Crítica | Game of Thrones 4X10: The Children

estrelas 5,0

Atenção: Contém spoilers deste episódio e dos anteriores

Podendo, também, ser chamado de “como amarrar pontas soltas e construir dezenas de outras”, The Children é um episódio para deixar qualquer um boquiaberto. Não por sua primazia técnica ou narrativa particularmente bem escrita, já que essas características já estavam presentes desde Winter is Coming, e sim pelo impulso dado à história, nos levando a caminhos, no mínimo, inesperados.

O capítulo abre exatamente de onde fomos deixados em The Watchers on The Wall, Jon atravessa a Muralha para negociar com Mance Rayder. O reencontro entre o corvo e o ex-corvo chega a ser desconfortável, sentimento criado pela câmera na mão oscilante, que procura nos aproximar da instabilidade de toda aquela situação. Há um grande tom de informalidade, característica deixada clara pelos planos e contra-planos ocupados quase que na totalidade pelas costas de cada um, deixando a incerteza ainda mais solta pelo ar. A conversa é, porém, logo interrompida por uma chegada inusitada – Stannis Baratheon traz uma grande cavalaria e rapidamente provoca a rendição do rei-além-da-muralha.

As tomadas mais intimistas e incertas são substituídas por planos mais abertos, alguns aéreos, nos levando para um tipo diferente de dúvida. Esses eventos, construídos aos poucos desde o fim da terceira temporada, garantem uma união narrativa à série como um todo, além de cumprir o papel de unir duas subtramas, até então, bastante distantes. Ouso dizer que tal resultado era esperado para quem se lembrava das palavras da Feiticeira Vermelha no ano anterior. Sabiamente, contudo, Weiss e Benioff gastam pouco tempo em tela com tais acontecimentos, construindo, aqui, o primeiro dos muitos cliffhangers que ainda veríamos no episódio.

Em seguida, partimos para King’s Landing, onde os ferimentos da Montanha são tratados. A alegria dos fãs, que ainda sentem a perda de Oberyn, é frágil, já que há uma esperança de salvação para o homem. Impossível não se deixar levar pela possibilidade do que veremos no decorrer da série, que espécie de criatura iremos nos deparar após os experimentos de Qyburn terem sido realizados. Independente de especulações, contudo, a cena tem seu valor para demonstrar ainda mais o desprezo de Cersei pelo irmão, fator que também está presente nas duas cenas seguintes, que nos mostram, de relance, a crescente loucura da Lannister e a evidente desunião de sua família.

No lado de Daenerys, por sua vez, a instabilidade de seu novo reino é ainda mais evidenciada. Nas últimas semanas fomos acompanhando cada falha de seu governo – de simples má administração à quebra de costumes antigos. O ápice se apresenta na tocante cena de aprisionamento dos dragões, que dá espaço para Emilia Clarke demonstrar o domínio de sua personagem, dando vida ao drama da sequência.  Não podemos deixar de sentir a ausência de Ser Jorah nestas cenas, algo bem trabalhado pelo roteiro que dispensou extensos diálogos entre os conselheiros e a Mãe dos Dragões. Foi um ano um tanto parado para a Targaryen, mas que apresentou uma gama de possíveis ramificações futuras.

Chegamos, então, ao ponto que, certamente, mais chocou os espectadores. No norte, sob o ponto de vista de Bran, nos deparamos com sequências dignas de Jasão e os Argonautas ou Uma Noite Alucinante 3, com esqueletos surgindo das profundezas da terra. Coroando esta quebra de expectativa, temos uma criança atirando bolas de fogo nas criaturas. A fantasia em Game of Thrones sempre esteve presente, desde o prólogo do primeiro episódio. Aos poucos, esse elemento foi ganhando mais presença, com o Senhor da Luz, os dragões, etc. Ainda assim, nada nos preparou para o que vimos aqui. A maior surpresa, contudo, foi que isso tudo conseguiu se encaixar organicamente dentro da narrativa da série. E o porquê disso está justamente na abordagem da subtrama de Bran, que conta com características mais fantasiosas desde o princípio (vide o corvo de três olhos). Com isso, Benioff e Weiss dão um salto no escuro e conseguem não cair em um profundo precipício, abrindo gigantescas possibilidades para os anos seguintes.

A sensação de jornada completa que presenciamos com Brandon também se estende para sua irmã, Arya. O fim de sua longa caminhada com o Cão de Caça se estabeleceu de forma desconcertante e assustadora, trazendo à tona toda a transformação da personagem, que, aos poucos, se acostumou com a morte. É interessante notar como a apatia e frieza da Stark, dada vida pela talentosa Maise Williams, consegue transformar a vítima em anti-herói, ao mesmo tempo que garante um novo propósito à aventura, até então, sem objetivo da garota. Os momentos finais do capítulo foram sabiamente gastos com a menina, trazendo um devido tom de encerramento para a temporada.

Antes desse fim chegar, contudo, contemplamos as consequências do julgamento por combate, provando-nos que ainda há esperança de vida para os personagens queridos pelos fãs. A fuga de Tyrion também nos revela onde a lealdade de Jaime está, algo que fora deixado em dúvida após seu mais recente ato de incesto. Estas sequências finais em King’s Landing serviram como mais uma lembrança da precisa direção de Alex Graves, que domina desde cenas de ação a íntimos momentos dramáticos. Ambos os assassinatos foram retratados de forma subjetiva, evidenciando a dor do personagem, sua relutância e total falta de esperança. É claro que o crédito também se estende a Peter Dinklage e Charles Dance, sempre eficazes em seus papéis. Certamente sentiremos falta da química (ou ausência dela) entre ambos.

A quarta temporada de Game of Thrones foi praticamente incessante, trazendo situações inesperadas a cada nova linha do roteiro. The Children é o perfeito encerramento para toda essa agitação, trazendo novas dúvidas, expandindo a mitologia da série e encerrando algumas narrativas, ao mesmo tempo que novas são abertas. O tom de desfecho foi ganhando uma sutil clareza, para que, nos momentos finais, abrisse suas asas, ao som de um arranjo da música tema. Benioff e Weiss novamente prendem, seus espectadores, sem dificuldade, por mais um ano.

Game of Thrones 4X10: The Children (Idem, EUA – 2014)
Showrunner: David Benioff e D.B. Weiss
Direção: Alex Graves
Roteiro: David Benioff, D.B. Weiss (baseado na obra de George R. R. Martin)
Elenco: Peter DinklageNikolaj Coster-Waldau, Kit Harington, Michelle Fairley, Lena Headey, Emilia Clarke, Charles Dance, Natalie Dormer, Iain Glen, Aidan Gillen, Harry Lloyd, Sophie Turner, Richard Madden, Isaac Hempstead-Wright, Rory McCann.
Duração: 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.