Crítica | Game of Thrones 5X03: High Sparrow

estrelas 4,5

Marcada por dois episódios mornos, a quinta temporada de Game of Thrones, enfim, acelera seu passo em High Sparrow, que marca a entrada de Mark Mylod na direção, substituindo Michael Slovis, que fora encarregado dos dois primeiros capítulos. O ritmo ainda não é o adequado para uma série de dez episódios, tendo em vista que já percorremos quase um terço do ano, mas já evidenciou uma melhoria em sua qualidade. Curiosamente também são Benioff e Weiss – também showrunners – que permanecem como roteiristas, evidenciando um desejo por controle maior do desenrolar da trama, ainda que somente bem elaborado aqui.

Começamos de onde fomos deixados na semana anterior. Arya entra na Casa do Branco e Preto e em uma sequência de estabilishing shots somos apresentados essa estranha morada dos homens sem rosto. Apesar da imponência externa do local, a casa é marcada pela ausência de luz e uma óbvia humildade – todos ali vestem roupas simples e os únicos ornamentos são estátuas de deuses, ou melhor, do deus de muitas faces, uma ótima adição para o cenário religioso da série e especialmente conflitante com o chamado Senhor da Luz – será ele mais uma das faces ou uma espécie de antagonista, tendo em vista seus métodos peculiares? Evidentemente o culto ao senhor da luz é baseado em um período específico da história do cristianismo – misturado com seitas chamadas de “pagãs” – mas teríamos um embate religioso maior vindo por aí?

Essa, ora sutil, ora aberta ênfase no lado religioso de Westeros é também trabalhado em King’s Landing, onde temos a maravilhosa adição de Jonathan Pryce ao elenco, no papel daquele que dá nome ao episódio, High Sparrow. Aqui temos mais uma das facetas de uma das crenças, um certo fanatismo que somente traz mais riqueza à criação de George R.R. Martin. A presença de Cersei frente ao líder desse culto abre interessantes possibilidades para sua subtrama, mas esse não é o único momento de brilho da personagem no episódio. Mais cedo, frente a frente com a nova rainha Margaery, Lena Headey demonstra mais uma vez seu talento e com simples olhares consegue transmitir toda a repulsa que sente à sua nova “filha”. Engolir o orgulho está longe de ser algo fácil e Headey demonstra tal sentimento com exatidão, criando uma nítida tensão no ar em um momento que conseguimos claramente imaginar uma voando no pescoço da outra.

E por falar em atuações não posso deixar de virar meu olhar para a subtrama de Brienne e Podrick. Benioff e Weiss investem preciosos minutos de seu episódio para um diálogo praticamente estático e, com ele, consegue trazer uma orgânica construção de personagens, nos revelando um pouco do passado da guerreira, ao mesmo tempo que reitera a bondade e até ingenuidade de Podrick. A relação cada vez mais próxima dos dois traz um pouco de otimismo a um enredo marcado por desgraças, funcionando como um atenuador de tensões, especialmente quando essas estão prestes a explodir.

O ponto alto do episódio, porém, se passa na Muralha, onde Jon, cada vez mais se torna mais próximo de seu pai, Ned Stark. Sua inabalável honra é notada por Stannis, que o observa atentamente – percebam a importância da presença do personagem na execução – ao longe ele observa o ato do novo Comandante da Patrulha da Noite e, quando tudo está acabado, faz um sutil gesto de aprovação com a cabeça. A direção de Mylod, em conjunto com a perfeita encarnação do personagem por Stephen Dilanne garantem uma grande naturalidade à cena, nos imergindo ainda mais na narrativa e até puxando de nós um sorriso.

Temos, portanto, uma nítida boa construção de roteiro, ao passo que Benioff e Weiss sabiamente deixam alguns personagens de fora da jogada (Jaime e Daenerys, em outras palavras). Dito isso, contudo, grande parte do mérito de High Sparrow está em sua montagem, que opta por sequências mais longas, com focos prolongados em personagens. Acima disso, o pulo de uma subtrama para a outra, em geral, é marcada pelos diálogos – quando um personagem se refere ao outro pulamos para ele, recurso mais do que óbvio dentro de séries e novelas, mas que contribui significativamente para a imersão do espectador, especialmente quando há uma gigantesca gama de pontos de vista a serem trabalhados.

Com isso em mente fica fácil perceber o aumento de qualidade da série em relação aos dois últimos capítulos. High Sparrow retoma a qualidade narrativa apresentada nos anos anteriores de Game of Thrones com um capítulo bem construído que sabe exatamente onde investir. Resta saber se os showrunners irão manter essa qualidade, ainda que não tenham encontrado o ritmo necessário para uma série de dez episódios.

Game of Thrones 5X03: High Sparrow (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: David Benioff e D.B. Weiss
Direção: Mark Mylod
Roteiro: David Benioff, D.B. Weiss (baseado na obra de George R. R. Martin)
Elenco: Peter DinklageKit Harington, Michelle Fairley, Lena Headey, Jonathan Pryce, Natalie Dormer, Iain Glen, Aidan Gillen, Harry Lloyd, Sophie Turner, Richard Madden, Isaac Hempstead-Wright, Stephen Dillane, Liam Cunningham,  Rory McCann.
Duração: 55 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.