Crítica | Gacy

estrelas 2,5

A imagem que acompanha este texto pode enganar o leitor desavisado. A narrativa não apresenta ao espectador um homem vestido de palhaço assassinando jovens durante um final de semana qualquer. O filme é uma cinebiografia de John Wayne Gacy, um dos mais aterrorizantes psicopatas da história dos Estados Unidos. Ao longo de quase sete anos ele acumulou mais de trinta cadáveres no porão da sua casa, sem sequer levantar alguma suspeita da família.

A história ganhou projeção mundial e a cultura pop não deixou por menos. Entre as revistas, matérias, reportagens, filmes e demais narrativas sobre o psicopata, Gacy é uma delas, por sinal, bastante irregular, graças a sua montagem pouco dinâmica e roteiro insosso. No entanto, mesmo mediano, o filme nos causa alguma curiosidade, principalmente pela abordagem, afinal, a mente dos psicopatas é algo sombrio, assustador, mas não menos curioso e de alguma maneira, “fascinante”.

Sob a direção de Clive Saunders, que também assina o roteiro em parceria com David Birke, a cinebiografia nos mostra um homem que supostamente era um modelo de pai e marido, vizinho exemplar, educado e gentil, amável com as crianças, paixão que inclusive lhe permitia fantasiar-se de palhaço para animar eventos nas horas vagas. No entanto, por detrás desta imagem social, escondia-se um psicopata que tinha uma vasta coleção de cadáveres em sua casa, no porão, bem embaixo do espaço que convencionamos chamar de lar.

Em 1978 a polícia fez uma varredura e investigou o número 8213 da West Summerdole Avenue, em Chicago. Inicialmente não desconfiaram do terror que estava para se revelar, mas após insistir, mesmo com afirmações do tipo “é só um entupimento nos canos do esgoto”, diante de um odor desagradável vindo do porão, encontraram os restos de rapazes que haviam sido sequestrados, molestados e assassinados, e posteriormente, enterrados.

Logo, John Wayne Gacy (Mark Molton) revelou os seus crimes e sem demonstrar arrependimento, detalhou o “modus operandi” da sua “arte”, atos cometidos em operações que lembra um rito e por conta disso, o tornou um mito urbano, daqueles que a sociedade estadunidense ama e cultua constantemente. Questiona-se como é que ninguém desconfiou de nada, mas há de se convir que a máscara social de Gacy era muito bem acoplada. Matou durante um longo espaço de tempo, mas promovia eventos infantis, entretenimento para crianças no hospital local e comportava-se sempre de maneira dócil.

Nas investigações, bem como nas pesquisas acadêmicas sobre os seus crimes, descobriu-se que Gacy vinha de um lar disfuncional. O seu pai, um alcoólatra abusivo, o chamava de “marica”, haja vista as suas tendências homossexuais. Graças aos maus tratos, ao torna-se adulto começou a desenvolver um distúrbio que o fazia ter vontade de se passar por policial, a caçar outros rapazes no terminal de ônibus ou uma zona frequentada por homossexuais conhecida como Bughouse Square.

Após apoderar-se da sua presa, algemava e sodomizava a pessoa, torturando-a até o desfecho, brindado com um orgasmo enquanto estrangulava a vítima. Gacy tentou alegar insanidade, mas a proposta não agradou os representantes do tribunal. Após a sentença de morte ficou 14 anos de molho na prisão, aguardando a execução da sua pena. Durante o período bancou o pintor e realizou algumas obras grotescas de palhaços de circos e personagens da Disney, material que hoje é objeto de culto entre os fascinados pela história do serial killer.

Executado em 10 de maio de 1994, por injeção letal, Gacy gabou-se de ser um ícone cultural. Alegou que era tema de quatro livros de capa dura, trinta e um na encadernação tradicional, dois roteiros cinematográficos, um filme, uma peça off-Broadway, cinco músicas e um vasto repertório de artigos. Em suma, alguém “importante”.

Narrado em breves, mas suficientes e irregulares 88 minutos, Gacy foi uma produção lançada diretamente para o mercado de vídeo, com pouco interesse do público, hoje relegado ao ostracismo. Não é um bom filme, mas radiografa um tipo de ícone que a sociedade tende a comercializar como catalisador do grotesco, realizadores de atrocidades que nos tiram dos caminhos retilíneos a que somos indicados a seguir, num misto de horror, medo e fascínio. O fascínio, por sua vez, não vem pela devoção do antagonista social, mas pela curiosidade em compreender como alguém pode ter tanta coragem e ser capaz de cometer crimes hediondos que nos causam frio na espinha só de pensar no assunto.

Gacy é o que o pesquisador Luiz Alberto Moura, em sua tese “Anticristo Superstar: o mito do serial killer como anti-herói numa sociedade de extremismos”, definiu como catalisador da violência intrínseca a humanidade. Em seus rituais quase sacros em que o “Mal” precisa ser visto para ser expurgado, assassinos deste quilate ganham projeção mundial, espaço em museus, roteiros de séries televisivas e filmes, além de projeção no imaginário social, configurando-se como donos de atos abomináveis e fora da ordem.

Gacy (Gacy) – EUA, 2003
Direção: Clive Saunders
Roteiro: Clive Saunders
Elenco: Mark Holton, Adam Baldwin, Tom Waldman, Charlie Weber, Allison Lange, Jeremy Lelliot, Eddie Adams, Joseph Sikora.
Duração: 88 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.