Crítica | Fuga do Planeta dos Macacos

estrelas 4

Atenção: Há inevitáveis spoilers da franquia. Se não assistiu, sugiro fortemente que assista desde o começo.

Terceiro filme na série setentista, Fuga do Planeta dos Macacos é, também, o segundo melhor, só perdendo para o original. Desistindo das sandices feitas no filme anterior e trazendo Roddy McDowall de volta, os produtores acertaram na mosca e o diretor Don Taylor (que, em 1980, dirigiria outro filme sobre viagem no tempo, Nimitz – De Volta ao Inferno) conseguiu extrair da trama uma eletrizante fita que, basicamente, volta às raízes do primeiro, sem efetivamente contar novamente a mesma história. É um bom exemplo de continuação que, apesar de desnecessária (como todas), não mancha a reputação do que veio antes.

Em um retcon maroto e bastante improvável, mas que temos que aceitar, nós descobrimos, logo no começo da projeção, que os chimpanzés pacifistas Cornelius (Roddy McDowall) e Zira (Kim Hunter), momentos antes do final apocalíptico do capítulo anterior, entraram na nave de Taylor (vivido por Charlton Heston nos dois filmes anteriores) e conseguiram chegar na Terra do século XX. Ao revelarem que são mais inteligentes que os macacos comuns (e que muitos humanos, diria) e, principalmente, que falam, Cornelius e Zira são tratados como celebridades, com direito a banho de loja e de “cultura humana”, com intensa atenção da mídia. No entanto, aos poucos, os militares (sempre eles) passam a indagar sobre o futuro que espera a Terra e, depois de um tempo, quando descobrem que Zira está grávida, os dois chimpanzés passam a ser temidos pela ameaça que potencialmente representarão aos humanos. É a inversão do tema “estranho em uma terra estranha” do primeiro filme, sendo que, dessa vez, aqueles que têm que fugir e se adaptar são os símios. Com a ajuda de cientistas humanos, os dois fogem apenas para se depararem com um excelente, mas trágico final, com direito até a uma ponta de Ricardo Montalban no papel de Armando, o simpático dono de um circo.

Ao colocar os símios no lugar de perseguidos e utilizando-se novamente do artifício da viagem no tempo, os produtores conseguiram montar uma fita que não só revigora a franquia, como também explica como é que a evolução dos símios ocorre. Os paradoxos temporais – um dos artifícios preferidos da ficção científica – são muito bem explorados: será que os macacos teriam evoluído se Taylor não tivesse sido mandado para o espaço? Será que o tratamento dispensado a Cornelius e Zira é que catalisam a queda dos seres humanos? Essas e outras perguntas, todas pertinentes, ficam no ar com o perfeito final de Fuga e poderiam ter ficado dessa maneira se os produtores tivessem se contentado em fechar a trilogia aqui. Mas não. Com o sucesso em mãos, partiram para mais dois filmes que, na verdade, acrescentam elementos desnecessários à trama.

O grande destaque, novamente, é Roddy McDowall como Cornelius. Sua atuação é muito boa, mesmo debaixo de uma óbvia máscara (mas que, considerando-se a época em que o filme foi feito, é ótima). Mesmo depois desse tempo todo, com a tecnologia atual na área de maquiagem e com efeitos de computação gráfica e captura de performance, as máscaras de Cornelius e Zira não datam o filme. O que data o filme é a estética setentista inevitável, inclusive com hilários momentos de demonstração da cultura da época, com suas roupas e carros típicos. No entanto, essa estética, por outro lado, mostra o cuidado da produção que, apesar de ter sido de baixo orçamento, tem figurinos bem cuidados, além de uma impecável direção de arte. Assim como McDowall, Kim Hunter também está excelente no papel da meiga Zira, o que só amplifica os sentimentos angustiantes passados ao espectador durante a caçada e, sobretudo, quando o destino desses excelentes e históricos personagens é revelado.

Obviamente que o roteiro poderia ter ido ainda além como, por exemplo, fazendo com que os macacos se encontrassem com Taylor antes que ele partisse para sua viagem fatídica. Outras questões paradoxais poderiam ser levantadas com isso. Mas Fuga cumpre bem seu papel e Don Taylor entrega um filme redondo que deveria ter encerrado a série com chave de ouro.

Publicado originalmente em 15/07/2014.

Fuga do Planeta dos Macacos (Escape from the Planet of the Apes) — EUA, 1971
Direção: Don Taylor
Roteiro: Paul Dehn (inspirado nos personagens criados por Pierre Boulle)
Elenco: Roddy McDowall, Kim Hunter, Bradford Dillman, Natalie Trundy, Eric Braeden, Ricardo Montalban, William Windom, Sal Mineo
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.