Crítica | Fuga do Planeta dos Macacos (Marvel Comics – 1975)

estrelas 4,5

Contada em seis partes ao longo de cinco edições de Planet of the Apes, revista em preto-e-branco em “formatão” da Marvel Comics que foi casa tanto das adaptações dos cinco filmes clássicos como das primeiras histórias originais da franquia como Terror no Planeta dos Macacos e O Reino na Ilha dos Macacos, a versão em quadrinhos de Fuga do Planeta dos Macacos, o terceiro filme na saga setentista, é uma pequena e esquecida obra-prima. Infelizmente nunca republicada pela Marvel no formato padrão de HQs como aconteceu com as adaptações de Planeta dos Macacos e De Volta ao Planeta dos Macacos em Adventures on the Planet of the Apes, que só durou 11 edições, Fuga ficou restrita ao material clássico que se perdeu nas brumas do tempo, mas que os leitores de quadrinhos, assim como os fãs da série, deveriam fazer esforço para procurar e ler, já que a adaptação foi publicada no Brasil em 1976 pela Editora Bloch.

Doug Moench, assim como nas adaptações anteriores, é o roteirista aqui e, tendo um material fonte muito superior, ele recria o filme maravilhosamente bem, acrescentando uma nova introdução que expande a chegada dos símios astronautas Zira, Cornelius e Milo à Terra de 1975, depois de fugir do apocalipse causado por Zaius, Ursus e Taylor em De Volta ao Planeta dos Macacos. Nela, vemos um pouco mais do drama dessa viagem temporal, ainda que nada seja abordado sobre a conveniência desse acontecimento cronometrado com a destruição do planeta, algo que Moench não tem culpa.

A primeira e a última edição de Planet of the Apes com a adaptação do 3º filme. O último número foi integralmente dedicado ao final da história.

A capas das primeira e última edições de Planet of the Apes com a adaptação do 3º filme. O último número foi integralmente dedicado ao final da história.

Usando um texto urgente e com uma forte crítica social, que inverte os papeis clássicos e coloca os símios como os “estranhos em terra estranha”, o roteirista não deixa o ritmo cair e mantém a cadência ao longo de toda a narrativa, explorando muito bem as personalidades dos símios e extrapolando na vilania do Dr. Otto Hasslein, o mais vocal dos detratores da dupla (já que Milo morre pelas mãos de um gorila no zoológico para onde são inicialmente enviados), especialmente depois da descoberta de que Zira está grávida. A tragédia anunciada é perfeitamente construída a cada capítulo da história, com Moench não economizando nos textos, mesmo que isso signifique, por vezes, um certo sacrifício do espaço da página e um pouco mais de paciência do leitor para lidar com as explicações dos acontecimentos, por vezes repetidas, considerando as interpretações intramuros do comitê formado para decidir o destino dos dois viajantes no tempo.

Mas se o texto de Moench já merece comenda, talvez o maior destaque seja a belíssima arte do filipino Rico Rival, que desenhou toda a história, evitando as oscilações de estilo que vimos na adaptação anterior. A primeira e mais alvissareira característica de Rival é não se basear nos semblantes dos personagens do filme. Isso não é novidade, na verdade, pois as adaptações anteriores também fugiam disso linhas gerais. Mas o artista, aqui, dá vida realmente nova a cada um dos personagens, recriando Cornelius e Zira com saudáveis doses de personalidade e com o amplo uso de detalhes nos rostos dos dois, tornando-os fundamentalmente diferentes ao mesmo tempo que perfeitamente reconhecíveis. A vilania do Dr. Hasslein é acentuada por diversos quadros silenciosos que só dependem de suas feições para passar toda a informação que precisamos, notadamente no começo da história. E o mesmo vale para Armando, o dono de circo que acolhe a dupla símia mais para o final, que ganha um ar vivaz e inteligente, mas bem diferente do trabalho de Ricardo Montalban no filme.

Um pouco da belíssima arte de

Um pouco da belíssima arte de Rico Rival.

Além dos personagens, o cuidado de Rival com os detalhes de todas as ambientações realmente impressiona. Ele não deixa nada de lado e não economiza em nada, tornando cada jaula, cada quarto, cada lugar da história vivo e crível. A ação também é outro aspecto que Rival sabe manejar muito bem. Ainda que Fuga não seja uma obra focada nesse aspecto, nos poucos momentos em que vemos movimentação maior, os traços do artista são elegantes e incisivos, com uma excelente distribuição espacial. Ele consegue até mesmo driblar os às vezes excessivos textos de Moench, evitando que as páginas fiquem poluídas. É definitivamente uma pena que o artista tenha nos brindado com tão poucas HQs durante sua carreira.

Se o filme já era ótimo, a adaptação de Moench e Rival é ainda melhor. Uma leitura deliciosa, com um arte magnífica em mais uma excelente obra da Marvel Comics nesse riquíssimo universo símio.

Fuga do Planeta dos Macacos (Escape from the Planet of the Apes, EUA – 1975/6)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Rico Rival
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 1975 a janeiro de 1976 (preto e branco, em Planet of the Apes #12 a #16)
Editora no Brasil: Editora Bloch
Data de publicação no Brasil: 1976 (Planeta dos Macacos #10 a #12)
Páginas: 180

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.