra em sua direção, pegue-o no colo e chore por ele. E o amor exacerbado por sua mãe, com direito a “feliz aniversário” por SMS logo que acorda e uma quase obsessão com a festa dela, acaba nos tirando demais da realidade. Repare só em toda a sequência da festa, em que Coogley usa uma câmera intrusiva, para nos fazer participar da celebração e também para nos mostrar que à Oscar só falta um halo dourado flutuando sobre sua cabeça.

É mais do que evidente que o assassinato de Oscar foi absurdo e injustificável. Uma combinação de truculência, despreparo e preconceito. Não era necessário pintar esse quadro angelical para Oscar. A tragédia fala por si. Esse maniqueísmo do roteiro é simplesmente de se virar os olhos de tão inacreditável que é. Deixamos de ver Oscar como um ser humano e passamos a vê-lo como um mártir, um anjo, um homem emparedado pela sociedade injusta que não lhe dá chance.

A crítica social de Coogler se perde completamente em sua necessidade de beatificar o protagonista e de forçar o espectador a comprar essa santificação. É para que sua morte seja ainda mais chocante? É para mostrar que só ex-condenados que querem mudar sua vida para melhor podem ser mortos injustamente? Mas o pior é que é muito fácil cair nessa esparrela, pois a narrativa também prende o espectador nesse mundo do faz-de-conta. É quase possível chegar à conclusão que, se Oscar fosse um bandido o filme inteiro, sem nenhum sinal de remorso ou de redenção, a atitude policial seria justificável naquelas circunstâncias.

No entanto, mesmo no meio dos escombros desse roteiro e dessa direção que manobram negativamente o espectador, é absolutamente impossível não ficar assombrado com a atuação de Michael B. Jordan. Veterano da televisão em séries como The Wire, Friday Night Lights e Parenthood, o ator começou sua carreira no cinema em 2012 no fracassado Red Tails e no aclamado Poder Sem Limites. Mas é mesmo em Fruitvale Station que ele mostra a que veio e realmente demonstra uma aptidão artística assustadora. Sua principal qualidade é ser autêntico, natural a todo momento, seja nas breves explosões de violência contida, seja em momentos ternos com sua namorada, filha e amigos, seja em situações auto-contemplativas. Ele consegue se vestir de seu papel de tal forma que ele, quase sozinho, faz o filme valer a pena.

Octavia Spencer, que faz a mãe de Oscar, Wanda, já havia recebido rasgados elogios por seu trabalho em Histórias Cruzadas, mas é também em Fruitvale Station que ela por merecer de verdade todos os aplausos. Com um papel sofrido de mãe protetora que sabe dos problemas em que o filho se mete, vemos, sem exageros, choradeiras e berreiros, uma verdadeira montanha-russa de sentimentos passando por seus olhos naturalmente esbugalhados. Repare só nas sequências a partir do momento que ela descobre que seu filho foi baleado como ela constrói uma poderosa barreira ao seu redor para não desmoronar, que vai aos poucos ruindo, somente para estilhaçar completamente quando o corpo de seu filho é mostrado a ela. É um momento de se tirar o chapéu.

Os demais atores também conseguem transmitir veracidade e ajudam no tom dramático da projeção, ainda que, claro, os dois destaques acima sejam realmente a maior razão para se ver esse filme. O elenco é chave aqui e o diretor foi muito preciso na escolha de seus atores, mesmo nos menores papéis.

Fruitvale Station não precisava fazer a manipulação sentimental que faz para condenar o assassinato de Oscar Grant. As imagens teriam falado por si só sem que ele precisasse ser canonizado. Ao exagerar na manobra lacrimosa, elevando Oscar ao mais alto grau de retidão de caráter para condenar a brutalidade, Coogler acaba extraindo de seu trabalho toda sua urgência e veracidade documental. Uma pena.

Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station, EUA – 2013)
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Kevin Durand, Chad Michael Murray, Ahna O’Reilly, Ariana Neal, Trestin George
Duração: 85 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.