Crítica | Game of Thrones 6X04: Book of the Stranger

estrelas 4

Atenção: contém spoilers. Leia as críticas das demais temporadas, games e livros de Game of Thrones, aqui

No quarto capítulo de Game of Thrones, enfim, a série verdadeiramente começa a andar adiante. Em minhas críticas passadas levantei meu descontentamento em relação à falta de desenvolvimento do roteiro e fui rebatido com o argumento de que Game of Thrones é assim por alguns. Eis que, portanto, digo que a série, como era antes da quinta temporada, procedia da forma como este episódio, Book of the Stranger, se deu – sem necessariamente eventos explosivos, mas com uma narrativa que, de fato, acrescentava, parceladamente, para o futuro de Westeros e Essos. É sem o menor receio que, pois, afirmo que estamos diante do que a série pode (e deve, esperamos) nos oferecer, um retrato de seu verdadeiro potencial.

A dramática saída de Jon Snow ao final de Oathbreakerde fato, fora mais simbólico que efetivo. O filho de Ned continua na Muralha e, pouco antes de partir, reencontra-se com Sansa Stark, quebrando nossa expectativa de que a menina se desencontraria do irmão. A cena em si, marcada pela incredulidade dos personagens e planos curtos, buscando aumentar a tensão no espectador com o plano e contra-plano, é eficaz, resgatando a melodia da primeira temporada em um tom mais melancólico. A luz ofuscada do eterno nublado de Castle Black, então, é cortada pela sequência seguinte. Ambos no escuro – simbolizando muito bem o calor da relação fraterna e, posteriormente, a emergência de suas atuais posições – dentro de quatro paredes rememoram o passado e a direção que continua a optar por mais cortes e menos enquadramentos que contenham ambos irmão e irmã começa a incomodar. Em um episódio de união tudo o que vemos são personagens divididos pela câmera. Curiosamente, quando a discussão entre os dois começa, vemos os dois juntos em tela, quando a cisão seria melhor representada pelos já mencionados planos e contra-planos, que estarão muito presentes nesta crítica.

A incógnita, então, é deixada. E quanto a Davos e Melisandre? A sequência seguinte aborda, então, tal questão, evitando uma fragmentação da narrativa que, inevitavelmente, virá quando sairmos do Norte. A direção de Daniel Sackheim valoriza a equipe fotográfica ao colocar ambos os atores em quadro. Com eles em foco, a atenção gira em torno de Davos enquanto Melisandre mantém seu olhar distante e inalterado – não há a necessidade de cortes, ao passo que o foco está no homem que busca respostas enquanto a outra as oferece. O diretor mostra em seguida a qualidade de seu trabalho ao trazer planos individuais apenas para aumentar a dramaticidade da entrada de Brienne em cena, que chega com amargura e intriga em virtude dos eventos passados envolvendo Renly e Stannis. O olhar de Melisandre, então, se altera, passa a ser justificado um plano somente para si, especialmente em meio a seus recentes conflitos internos e fé abalada, que agora deposita em Snow.

A fragmentação inevitável nos leva, agora, para personagens até então ausentes nessa temporada. Littlefinger faz sua primeira aparição. No Vale, ganhamos uma emblemática cena que define o futuro da série. O senhor do Vale, apenas criança, fica em segundo plano, Baelish e Royce ocupam o centro do palco com guardas ao fundo de ambos os lados. A distância dessas figuras estáticas em segundo plano funciona não apenas para trazer o realismo à sequência (de fato eles devem se manter afastados), como para criar a tensão no espectador. Não sabemos quem prevalecerá nesse duelo verbal, dessa rede de intrigas e acusações – a lâmina nas línguas de ambos ganham suas manifestações físicas por esses figurantes. A voz do senhor do Vale ecoa sem ele mesmo aparecer em quadro, revelando seu poder e a forma como o personagem é manipulado – os guardas, então, se movem, mostrando, enfim, onde o poder se encontra, diminuindo a posição de Royce. O descaso de Robin Arryn muito bem exemplifica a frivolidade da vida, algo muito presente na série.

A troca de foco ocorre mais uma vez conforme somos encaminhados para Meereen. Vale notar o destaque dado a Tyrion pelo ângulo e altura da câmera. A sequência inicial no porto da cidade coloca os planos na altura do ator, não diminuindo-o em relação aos outros em virtude de sua baixa estatura, revelando quem verdadeiramente está com o poder em cena. O que vemos em seguida é Peter Dinklage relaxado na cadeira: ele está com o domínio da cena. A oposição entre os dois grupos e até mesmo a divisão em subgrupos (Tyrion e Varys, Grey Worm e Missandei) é obviamente retratada pelos enquadramentos que os colocam separadamente, como peças precisamente posicionadas. Um plano mais aberto se faz presente quando a resolução é alcançada. Mas nada é definitivo em Game of Thrones e mais conflitos emergem mesmo com a diplomacia em jogo. Enfim, temos um trecho que traz Tyrion, de fato, em ação e Dinklage não deixa a desejar, com um olhar que consegue transmitir ainda mais que suas palavras bem pronunciadas. Posteriormente o que assistimos em termos técnicos repete o início desse foco, colocando o anão sempre em destaque, com a altura certa da câmera e o personagem entre Missandei e Grey Worm.

Um inteligente corte, aproveitando a linha do olhar de Tyrion, nos leva para Jorah e Daario, que buscam resgatar Daenerys. Os enquadramentos mantêm a mesma simplicidade vista no diálogo de Jon e Sansa, inicialmente com uma câmera mais instável trazendo à tona o cansaço dos personagens, mais precisamente de Mormont. A troca do ator de Daario aqui se mostra cada vez mais precisa, ao passo que Michiel Huisman traz uma atuação bastante orgânica, adentrando em seu personagem com naturalidade. A noite, então, cai e a investida na cidade dos Dothraki se dá início; há uma sensação de caos que apenas aumenta a tensão construída. A posterior divisão em focos distintos na luta contribui para essa angústia no espectador e a trilha, que se esvanece quando Jorah começa a perder, coroa essa composição. O resultado é mais que evidente, especialmente considerando o enquadramento, que fecha em Mormont, dando espaço para a aparição repentina de Naharis. A sequência como um todo pode não acrescentar em termos de trama geral, mas cria a sensação de que houve certa dificuldade para os dois chegarem até sua rainha.

Evitando ao máximo uma maior fragmentação do que necessária, continuamos nas proximidades. Vemos Daenerys novamente em um trecho que busca nos lembrar o que está prestes a acontecer, uma mera repetição do que já assistimos. A mudança efetiva ocorre no reencontro dos três, preparando-nos para o desfecho do capítulo mais adiante, que, sem essa cena, soaria totalmente perdido, considerando o intervalo entre um episódio e outro. O plano da Targaryen em si falaremos mais adiante.

Em seguida somos levados para King’s Landing, onde encontramos uma Margaery desolada. O foco da câmera inicial no inseto na parede apenas aumenta a gravidade de sua situação – sujeira e solidão bem representadas pela cela escura. A única luz natural é vista na câmara do High Sparrow, revelando que a única saída desta mulher é através deste homem. A sequência como um todo, utilizando a mesma linguagem visual presente na Muralha, tem como único propósito construir a figura desse homem religioso, que também dá título ao episódio – Book of the Stranger, que pode significar que tudo não passa de uma grande atuação do personagem, ou algo ainda mais místico, conforme sua história em muito se assemelha com a do livro em questão. Jonathan Pryce, como sempre convincente, tem seu discurso enaltecido por uma câmera que se aproxima vagarosamente, seu olhar é distante e temos a nítida impressão de que o homem cava suas memórias conforme conversa. Sua crueldade é mascarada pela fé, conforme assistimos no que vem a seguir – mais um reencontro em um capítulo marcado por eles.

A coesão narrativa é mantida no corte, conforme o diálogo entre Pycelle e o Rei, escutado por Cersei, faz menção ao High Sparrow. Embora tenhamos focos distintos em King’s Landing, tudo gira em torno dessa perseguição religiosa, que diminui o poder da Coroa. A angústia do jovem Tommen chega a ser palpável e a conversa, cortada para a sequência seguinte, revela o que ouviremos na reunião do Pequeno Conselho. O olhar furioso de Cersei é uma constante, bem representando a urgência da questão abordada. A linguagem vista em Meereen, dividindo os grupos em dois ocorre aqui novamente. Quando Jaime fala, sua irmã está quase sempre em quadro, mesmo em segundo plano, deixando claro o poder da personagem e criando mais um cliffhanger para o próximo capítulo.

Vamos então para o trecho que soa mais desconexo do que assistimos no restante do episódio. Theon Greyjoy retorna para as Ilhas de Ferro e seu diálogo com sua irmã, além de revelar seu apoio à personagem, funciona quase que exclusivamente para inserir Ramsay na narrativa na sequência posterior, que, por sua vez, conta com o propósito único de se livrar de mais um personagem em uma cena desnecessária. Mesmo o destino do jovem Stark, que aprendemos estar em cárcere, é revelado somente na cena seguinte. Temos, portanto, um tapa buraco cujo único propósito evidente é garantir a duração do episódio e dilatar a narrativa para que caiba em dez episódios. Um dos poucos, ainda que evidente, deslizes de Book of the Stranger.

Voltamos, então, a Castle Black em uma sequência emblemática que revela perfeitamente os aliados de Snow e sua irmã. Vale reparar que Davos e Melisandre estão ausentes, encaixando-se com o que vimos anteriormente, visto que Brienne está presente à mesa. O conflito entre Sansa e Jon é resolvido aqui, com a presença de Tormund ao lado do bastardo sendo destacada, enunciando que nada está necessariamente perdido dentro dessa questão. Aqui não temos uma cena tão escura quanto a que vimos anteriormente – tudo é discutido abertamente e o tabuleiro começa a ser montado, dando início a uma nova caminhada para Snow. O destaque, porém, vai para Sophie Turner que encarna uma Sansa verdadeiramente mudada, que deixou sua ingenuidade de lado.

O desfecho dramático, pela primeira vez na temporada, fica com Daenerys, trazendo fortes vínculos com a primeira temporada. Sabemos que ela se encontra na mesma sala onde comera o coração há tempos atrás. Seu conhecimento do local é também reiterado pelo diálogo, ajudando a construir o já mencionado plano da Rainha. Sua ira é crescente conforme as falas da personagem são proferidas. Sua força é colocada em evidência com sua precisa movimentação, que a coloca no centro da sala e em local mais elevado. A trilha, então, atinge tons mais graves conforme o massacre ocorre, elevando ainda mais o poder da Targaryen. Sua saída da cabana em chamas marca o espectador e sua nudez muito bem representa uma certa pureza na personagem, que a coloca acima de humanos normais. Há um quê de divindade em Daenerys que constantemente esquecemos, mas que muito bem foi lembrado agora e seu olhar praticamente anuncia seu propósito.

Com isso, Book of the Stranger, facilmente o melhor capítulo até agora da temporada, ainda que com certos deslizes, nos prepara para o que está por vir. Coloca a trama em verdadeiro movimento e consegue nos deixar mais ansiosos que nunca pelo próximo capítulo. Com uma direção bastante simples, mas que cumpre seu papel, a série consegue nos lembrar do porquê de termos continuado a assisti-la até agora. Resta saber se Benioff e Weiss continuarão acertando nos episódios que estão por vir. Por enquanto, aguardamos esperançosamente.

Game of Thrones 6X04: Book of the Stranger (EUA, 2016)
Showrunner:
David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Daniel Sackheim
Roteiro: David Benioff e D.B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Liam Cunningham, Carice van Houten, Natalie Dormer, Natalie Dormer, Indira Varma, Sophie Turner,  Maisie Williams, Conleth Hill, Alfie Allen, Gwendoline Christie, Jonathan Pryce.
Duração: 59 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.