Crítica | Game of Thrones – 6ª Temporada

estrelas 3

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas das demais temporadas, games e livros de Game of Thrones, aqui.

Não é de hoje que a HBO é conhecida como sinônimo de qualidade. A emissora, por meio de A Família Soprano e The Wire mudou a história da televisão, nos trazendo os moldes do que veríamos nas séries dramáticas a partir daquele momento. O padrão de qualidade cinematográfico estendeu-se para a telinha e isso veio muito antes de Breaking Bad, The Walking Dead e Game of Thrones, como muitos tem pintado por aí. Nos anos que seguiram a estreia das duas séries emblemáticas dos anos 1990, o canal nos trouxe outras verdadeiras preciosidades, como Boardwalk Empire, Deadwood e Roma (ainda que esta tenha sido cancelada em virtude do orçamento caríssimo). Naturalmente, Game of Thrones encaixa-se dentro desse padrão, ainda que a quinta e a sexta temporadas tenham demonstrado uma queda de qualidade.

O primeiro indício desse fato é, na verdade, uma consequência do ano anterior. O episódio de abertura, The Red Woman, funcionou mais como um epílogo que, de fato, um apresentador de novas subtramas, como fora o costume nas temporadas até a quarta. O ritmo estabelecido já aqui seria um de demasiada lentidão, com capítulos excessivamente fragmentados que buscam ao máximo mostrar o maior número de personagens possível, problema esse que poderia ser evitado se dedicassem os sessenta minutos de projeção para um pequeno grupo de indivíduos – um episódio para Jon e Daenerys, outro para Arya e Cersei, por exemplo. Sim, estamos lidando com um número gigantesco de personagens, mas um esmero maior especialmente na montagem poderia ter feito a narrativa geral consideravelmente mais fluida. A via de comparação, observem a montagem do quarto ano e estudem o que fizeram, dando, inclusive, dicas do destino de personagens através dela.

Não que o roteiro não tenha alavancado inúmeras subtramas para a frente, mas existiu uma dilatação considerável até chegarmos a esse ponto, que poderia ter sido cortada em inúmeros pontos, especialmente no que tange a diálogos e pontos de virada perdidos dentro da narrativa. Um ótimo exemplo disso é o que vimos no final de The Red Woman ou a subtrama de Clegane ou de Sam, que soam completamente desconexas dentro do quadro geral, começam repentinamente e não trazem uma conclusão satisfatória e até mesmo a dispensam, soando como uma cena pós-créditos, que não faz parte do que acompanhamos nos outros arcos. Mesmo o arco envolvendo Bran parece perdido em um âmbito geral, ao passo que sua subtrama pouco se une com a dos outros personagens, ainda que esteja especialmente ligada com a grande guerra que está por vir.

O mais triste ao assistir a temporada é constatar que os avanços efetivos ocorrem pontualmente em capítulos, de forma breve, e rodeados por outras subtramas que muito pouco acrescentam e, é claro, nos dois episódios finais, que trazem acontecimentos, os quais alteram fundamentalmente o status quo de Westeros e Essos. Mudanças essas que, naturalmente, são mais que necessárias para a série, visto que temos apenas mais duas temporadas pela frente e ainda de duração reduzida. Observamos evidentemente as peças se preparando para seus movimentos finais, que culminarão na guerra contra os caminhantes brancos, cuja origem também foi revelada nesta temporada.

Um ponto interessante do ano que acabou de passar é como os personagens retornaram para suas origens da primeira temporada (os vivos, é claro), com mudanças essenciais em suas personalidades. A via de exemplo citarei alguns: Cersei volta a ser rainha, Jon e Sansa retornam para Winterfell, Daenerys é khaleesi mais uma vez, Arya retorna para Westeros. Tais acontecimentos garantem um teor cíclico não só à temporada, como ao seriado por completo – cada um teve sua jornada do herói e agora retorna para enfrentar seus maiores desafios. Nesse quesito não há como questionar a capacidade de Benioff e Weiss em conduzir a série como um todo, ainda que essas duas últimas temporadas poderiam ter oferecido mais em termos de roteiro.

Todavia, felizmente, no que o roteiro e a montagem pecam, a direção e a fotografia acertam. Especialmente nos dois capítulos finais pudemos observar uma forte simetria fotográfica, Miguel Sapochnik, afinal, já havia mostrado seu potencial na temporada anterior. Trata-se de um diretor que sabe lidar com cada questão com calma e fluidez ao mesmo tempo. Seus enquadramentos ao mesmo tempo que podem gerar uma forte sensação de claustrofobia (vide Battle of the Bastards), podem trazer arrepios pela linda disposição de elementos no quadro (The Winds of Winter está cheio de cenas assim). Mas Sapochnik não é o único a ser louvado, pois, se sentimos algo em The Door, por exemplo, foi graças à direção, que consegue criar uma atmosfera de pura tensão e consegue mascarar o problema de roteiro de que o sacrifício de Hodor foi para absolutamente nada, além da revelação ter funcionado mais para trazer lágrimas ao espectador do que um avanço real na narrativa.

Outro ponto alto deste ano foi Jonathan Pryce, no papel do Alto Pardal, um exímio jogador do jogo dos tronos que, por pouco, não dominou toda King’s Landing e, por sua vez, os sete reinos. Experiente, com um invejável currículo, Pryce nos trouxe um personagem verdadeiramente ambíguo, que nos deixava constantemente em dúvida se ele realmente era um homem de fé ou alguém sedento por poder – poderia, naturalmente, ser os dois, o que apenas corrobora seu talento. O melhor é que fomos deixados com essa incógnita a nunca ser respondida e sua morte muito bem representou o que Cersei disse temporadas atrás: quando você joga o jogo dos tronos, ou você ganha, ou você morre.

A trilha também se destacou sabendo exatamente quando aparecer. Os dramáticos acontecimentos girando em torno de Daenerys ou as batalhas de Jon Snow são acentuadas com melodias marcantes que exaltam os acontecimentos que vemos em tela. Mas a verdadeira quebra de expectativa foi o que escutamos no finale, uma peça musical que transforma a subtrama de Cersei neste capítulo em uma verdadeira obra de arte – tendo me tocado profundamente, chega a ser uma verdadeira tristeza pessoal não poder dar cinco estrelas para o episódio, fator provocado pelos outros problemas, alguns citados, inclusive, na presente crítica.

Game of Thrones, portanto, encerra mais um ano, dessa vez, repleto de altos e baixos, aos moldes do que vimos na temporada passada – ainda que essa tenha sido amplamente premiada, não compartilho o louvor dado ao ano passado. Ainda assim, estou confiante que teremos um final de série dentro dos próximos dois anos, visto que os dois episódios finais correram para consertar muitos dos erros apresentados anteriormente. Resta torcer para que não sigam a lentas e pouco significativas passadas como fizeram na maior parte desta sexta temporada.

Game of Thrones – 6ª Temporada (EUA, 2016)
Showrunner
: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Liam Cunningham, Carice van Houten, Natalie Dormer, Natalie Dormer, Indira Varma, Sophie Turner, Maisie Williams, Conleth Hill, Alfie Allen, Gwendoline Christie, Jonathan Pryce
Produtora: HBO
Disponibilidade no Brasil (na data de elaboração da crítica): HBO
Duração: 10 episódios de aproximadamente 60 min cada.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.