Crítica | Fuga ao Passado

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estrelas 3,5

Inicialmente marcado por questões de ego entre Robert Mitchum e Kirk Douglas, Fuga ao Passado (1947) acabou tirando proveito dessas brigas graças ao diretor Jacques Tourneur, que impediu uma série de provocações de ambos os lados e deixou acontecer nos sets apenas a “vontade de querer ser melhor” de cada ator. Na tela, essa disputa não se vê assim de maneira tão gritante. Evidente que os estilos de atuação de Mitchum e Douglas são diferentes e ambos estão ótimos aqui, mas eles não fogem à organicidade do roteiro e nem ao que a obra requer. Novamente, um grande acerto do diretor em guiar o tom de cada personagem sem que ultrapassassem a linha em que não acreditaríamos neles como pessoas possíveis.

Como um bom filme noir, cenário que temos no início é enganador, um ambiente mais ou menos pacífico onde encontramos Jeff (Robert Mitchum), o dono de uma oficina que trabalha com um jovem surdo e está sendo procurado por um antigo parceiro, Joe (Paul Valentine), ainda a serviço de um homem de negócios criminosos chamado Whit, interpretado por Kirk Douglas. Esse é o pequeno jogo que em poucos minutos se estabelece, mas não temos a impressão de que se trata de algo urgente. A conversa entre Jeff e Joe tem uma linha passivo-agressiva interessantíssima, quase cômica, mas o espectador entende aquilo mais como uma relação entre “rivais do mesmo lado” do que o caminho de alguém que a busca vingança. Essa percepção só vem depois.

A adoção do flashback como base para a maior parte do desenvolvimento do filme não tem um ponto de partida bom, mas consegue ter um andamento correto, mostrando-nos como Jeff enraiveceu Whit a tal ponto que passou a ser “alvo da ira” do homem que nunca perdoa. Aí também entra em cena a personagem de Jane Greer, a femme fatale da história. A atriz faz um ótimo trabalho alternando sua interpretação entre a mulher sexy e manipuladora, falsamente preocupada e arrependida. Ela é uma das personagens que mais crescem no filme, porque é obrigada a mostrar diferentes facetas para diferentes relacionamentos, sempre se safando de problemas maiores, não se importando muito quais princípios morais irá quebrar para conseguir o que quer.

A movimentação constante dos personagens em diferentes locações — com ótimo aproveitamento das paisagens — cobraram bastante da fotografia de Nicholas Musuraca, italiano já com bastante experiência no cinema, tendo entrado para a Sétima Arte ainda na década de 1920. O artista é responsável aqui pelos belos planos de contraste entre luz e sombras; pelo bom uso de frestas luminosas nos olhos dos personagens cobertos por escuridão; pelo uso de pontuais focos de iluminação nos espaços internos; e na adequação quase pictórica da luminosidade para tomadas noturas e externas, principalmente na cena da chuva. Jacques Tourneur se aproveita dessas ambientações (que também servem como ingrediente narrativo) e evita perseguir ou mostrar demasiadamente seus personagens, economizando o quanto pode a presença de um ou outro na tela, fazendo de cada cena em grupo uma boa surpresa.

Até um certo momento, a procura e os jogos de engano entre os protagonistas prendem o espectador. É interessante ver o “malandro sério e quase honesto” de Robert Mitchum e o “malandro malvado” de Kirk Douglas se enfrentano da forma mais “Guerra Fria” possível. Ocorre, porém, que as explicações dadas nos últimos blocos sobre quem está procurando quem; e sobre quem quer o quê, confundem desnecessariamente o espectador e, com isso, derrubam a força de algumas pontas narrativas mais sólidas, já ameaçadas pela exploração um tanto demasiada do romance socialmente aceito de Jeff com Ann. Na cena final, essa linha do roteiro volta, mas como a grande tragédia já aconteceu, não nos preocupamos mais.

Fuga ao Passado não é apenas um Noir dentre os mais reverenciados do gênero, mas já mostra um Kirk Douglas dominando como ninguém uma cena vilanesca, e vejam que este é apenas o seu terceiro longa-metragem! O roteiro poderia não adentrar tanto no seu próprio labirinto e dar menos importância ao “good romance“, mas nenhuma dessas lombadas atrapalham de verdade a nossa experiência.

Fuga ao Passado (Out of the Past) — EUA, 1947
Direção:  Jacques Tourneur
Roteiro: Daniel Mainwaring
Elenco: Robert Mitchum, Jane Greer, Kirk Douglas, Rhonda Fleming, Richard Webb, Steve Brodie, Virginia Huston, Paul Valentine, Dickie Moore, Ken Niles
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.