Crítica | Game of Thrones – 6X06: Blood of my Blood

estrelas 2,5

Obs 1: Contém spoilers. Leia as críticas das demais temporadas, games e livros de Game of Thrones, aqui.

Obs 2: O Guilherme Coral, crítico que escreve sobre a série, ficou momentaneamente impossibilitado de escrever sobre o presente episódio. A crítica abaixo foi escrita por Ritter Fan.

Tentar realmente entender a cadência temporal dos vários núcleos de Games of Thrones é uma tarefa ingrata e, em última análise, infrutífera. Cada linha narrativa, representada, em linhas gerais, por cada localização geográfica nos mapas de Westeros e Essos tem sua própria progressão que não se encaixa exatamente com as demais. Algumas são mais rápidas, outras mais lentas e outras ainda andando de lado, sem realmente oferecer nada para o conjunto.

Claro, todos sabemos e esperamos que cada trama convergirá ao final de alguma forma, forma essa que já começa a se delinear em meio a uma temporada que aparentemente tem como função desfazer muita coisa já estabelecida, muita “enrolação” inserida tanto por George R.R. Martin em suas obras originais quanto pelos showrunners David Benioff  e D.B. Weiss em um épico que acabou ficando maior e mais pesado do que seus próprios personagens, do que sua própria história.

E é com um certo temor que percebo que Blood of my Blood representa não um passo a frente narrativo, depois dos insossos eventos finais de The Door, em que dramaticamente descobrimos a “origem” de Hodor, mas sim uma volta ao estilo extremamente fragmentado que marcou o começo da temporada, com mini-narrativas costuradas de maneira desajeitada para dar impressão de grandes surpresas e reviravoltas que, na verdade, nada mais são do que mais voltas ao passado, mais uma forma de se fazer tábula rasa em relação aos acontecimentos até aqui talvez até com o objetivo nobre de se simplificar a salada que acabou se tornando a série.

Vejam, por exemplo, o retorno de Benjen Stark. Trata-se de mais um dos milhares de momentos deus ex machina da série, ainda que a volta do personagem (que obviamente não estava morto) tenha sido aguardada por todos. Mas ele surgir assim do nada – ok, ele foi “chamado” pelo Corvo de Três Olhos, mas vocês entenderam o que quis dizer, não? -, no lugar de surpreender, banaliza a trama, facilita saídas simplistas para situações complicadas. Se pensarmos bem, o sacrifício de Hodor desde sua infância não significou nada diante da presença de Benjen para esse sim salvar Bran e colocá-lo, mesmo que de maneira hesitante, finalmente no posto que antes era de Max von Sydow e atrasando ainda mais a revelação sobre o passado de sua tia Lyanna. A organicidade vai pela janela para dar espaço a retornos marretados na estrutura narrativa.

O mesmo vale, de certa forma, para os desdobramentos em Pyke, com a volta de Euron Greyjoy. Calma, eu sei que ele já aparecera em Home, mas convenhamos que foi mais outra aparição “mágica” lá, assim como sua eleição ao trono parece ser aqui. Conveniência narrativa de rolar os olhos e que tem potencial de complicar e não de simplificar a trama maior, agora que Yara e Theon são fugitivos.

E, falando em “retornos”, o que dizer de Peixe Negro (subitamente referenciado e tornando-se o centro das atenções do norte e do sul), do velho Walder Frey e de Edmure? E a menção didática ao Casamento Vermelho? Tudo bem que os espectadores de Game of Thrones não são – normalmente – enciclopédias ambulantes que conseguem citar os nomes das Casas e lembrar dos acontecimentos de temporadas passadas assim de uma hora para outra, mas esse é justamente o problema. A falta de tempo causada pela inflação no número de personagens, lugares e eventos torna o reaparecimento de situações e personagens passados quase que uma reapresentação desses mesmos personagens e situações. É como se os showrunners pausassem a narrativa e um personagem olhasse para a câmera e abordasse os espectadores diretamente, explicando as várias referências ali existentes. Muitos defenderão que isso já fazia parte de um plano maior, que é impossível abordar tudo, que isso ou aquilo, mas se detidamente analisarmos os acontecimentos de Blood of my Blood, veremos que eles são galgados em “reintroduções surpresa” de linhas narrativas enterradas que, de um minuto para o outro, tornam-se essenciais. Com isso, o episódio acaba dobrando-se em razão de seu próprio peso.

O que me lembra de Sam… Grande parte do episódio foi dedicada à sua chegada, juntamente com Gilly e o pequeno Sam ao castelo de sua família. São recebidos com afeto e carinho pela mãe e irmã de Sam, apenas para que o esperado momento de reencontro com seu pai seja um festival de preconceito e grosserias por parte de Lorde Randyll Tarly. O que aprendemos realmente nesta sequência? Nada, não é mesmo? Na verdade nada não, pois sua função narrativa parece ser exclusivamente o furto da espada de aço valiriano por um enfurecido Sam. Mas comparem toda a sequência – a recepção, o vestido, o jantar, o diálogo no quarto, a volta de Sam, o furto da espada – e reparem como ela muito mais retira do que acrescenta. O núcleo narrativo de Sam, por mais interessante que possa ser (e, muito sinceramente, exatamente por já termos mentalmente visualizado seu terrível pais a partir das histórias de Sam, ele é um grande bis in idem), funciona para subtrair do tempo de momentos mais relevantes.

A repetição temática, aliás, está presente no núcleo de Daenerys que, aparentemente, não só precisa sair pelada de uma cabana em fogo depois de matar os líderes da tribo bárbara, como fazer discurso montada em dragão para ser adorada sem restrições. Ah, e de quebra ela ainda mostra todo seu amor/respeito por Ser Jorah Mormont que perigosamente abre ainda outra porta para uma sub-trama narrativa envolvendo a cura de sua doença. E isso tudo enquanto Tyrion mostra-se um personagem que foi esquecido na trama maior, mesmo considerando sua aliança com mais outra bruxa vermelha, aliança essa que só traz mais mistério para a série, desta feita sobre o passado de Varys. E o mesmo pode ser dito de Arya, que, como esperado, mais uma vez hesita em obedecer ordens e reverte ao seu estágio “inicial” como espadachim. Ou seja, mais do mesmo e novamente um desenvolvimento narrativo – toda sua loooonga permanência em Braavos – que provavelmente será apagado de seu futuro.

Mas nem tudo se perde, pois os desdobramentos em King’s Landing prendem a atenção. A principal razão, claro, é a sensacional manipulação política encabeçada pelo Alto Pardal, vivido pelo único ator a ganhar espaço na série:  Jonathan Pryce. No alto de sua falsa simplicidade, Pryce cria um personagem fascinante, o único a rivalizar o Tyrion de Peter Dinklage em seus tempos áureos. Sua forma de atuar é tão dúbia e tão engajante que às vezes não sabemos o que pensar. Ele acredita mesmo naquele blá blá blá religioso ou ele é um mestre manipulador com o único objetivo de tomar controle do reino? Ou será que uma coisa não exclui a outra? Ainda que o plano do Pardal já tivesse ficado evidente, ver as casas Tyrell e Lannister darem com os burros n’água foi um momento realmente bem trabalhado no episódio, algo que nos fez relembrar do verdadeiro nome da série – “Guerra dos Tronos” – já que o esvaziamento do comentário político vinha sendo pronunciado desde a temporada anterior. Com a reunião de Estado e Religião, os showrunners não só fazem soar o alarme que é a teocracia potencialmente totalitária como literalmente invertem o jogo fazendo o espectador torcer mais ainda pelos Lannister, por mais assassinos, cruéis e incestuosos que eles sejam. Ou não… Dependendo da inclinação do espectador, talvez a torcida fique mesmo do lado do Pardal e de seu maquiavelismo exemplar.

O sexto episódio de Game of Thrones representa um passo atrás narrativo e um infeliz retorno à trama picotada ao extremo para dar espaço, ainda que diminuto, aos vários núcleos formados sem dar impressão de que a trama maior está sendo impulsionada. Mesmo perdoando as cadências temporais particulares e diferentes de cada trama, o resultado é uma história diluída e sem fluência, ainda que a produção continue suntuosa e detalhista em sua imersão visual. Trata-se de uma série que vem prometendo muito, mas cumprindo muito pouco.

Game of Thrones 6X06: Blood of my Blood (EUA, 29 de maio de 2016)
Showrunner:
David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Jack Bender
Roteiro: Bryan Cogman
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Liam Cunningham, Carice van Houten, Natalie Dormer, Natalie Dormer, Indira Varma, Sophie Turner,  Maisie Williams, Conleth Hill, Alfie Allen, Gwendoline Christie, Jonathan Pryce
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.