Crítica | Fútil e Inútil

Fútil e Inútil é o clássico exemplo de filme que tenta ser tudo, mas acaba não sendo muita coisa no final das contas. Da mesma forma que exaltei O Destino de Uma Nação por ter se focado nos momentos iniciais de Winston Churchill como primeiro-ministro britânico, e ter dado, portanto, uma veia narrativa bem estabelecida a si mesmo, critico este lançamento da Netflix por, assim como outras obras biográficas, buscar explorar toda a vida de uma pessoa dentro de um único filme. Doug Kenney é um dos fundadores da prestigiada revista de comédia National Lampoon, possuindo diversas fases que poderiam ter sido bem exploradas, criando, em consequência, algo deveras mais coeso como produto cinematográfico. O problema principal é que, ao jogar com toda a sua carreira profissional, Fútil e Inútil faz muitas atitudes e personagens tornarem-se questões automáticas da vida de Doug e não peças de uma complexidade identitária que acarretaria as demais frustrações pessoais de Kenney, o qual foi definitivamente um subversivo comediante.

Porém, não é como se os roteiristas John Aboud e Michael Colton não soubessem qual foco eles queriam dar para o argumento. Baseando-se na obra homônima de Josh Karp, os dois colocam no centro de tudo, um Douglas Kenney (Will Forte) lidando com sua amizade com Henry Beard (Domhnall Gleeson), enquanto ambos solidificam o edifício de sucesso que seria a National Lampoon, não só como revista, mas como programa de rádio, peça de teatro e até selo de filmes. Porém, aliado a isso, temos um protagonista com problemas com álcool, com problemas com drogas, com problemas com mulheres, com problemas de criatividade, além de esgotado de problemas de aceitação intrapessoal. Se tivéssemos que escolher algo para englobar toda a esfera narrativa de Fútil e Inútil, creio que a questão da aceitação, e o pensamento ambíguo sobre a vida feito por um homem que lidava com o sucesso na medida que também lidava com o fracasso, seja a principal, pavimentando o caminho para uma conclusão que, sem dar spoilers algum, usa da licença poética para criar um encerramento belíssimo, uma verdadeira homenagem a Doug Kenney.

Outrossim, daqueles acertos gigantescos e evidentes em uma obra cinematográfica, assim como encerra o filme muito bem, o diretor David Wain também o começa acertadamente, com uma quebra de expectativas extremamente interessante. Acompanhamos um garotinho olhando pela janela de seu carro, quando ele vê algumas líderes de torcida fazendo coisas de líderes de torcida, crianças fazendo coisas de crianças, jardineiros fazendo coisas de jardineiros e escoteiros fazendo coisas de escoteiros. O que se espera, nesse caso, é que o menino esteja indo para um internato, uma escola nova, ou algo do tipo. Mas não, o garoto se encaminha para o funeral de seu irmão, do “filho errado que morreu”. Logo depois, somos interrompidos por um muito mais velho narrador (Martin Mull), o qual incorpora a figura de Doug Kenney na modernidade. Os primeiros momentos com ele, enquanto tenta se começar o filme de fato, são bastante inspirados e nos fazem se afeiçoar com o senhor, embora, na realidade, esse subterfúgio da narrativa seja reciclado durante o longa-metragem menos vezes do que poderia ter sido. Tendo em vista os “limites do humor” que tanto a National Lampoon quanto outras revistas humorísticas supostamente ultrapassaram, o filme caminha bem ao trazer comentários críticos aos seus próprios personagens, não os enaltecendo por ter sido politicamente incorretos, mas enxergando isso como algumas das características deles, complicadas, mas inerentes a uma época nas qual os movimentos sociais ainda se esforçavam para ter alguma evidência.

O filme, propriamente dito, não teve que se preocupar muito com o objetivo de se fazer uma comédia, de se fazer engraçado. A história nos apresenta uma seleção incrível de momentos cômicos, os quais foram, na medida do possível, reutilizados para os fins narrativos corretos. Muitos personagens são apresentados como caricaturas, intensificadas pela natureza da época, a qual tinha figurinos extravagantes compondo cenários mais coloridos e vivos. Em certa parte do filme, a narrativa é pausada e uma longa lista de mudanças feitas, da história real para o enredo do longa, é apresentada, a qual passa rapidamente pela tela, com uma indicação apontando para o espectador depois retornar e lê-la toda, visto que algumas anotações contém spoilers de eventos futuros. O legal dessa apresentação das alterações fictícias é que ela se encaixa perfeitamente dentro do formato de exibição do filme, por streaming, o que possibilita pausar a obra e ler as mudanças quando quiser.

Mesmo assim, ainda é demasiadamente complicado defender a estrutura integral do filme, que quebra-o em segmentos e desmonta nossa conexão dramática e a aprofundação de personagem feita sobre o protagonista. Colocar Henry Beard como peça fundamental de toda a construção da obra é uma decisão certeira que, no formato da obra, se enfraquece quando a sua participação fica esporádica e o número de camadas possíveis para abordagem vão diminuindo progressivamente, até regredir completamente. Ademais, Chevy Chase (Joel McHale), considerado um amigo próximo de Doug, não tem a sua relação com o personagem de Will Forte sendo bem estabelecida, visto que ela fica no meio de tantas outras. Por exemplo, Harold Ramis (Rick Glassman), que esteve presente na vida de Kenney em diversos trabalhos, como na produção do filme Clube dos Cafajestes, recebe muito mais tempo de tela do que Chase, enquanto o segundo é presumidamente mais importante, vide o refúgio no Havaí, o clímax de Fútil e Inútil. É muito fácil se perder no meio de tantos nomes e pouca profundidade de relacionamentos.

Para finalizar, as relações amorosas de Kenney também ficam em segundo plano, com Kathyrin (Emmy Rossum) não tendo tempo em tela para fazer-se notável perante as demais figuras famosas. Mas, pelo menos, fica bem evidente que Doug nunca foi um amante a moda antiga. Na realidade, o antigo, o tradicional, não era algo fácil de ser aliado a ele. Com Kenney as coisas eram uma metamorfose ambulante, a piada estava se reinventando, para todos os gostos, dos mais infantiloides aos mais políticos. Retomando novamente o encerramento de Fútil e Inútil, ao som da lindíssima Beautiful Dreamer, é uma pena que os realizadores não conseguiram tornar essa cinebiografia do comediante uma boa comédia. Definitivamente, o final, que torna-se ainda mais grandioso e poético quando se é descoberto que ele não passa de uma invenção do roteiro, seria considerado um clássico moderno. Hoje, ele é a única coisa que você continuará lembrando após ver o filme, o qual, mesmo fraco, consegue, por causa excepcional dessa cena, nos tocar consideravelmente.

Fútil e Inútil (A Futile and Stupid Gesture) – EUA, 2018
Direção: David Wain
Roteiro: John Aboud, Michael Colton
Elenco: Will Forte, Domhnall Gleeson, Emmy Rossum, Seth Green, Joel McHale, Thomas Lennon, Matt Walsh, Rick Glassman, Jon Daly, Matt Lucas, Martin Mull, Finn Wittrock, Ed Helms, Neil Casey, Lonny Ross, Max Greenfield, Harry Groener
Duração: 101 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.