Crítica | Fullmetal Alchemist (2017)

  • Observação: O crítico não assistiu a nenhum dos materiais fontes dessa obra, portanto, preparem-se para um texto que considera, essencialmente, apenas o filme propriamente dito.

Fullmetal Alchemist, antes de ser um filme propriamente dito, é a adaptação cinematográfica do mangá de mesmo nome, escrito e ilustrado por Hiromu Arakawa. Dada a maré de fracassos audiovisuais baseados em populares produtos japoneses, desconsiderando-se, aqui, os filmes de menor orçamento, que saíram modestamente em mercados estrangeiros ao japonês, devemos lembrar que a maior parte destes produtos foram produzidos por mãos ocidentais, como Death Note e Dragon Ball Evolution. O fato de, nesse caso, a adaptação do também popular anime ter se mantido dentro dos conformes de sua origem, sendo o elenco inteiramente nipônico, abre espaço para complicações, mesmo assim. Dado o acesso limitado deste crítico ao material fonte, sem nenhum conhecimento prévio do trabalho de Hiromu Arakawa, mas o conhecimento das críticas por parte de fãs, questionando o fato dos atores não representarem a etnia de seus respectivos personagens originais, o caminho mais adequado para essa produção era mesmo uma padronização no casting? As boas intenções existem, apesar disso, e, dessa maneira, a história de Fullmetal Alchemist começa, bem intencionada e com premissas imaginativas, nos transportando para a história de Edward Elric (Ryosuke Yamada) e Alphonse Elric (Atomu Mizuishi), dois irmãos que, após tentarem realizar uma alquimia proibida, em um mundo no qual essa ciência antiga desenvolveu-se intensamente, pagam preços exorbitantes na busca por reverem sua falecida mãe mais uma vez.

Dentre os vários items a serem avaliados, as performances em Fullmetal Alchemist baseiam-se, em muitos aspectos, em dramatizações exageradas, atendendo padrões interpretativos diferentes dos ocidentais. As cenas de lutas, as frases de efeitos e as tentativas de se fazer humor. Mesmo estranhando um tipo interpretativo que não usual aos nossos costumes cinematográficos, há de se perceber que muitos atores coadjuvantes conseguiram se sair bem em seus papéis, como Ryuta Sato, intérprete do Capitão Hughes e Yo Oizumi, intérprete de Tucker. O segundo, aliás, estrela a cena mais pungente da obra, mesmo que sua participação, depois disso, beire o incompreensível em termos de justificativas. A comédia, porém, é a parte mais desconexa do restante do cerne, sendo levada para limites acima dos aceitáveis, beirando uma artificialidade que, se funciona em uma animação, ainda mais uma japonesa, que conta com diversas características únicas, não significa que vai funcionar da mesma maneira em um live-action. No caso, Winry Rockbell (Tsubasa Honda) é uma personagem tão afetada que nos faz desgostar dela, o completo oposto da intenção dos realizadores. Além do mais, nenhum aspecto da relação dessa personagem com Ed, algo deixado subtendido em diversos momentos do filme, é desenvolvido, sendo ela uma espécie de figurante, no final das contas. Em outros termos, a personagem é um peso-morto cheio de maneirismos, uma fisicalidade inverídica – olhos saltando e poses aleatórias -, além de gritos histéricos de questionar a nossa paciência.

Também enxergamos o mesmo overacting em diversos outros momentos da adaptação, além dos cômicos, os quais se encaixam razoavelmente bem na proposta do filme, mesmo que ainda existam diversas “cafonices” interpretativas, como quando Edward grita o nome de Alphonse, no clímax da obra, de uma maneira completamente deslocada da fluidez interpretativa apresentada, até então, durante aquela cena; uma resolução emocionalmente carregada. A montagem também nos brinda com uma pérola, quando Ed dá um tapinha na mesa e, em seguida, investe ferozmente contra um determinado personagem. A construção é duramente artificial, provocando risadas ao invés de tensão. Mas, com a análise do longa-metragem retornando à questão dramática, Fullmetal Alchemist torna-se um filme mais certeiro. A troca sentimental entre Edward e Alphonse é verdadeira, passada organicamente para o público, o que mostra um cuidado mais refinado do diretor Fumihiko Sori nesse âmbito importantíssimo. Se existem problemas na interpretação de Ryosuke Yamada em outros segmentos, o ator definitivamente convence quando passa a interagir com o seu irmão. A narrativa trabalha bem os pesares que existem nessa relação, os sacrifícios que foram feitos para que ambos estivessem no lugar que estão agora, exprimindo uma irmandade construída à base da perda. Os intérpretes das versões infantis dos dois, contudo, dão um claro sinal de uma má direção de atores. O começo poderia já ser uma extraordinária porta de entrada para o envolvimento do público com o filme.

A trama de Fullmetal Alchemist, para piorar, também é cambaleante, cheia de curvas bruscas. A começar pelo consideravelmente medíocre trabalho de contextualização, Fumihiko Sori e Takeshi Miyamoto não fazem questão de amarrar as pontas iniciais de uma forma organizada. Os espectadores distantes da obra original tornam-se caminhantes perdidos em um universo inédito para eles. A mitologia de Fullmetal é, provavelmente, muito vasta, diante dos indícios apresentado neste filme, mas faltou uma tradução mais cautelosa, por parte dos responsáveis, para que ela funcionasse perfeitamente bem, dentro das mais de duas horas de duração do longa. Por isso, diversos elementos citados durante a obra, como uma guerra civil, soam perdidos, visto que não encontram aliados dentro do próprio roteiro. Ou Fullmetal Alchemist deveria ter deixado as coisas ainda mais simples, ou deveria ter aberto essas portas honestamente, para que tais pontuações não fossem, necessariamente, presentes de modo realçado no produto, mas sentidas, dando espaço para serem exploradas futuramente, em possíveis continuações. Já em relação aos antagonistas, os vilões principais da obra, os impiedosos homúnculos, liderados por Luxúria (Yasuko Matsuyuki), têm algum objetivo vilanesco típico de vilões. As motivações, as atuações e as ações tomadas deixam tudo na esfera da unidimensionalidade, mesmo que tais personagens tenham, em teoria, muito mais camadas que as apresentadas – a questão da humanidade, por exemplo. O superficial é o único segmento explorado realmente.

Por fim, no meio de alguns twists problemáticos, apenas um é realmente poderoso: o já comentado momento envolvendo Tucker. Outra reviravolta, apesar de previsível, é bem trabalhada: um flashback que revela algumas verdades por trás de uma atitude inesperada de Roy Mustang (Dean Fujioka). Mais uma vez, entretanto, falta aprofundamento na conexão entre os coadjuvantes, no caso entre Mustang e Hughes, uma relação jogada no meio de uma história com uma quantidade absurda de personagens, pouquíssimos relevantes para a narrativa. Mas Fullmetal Alchemist ainda consegue ser uma diversão escapista, sem cenas de ação muito imaginativas, mas um eixo consideravelmente envolvente. Não esperem efeitos visuais surpreendentes, mas esperem, na maioria das vezes, efeitos eficientes, além de um design de produção acertado e figurinos que misturam o lúdico fantasioso com o acuramento espaço-temporal de uma forma equilibrada. A existência de uma bonita fotografia, que sabe capturar alguns planos típicos de anime, como dois rivais caminhando em uma rua coberta por árvores, contrapõe o penteado mal resolvido de Edward. Ao mesmo tempo, o trabalho de computação gráfica para a quimera falante contrasta com o feito sobre o grandalhão. Por motivos como esse, Fullmetal Alchemist, mesmo errando em muitas coisas, acaba acertando naquilo que é, talvez, o ponto mais importante do mangá fonte: a relação entre os irmãos. Curiosamente, este é um filme que faz jus à existência de Alphonse; oco em muitos sentidos, mas certamente com alma. 

Fullmetal Alchemist – Japão, 2017
Direção: Fumihiko Sori
Roteiro: Fumihiko Sori, Takeshi Miyamoto
Elenco: Ryosuke Yamada, Atomu Mizuishi, Tsubasa Honda, Dean Fujioka, Ryuta Sato, Jun Kunimura, Fumiyo Kohinata, Yasuko Matsuyuki, Yo Oizumi, Natsuna Watanabe, Shinji Uchiyama, Natsuki Harada, Kenjirō Ishimaru, Kanata Hongō, Misako Renbutsu
Duração: 135 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.