Crítica | Game of Thrones 5X10: Mother’s Mercy

estrelas 5,0

Spoilers

Mother’s Mercy certamente foi um último suspiro da quinta temporada de Game of Thrones, marcada por grandes problemas de ritmo. Mas que suspiro! Em apenas sessenta minutos, o roteiro de Benioff e Weiss, dirigido por David Nutter, conseguiu nos lembrar o porquê da série da HBO ter tamanha legião de fãs. Trata-se de um episódio cru, angustiante e brutal, de deixar qualquer um desesperançoso. Dito isso, não deixem de ver a série somente porque seu personagem preferido morreu (ou não) e vamos discutir um pouco das teorias mirabolantes que correm soltas pelas bocas dos fãs – além é claro de nos aprofundarmos no capítulo.

Iniciamos com o resultado da chocante cena de The Dance of Dragons. A morte de Shireen de fato trouxe o resultado prometido e o gelo derretendo com o olhar ao fundo de Melisandre abre o capítulo. Aparentemente, contudo, o sangue da menina não foi o suficiente e trouxe também uma derrota completa para o Baratheon, cuja família agora consiste apenas do bastardo de Robert. A sequência de abertura torna completamente explícito o que aguarda Stannis e sedimenta toda sua loucura, sua fixação pelo trono e até mesmo uma dose de arrependimento. Sob a carcaça daquele homem rígido é possível identificar o peso de suas ações sobre ele – vejam como sua aparência se mantém a mesma do capítulo anterior, em nenhum ponto foi revigorada de qualquer forma, para deixar isso extremamente claro. Sua postura enquanto o exército dos Bolton se aproxima é aquela de resignação, mas deve lutar agora como obrigação. Stannis é, possivelmente, um dos personagens que mais decaiu ao longo de Game of Thrones e nada mais justo que uma honrada cavaleira para tirar sua vida, mesmo diante de suas ações o roteiro conseguiu tornar essa despedida penosa.

Ainda em Winterfell, essa parte da subtrama de Sansa é devidamente encerrada, unindo ainda com a redenção de Theon. Não sabemos, é claro, se ela será capturada novamente – o que seria mais uma regressão para a personagem – mas o término dessa fase fechou um belo ciclo narrativo iniciado lá na segunda temporada, quando Greyjoy decide voltar para sua família de sangue. Agora está ao lado de uma Stark, verdadeiramente, mas, como muitas das histórias aqui envolvidas, é difícil prever o que virá pela frente. A morte da amante de Ramsay reitera o caráter cru do episódio com o baque de seu corpo se encontrando com a superfície sólida – apenas uma das muitas mortes que vemos aqui em Mother’s Mercy.

Do outro lado do Mar Estreito, a subtrama de Dorne é salva pelo gongo. Ainda que totalmente previsível (alguém tinha dúvidas que aquele beijo não continha veneno?) a morte de Myrcella pode gerar interessantes repercussões não só para Jaime e Cersei, como para o reino como um todo, podendo gerar, inclusive, uma guerra. Naturalmente a semente fora plantada na prisão local alguns episódios atrás, com uma cena que, enfim, ganhou sua utilidade. Mas, como nada é perfeito, o encerramento da sequência traz um didatismo desnecessário com a extrema teatralidade da personagem tirando o batom e tomando o antídoto e dispensável para a narrativa, além de prejudicar o realismo do trecho.

O que faltou em choque em Dorne, porém, veio com Arya Stark, que comete seu primeiro assassinato (sim, ela matou o senhor na fonte, mas aquilo foi praticamente um favor), limpando um dos nomes de sua lista. A brutal cena serve como prova de que a garota não se tornou uma ninguém, especialmente pela ira empregada em seus golpes e palavras, algo que já era de se esperar, mas não no nível apresentado. O maior choque, porém, vem após com o interessante aprofundamento na troca de rostos. Aqui insiro uma indagação: alguém acredita que aquele homem pode ser o Deus de Muitas Faces? Seria curioso, não? Resta, é claro, esperar e, enquanto isso, pensarmos que rumo a subtrama de Arya pode seguir se ela estiver, de fato, cega.

O ponto alto de Mother’s Mercy, contudo, é indiscutivelmente a caminhada da vergonha de Cersei. Lena Headey mais uma vez mostra que é uma das melhores atrizes da série, nos trazendo, ao mesmo tempo, ira, sofrimento, tristeza e, é claro, vergonha. A crescente angústia em seu caminhar é nítida e a sensação acompanha o coro de vozes em volume cada vez mais alto, sendo cortadas pelo sino e as palavras shame. No final estamos tão destruídos quanto a rainha-mãe, sentindo até mesmo pena da personagem. Será mesmo que ela se arrependeu, ou ouviremos um kill them all nos primeiros episódios da sexta temporada? O tempo dirá, mas autenticamente pudemos sentir a dor daquela mulher, em mais uma demonstração do perturbador fanatismo religioso – temática forte dentro da temporada.

Já Daenerys ganhou um tratamento mais curto no capítulo e quem realmente brilhou foi Tyrion e Varys, que, enfim, são reunidos com mais um de suas conversas não-lineares. A aparição do personagem parece jogada dentro do roteiro, mas, estranhamente não causa um desconforto, naturalmente pela sua rede de espiões que o levou até ali. Conveniente, contudo, que tenha aparecido nesse momento do início do “governo” do anão e não antes ou depois. mas, como dito anteriormente, nada é perfeito.

Chegamos, portanto, ao cruel acontecimento que deixará muitos revoltados, querendo bater na porta de George Martin com um punhal e uma placa escrito “traidor”. Jon Snow morreu. Sim, não há dúvidas disso, um dos melhores personagens, que passou pelas maiores transformações e cuidado ao longo da série, morreu. Reparem, contudo, na oportuna chegada de Melisandre ao local – já vimos um dos devotos do Senhor da Luz trazer alguém dos mortos, não? Além disso por que ela teria ido justamente para a Muralha? Segurança, sim, mas seu olhar de surpresa pouco antes de sair da companhia de Stannis parece indicar que ela viu algo, seria a queda de seu rei ou a morte de Snow? Já sobre a cena em si, que efetua um óbvio, porém marcante, paralelo a Júlio César, é de deixar qualquer um sem reação, somos dados o tempo mínimo para perceber o que acontece, seguindo uma estrutura muito similar àquela do Casamento Vermelho. Um por um os Stark caem.

Mother’s Mercy traz o que todos os episódios de Game of Thrones deveriam trazer, uma narrativa sólida, coesa e com o adequado ritmo para uma série de apenas dez episódios. Mais uma temporada se foi e com apenas um capítulo fomos fisgados novamente através da crueza, a angústia e a brutalidade. O que nos resta agora é esperar.

Game of Thrones 5X10: Mother’s Mercy (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: 
David Benioff e D.B. Weiss
Direção: 
David Nutter
Roteiro: 
David Benioff e D.B. Weiss
Elenco: 
Peter Dinklage, Kit Harington, Emilia Clarke, Nikolaj Coster-Waldau, Michelle Fairley, Lena Headey, Jonathan Pryce, Natalie Dormer, Iain Glen, Aidan Gillen, Harry Lloyd, Sophie Turner, Richard Madden, Isaac Hempstead-Wright, Stephen Dillane, Liam Cunningham,  Rory McCann.
Duração: 
60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.