Crítica | Fugitivos – Vol. 1 (2003 – 2004)

De vários anos para cá, a regra das editoras mainstream de quadrinhos é criar “novos” super-heróis que são de alguma forma baseados em personas super-heroísticas já bem estabelecidas. Por isso vemos a proliferação incessante de heróis baseados no Batman, Superman, Lanterna Verde, Homem de Ferro, Hulk, Homem-Aranha e um sem-fim de outros. Afinal, para que o esforço e o risco de realmente criar algo do zero como foi o caso raro de uma Jessica Jones da vida, se é mais fácil transplantar ideias velhas em corpos aparentemente novos para vender a mesma coisa várias vezes?

Os personagens que formam o “grupo” Fugitivos, assim como Jones, são, portanto, bem-vindas exceções no mar de mesmice, cortesia do excelente Brian K. Vaughan, a mente por trás de fantásticas obras como Y: O Último Homem, Ex Machina, Os Leões de Bagdá, Paper Girls e, claro, a mais do que espetacular Saga. A premissa da HQ é curiosamente simples: e se você descobrisse que seus pais são vilões?

Claro que, em se tratando de uma história originalmente publicada no selo Tsunami, da Marvel Comics, Vaughan lida com super-vilões, 12 no total, todos eles criados para a HQ e pais de família e membros do grupo secreto Orgulho que comanda Los Angeles. De tempos em tempos, eles se reúnem na casa de um deles, com seus filhos adolescentes, alheios à tudo, sendo forçados a conviver juntos por algumas horas. Em uma reunião dessas com os jovens sem nada o que fazer, eles resolvem espionar os pais, que eles acham que se reúnem para lidar com questões de doações à caridade que eles dizem fazer, e acabam deparando-se com um ritual macabro, com todos vestindo uniformes estranhos. A cereja no bolo e o que realmente catalisa a ação é quando eles testemunham um dos pais, em meio a essa “reunião”, assassinar uma jovem indefesa.

Desesperados, os seis adolescentes fogem juntos, tentando, ao mesmo tempo, reunir provas para levar seus pais às autoridades. Nesse processo, de uma forma ou de outra, os jovens “destrancam” variados poderes e/ou habilidades que eles não tinham ideia que possuíam. Alex Wilder é o líder nato do grupo e um gênio estrategista, além de ser o único dos seis que não tem poderes, habilidades ou armas nos sentidos clássicos das palavras; Nico Minoru (Irmã Grimm/Sister Grimm) é uma feiticeira com o controle inadvertido do Cajado do Absoluto de sua mãe, que a permite fazer mágica; Karolina Dean (Lucy in the Sky) é uma alienígena com poderes à base de luz que são mantidos sob controle por intermédio de uma pulseira inibidora; Molly Hayes (Fortona/Bruiser ou Princess Powerful) é a mais jovem do grupo, com 11 anos, e uma recém-descoberta mutante com superforça; Chase Stein (Boca-Dura/Talkback) é o mais velho do grupo, com 17 anos, e não tem poderes, mas maneja manoplas pirotécnicas poderosíssimas que rouba de seus pais e, finalmente, Gertrude Yorkes (Arsênico/Arsenic) é uma garota também sem poderes, mas com uma conexão telepática com um velociraptor batizado de Alfazema (Old Lace, no original, em uma bela citação, junto com Arsenic, claro, ao clássico filme de Frank Capra Este Mundo é um Hospício ou Arsenic and Old Lace), criado por engenharia genética no futuro, por encomenda de seus pais, que são viajantes do tempo e que tem como função protegê-la de qualquer perigo, além de obedecer a todos os seus comandos.

(1) Os jovens descobrem os segredos de seus pais e (2) Karolina descobre seus poderes.

Todo o primeiro arco do Volume 1 de Fugitivos, Orgulho & Felicidade (Pride and Joy), é voltado à essa história de origem, apresentando organicamente cada um dos seis novos personagens, além de lidar também, ainda que de passagem, com seus respectivos pais. Vaughan cumpre com absoluta competência uma tarefa hercúlea: apresentar nada menos do que 18 novos personagens (19, se contarmos com Alfazema) em apenas seis números, sem que a história fique tumultuada ou completamente tomada de balões de fala que potencialmente quebrariam a fluidez. Talvez, por alguns momentos, haja uma correria maior do que a necessária e algumas conveniências narrativa aqui e ali, mas, em linhas gerais, o arco de origem é sólido, bem construído e muito bem inserido dentro do contexto geral maior do Universo Marvel.

Da mesma maneira, Adrian Alphona é muito feliz na criação de cada um dos jovens, todos bem diferentes entre si, especialmente em termos físicos, estabelecendo um bom realismo que se aproveita dos diálogos de Vaughan, que capturam muito bem o “ser adolescente”. No entanto, estamos falando de jovens vindos de berços de ouro, já que seus pais não seria vilões para viverem de forma modesta, o que torna de certa forma mais “fácil” o estabelecimento de suas personas, sem tantos conflitos internos. Mas Alphona é muito hábil em fazer algo clássico dos quadrinhos Marvel, mas sem deixar isso completamente óbvio: ele alia as personalidades de cada um às suas aparências, o que facilita a imediata identificação de cada um a qualquer instante, mesmo antes de a ação propriamente dita começar. Além disso, ele brinca com os arquétipos dos adolescentes que costumamos ver em séries de TV e filmes, misturando características como se estivesse embaralhando decks de cartas.

No segundo arco, Angústia Adolescente (Teenage Wasteland), que ocupa as edições #7 a 10, Vaughan expande esse razoavelmente pequeno universo, com o estabelecimento de um esconderijo para o grupo, o desenvolvimento da história do lado da inclemente caçada dos pais a seus filhos e a introdução do que poderia ser chamado o primeiro inimigo externo do grupo recém-formado. Não é uma ameaça particularmente séria, mas ela é muito bem trabalhada dentro da história, de forma a também funcionar como uma forma de lidar com as ansiedades e amores adolescentes de uma maneira orgânica e inteligente.

O terceiro arco, Achados e Perdidos (Lost and Found), é contido em apenas duas edições – #11 e 12 – e marca a primeira vez que os Fugitivos encontram super-heróis. A polícia corrupta da cidade, para acelerar a caçada aos jovens, arregimenta a ajuda de Manto e Adaga, exatamente por serem também heróis fugitivos. Aqui, Vaughan se arrisca bastante ao ameaçar introduzir de vez seus personagens ao mundo super-heroístico, quebrando a razoável compartimentalização que ele estabeleceu para eles. Afinal, ainda que a existência do grupo Orgulho exija um pouquinho de suspensão da descrença para ser aceito como existente há tempos dentro do Universo Marvel sem que ninguém soubesse (e sem retcons, diga-se de passagem!), ao trazer super-heróis estabelecidos para esse meio, o roteirista poderia afastar leitores. Mas Vaughan quase sempre sabe o que faz e o mini-arco, que pode ser considerado um filler, consegue ser perfeitamente auto-contido e absolutamente divertido em sua proposta de brincar com Manto e Adaga e toda a esperança deposita nos super-heróis. Esse arco marca também uma mudança na equipe artística, com Alphona sendo substituído brevemente por Takeshi Miyazawa que, porém, mantém o look and feel da história, sem tentar impor fortemente seu estilo.

(1) Os Fugitivos e pelicanos(!!!) em sua primeira boa ação e (2) Alfazema enfrenta Adaga.

Os Bons Morrem Jovens (The Good Die Young) é o arco final do primeiro volume de Fugitivos, ocupando as edições #13 a 17 e, como o título dá a entender, carrega um ar de tragédia. Nele, vemos os adolescentes levarem a batalha até seus pais, mas, principalmente, temos uma reviravolta que, apesar de anunciada antes, pode surpreender muita gente. Vaughan se esforça em fazer o twist funcionar e, na maior parte do tempo, ele consegue, falhando apenas na execução final do plano e na reversão da situação pelos jovens heróis, que me pareceu simples demais para o tamanho da tarefa diante deles. É quase como se a falta de espaço sentida no primeiro arco se repetisse no último, o que até cria um espelhamento interessante, se pararmos para pensar.

A última edição, então, é um epílogo simplesmente intitulado Dezoito (Eighteen) em simpático double-entendre que fecha bem a primeira macro-história dos Fugitivos, integrando-os finalmente ao universo maior ao seu redor. Se Vaughan quisesse, ele poderia considerar as aventuras de seus heróis como encerradas, já que o volume não necessariamente exige uma continuação. No entanto, ele mesmo continuaria a história já no ano seguinte, com o segundo e até agora mais longo volume de Fugitivos.

Fugitivos é a prova que, quando os criativos da indústria mainstream de quadrinhos realmente buscam quebrar barreiras e paradigmas, eles conseguem. Criando uma boa quantidade de novos personagens e uma linha narrativa inusitada e original, Vaughan e Alphona legaram interessantíssimos novos heróis (e vilões) ao Universo Marvel, muitos dos quais continuam até hoje sendo desenvolvidos de diversas maneiras diferentes.

Fugitivos – Vol. 1 (Runaways, Vol. 1 – EUA, 2003/4)
Contendo: Fugitivos #1 a 18
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Adrian Alphona (#1, 2, 13), Takeshi Miyazawa (#11, 12)
Arte-final: David Newbold (#1, 2, 11, 12), Craig Yeung (13)
Cores: Brian Reber (#1, 2, 11, 12), Christina Strain (13)
Letras: Paul Trutone (#1), Chris Eliopoulos (#2), Randy Gentile (#11, 12, 13)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho de 2003 a novembro de 2004
Editora no Brasil: Panini Comics, Editora Salvat
Datas de publicação no Brasil: fevereiro de 2006 (arcos 1 e parte do 2 – encadernado Panini), outubro de 2017 (arco 1 – encadernado Salvat), março de 2006 (parte final do arco 2 e arcos 3 e 4 – encadernado Panini)
Páginas: 23 (cada edição – 18 edições no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.