Crítica | “Gal Estratosférica” – Gal Costa

estrelas 4

Nada do que fiz,
por mais feliz,
está à altura
do que há por fazer

 

Essa emblemática passagem da canção de abertura do disco Gal Estratosférica, Sem Medo, Nem Esperança já escancara o teor do que está por vir nos próximos minutos do novo trabalho da cantora. O que há por fazer, para Gal, pode muito bem surpreender até mesmo aqueles que já estão familiarizados com sua incomparável carreira: do rock à bossa, de experimentalismos e afins, Gal Costa se mostra, em Gal Estratosférica, uma jovem senhora de quase setenta anos de idade. Uma senhora de voz e corpo atentos aos inconstantes rumos do mundo. Jovem. Uma senhora de visão, uma grande cantora atenta às grandes transformações ao seu redor. O frescor da juventude grita através de sua voz delicada e cristalina. A juventude, enfim, sempre se manteve intacta em Gal Costa.

Apesar do timbre da voz, obviamente, não ser mais o mesmo, o vigor e a emoção com que interpreta as canções continuam ali. Basta atentar para Jabitacá e Espelho D’Água, dois dos momentos mais expressivos do álbum. Jabitacá, em especial, é de uma delicadeza ímpar. Preste atenção em sua melodia simples, sem floreios, porém bela. Trata-se de uma canção que marca logo na primeira vez em que é ouvida. Um triunfo. Espelho D’Água, com seu refrão mágico, tem mais cara de hit. A interpretação de Gal em ambas as canções é mais uma prova – como se ainda precisasse… – de que a baiana é um verdadeiro tesouro nacional, e merece toda a reverencia que já lhe é concedida pelos amantes da boa música há tempos.

Estratosférica, composta por Céu, Pupillo e Juninho Barreto, possui um balanço irresistível. O mesmo ocorre com Ecstasy, especialmente quando o fraseado de Gal contribui para pincelar a canção com texturas que uma cantora menor jamais pensaria existir. Repare como ela brinca com o ritmo, como sua voz navega maliciosa pela melodia, se adequando perfeitamente à letra sexy. É prazeroso ouvi-la, sentir-se embalado por ela, e perceber todas as suas nuances. É “alcançar o ecstasy”.

Outro momento em que o fraseado distinto de Gal se destaca é quando ela canta o primeiro single do disco, Quando Você Olha Pra Ela. Composta pela sempre fofinha-mas-sem-sal Mallu Magalhães, Quando Você Olha Pra Ela tinha tudo para ser apenas mais uma canção de amor em meio a composições realmente admiráveis e fortes (especial atenção para as três primeiras: as já citadas Sem Medo, Nem Esperança, Jabitacá e Estratosférica). Mas a interpretação de Gal a eleva, tornando-a um dos pontos altos do disco. Apesar de não ser uma maravilha em termos de letra, melodia e harmonia (como são Jabitacá e Ecstasy, por exemplo), revela uma Gal mais pop e descontraída, o que é ótimo; um sopro de alívio, ainda mais considerando que trata-se da canção que vem posteriormente à densa Espelho D’Água na ordem do disco.

Dito isto, é uma pena constatar que Muita Sorte, apesar de muito boa, é desperdiçada num arranjo mecânico, sem vida, e numa interpretação “no automático” por parte de Gal. Creio que ela funcionaria muito melhor na voz daquela Gal dos anos 70, a Gal de Gal Tropical. E surpreende-me que o produtor Kassin, sempre muito atencioso em relação aos arranjos dos discos que produz, tenha deixado passar uma versão tão fraca de uma canção que tinha tudo para ter seu lugar de destaque no álbum.

Aliás, é justamente a partir de Muita Sorte que Gal Estratosférica dá uma freada. Daqui pra frente, meus amigos, não há mais nada que se compare ao baque das três canções de abertura, ao gingado de Ecstasy, à intensidade poética de Espelho D’Água, ou à batida deliciosa e moderna de Por Baixo. A notícia boa é que, ainda assim, somos presenteados com doses de beleza, mesmo que mais discretas: Amor Se Acalme lembra alguns dos melhores momentos do disco Infinito Particular, de Marisa Monte – inclusive, a Marisa é uma das compositoras de Amor Se Acalme –, com sua melodia vertiginosa, que dá margem para a voz de Gal se desdobrar de maneira particularmente bonita. E Você Me Deu, de Caetano e Zeca Veloso, pai e filho, fecha o álbum com doçura e simplicidade.

Gal Estratosférica é puro deleite.

Gal Estratosférica
Artista:
Gal Costa
País:
Brasil
Lançamento:
26 de maio de 2015
Gravadora:
Sony Music
Estilo:
MPB

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).