Crítica | Game of Thrones – 6X08: No One

estrelas 3,5

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No oitavo “episódio preparatório” do final da sexta temporada de Game of Thrones, o roteiro dos showrunners David Benioff e D.B. Weiss, que também escrevem os dois próximos, não deixa de lado a natureza mini-episódica que parece ser a norma da série agora, mas ao menos consegue oferecer encerramentos de arcos, nem que seja para fazer com que longos desenvolvimentos retornem praticamente à estaca zero. Mas já é um começo.

Vejam Arya, por exemplo. Vão para o lixo todas as teorias de fãs sobre ela ser a waif e estar lutando contra ela própria para ser “ninguém” e ela finalmente volta a ser o que era logo depois que foge se King’s Landing: Arya Stark, espadachim que jurou matar uma série de inimigos de sua família. Nada como dar uma volta enorme que tomou quase duas temporadas inteiras, para que a personagem retornasse exatamente para o ponto onde estava uns 20 episódios atrás. Antes que me joguem pedras aqui, parem para pensar e me digam exatamente o que aconteceu com ela desde que fugiu para Braavos? Lutem contra seu lado fã leitor dos livros e decorador e adorador de tudo que George R.R. Martin faz e me digam qual é o arco de crescimento da personagem? Em que ela agora está melhor do que já estava quando pegou o navio para a Casa do Preto e Branco? Ou, para ser mais justo: o que foi feito em 20 episódios que não poderia ter sido feito em, digamos, cinco ou seis?

Não que não tenha sido interessante o desfecho – até aqui – da jovem e aguerrida Stark. Sua fuga para o teatro de Lady Crane (era mesmo necessária aquela longa sequência da atriz vivendo Cersei mais uma vez?), o assassinato da atriz e a fuga por Braavos (se suspendermos nossas descrença completamente para aceitar que uma jovem esfaqueada duas ou três vezes na barriga consegue pular e correr daquele jeito) culminando com o enfrentamento do próprio Jaqen H’ghar que sorri como se tivesse planejado tudo aquilo são, sem dúvida, momentos muito bem dirigidos, particularmente a queda dela pelas escadarias com a Waif chegando bem ao fundo. Mas direção e fotografia nunca foram problemas nesta série, que sempre primou pela qualidade técnica. O problema está mesmo no “caranguejamento” das narrativas ou, no caso de Arya agora, na sua volta ao status quo ante.

Outro arco, este mais recente, mas também conectado com Arya, é o de Sandor Clegane atrás dos assassinos do Irmão Ray e seu grupo. Ressurgindo das cinzas apenas no episódio anterior, o ritmo de sua narrativa é de galope. Afinal, não há mais tempo a perder e sua volta tem que ter algum sentido narrativo próprio, com um mínimo de relevância para a temporada. Assim, aqui, é interessante ver a velocidade como a coisa anda e seu reencontro com Beric Dondarrion (Richard Dormer), o outro ressuscitado da série, membro da Irmandade Sem Bandeiras. Existe um senso de propósito no arco que se apresenta, ainda que seu encaixe com o restante dos núcleos me pareça distante ou pelo menos enigmático, o que levanta minhas suspeitas de que talvez a volta de Clegane só dê frutos efetivos na próxima temporada.

No pouco que vemos de King’s Landing, percebemos que Cersei está perdendo a paciência. O Alto Pardal se faz sentir espiritualmente presente pelas forças fanáticas da Fé Militante encabeçadas por Lancel Lannister e também pela manipulação por debaixo dos panos do Rei Tommen, que abole o “julgamento por combate”, a última esperança da mãe em sair incólume da “ira divina”. Claro que a sequência em que ela escolhe a violência – em um momento tenso, de poucas palavras, mas muito eficiente – e o Montanha Zumbi finalmente faz alguma coisa útil (ok, é a segunda vez na temporada) é poderosa e mostra muito claramente o que vem por aí em meio a um plano ainda secreto envolvendo o Maester Qyburn. A ausência de Margaery – assim como a do Alto Pardal – fez-se sentir neste núcleo, mas talvez o objetivo tenha mesmo sido focar em Cersei e mostrar que ela também está ativamente jogando o jogo de tronos e não apenas esperando sua absolvição acontecer pelas enormes mãos de seu guarda-costas.

Neste núcleo, que vem se mantendo realmente como um dos poucos realmente consistentes ao longo de toda a temporada, vê-se particularmente o bom trabalho entre luz e escuridão da fotografia, que chega a ser quase didática ao deixar Cersei nas sombras, algo amplificado por seu figurino entristecido, e dando autoridade à Fé Militante com uma luz que, porém, não é bela e sim suja, o que demonstra que não há lado certo neste lado do conflito.

Do outro lado do oceano, em Essos, Tyrion continua sendo o melhor personagem desperdiçado da série. Peter Dinklage deve ter percebido muito claramente que não restou nada para seu personagem fazer e transparece isso em sua atuação cada vez mais sem graça, crivada de diálogos vazios e repetitivos. Aliás, repetitiva é toda a situação dele em Meereen. Ele perdeu de novo o controle da situação, depois de mais uma negociação fracassada. E a volta de Daenerys (alguém – mesmo os personagens – tinha alguma dúvida que era ela chegando de cima em uma pirâmide daquela altura?) é também, assim como no caso de Arya, a volta à situação anterior depois de oito episódios de pura enrolação cuja única grande novidade foi a reunião dos bárbaros sob seu comando, algo que poderia ter sido feito e trabalhado muito mais rapidamente. A enrolação é tanta nesse núcleo que, quando Daenerys chegar em Westeros finalmente, ela não terá mais gente para matar…

Mas eu deixei o melhor por último. Enquanto a conversa de Sir Jaime com Blackfish no episódio anterior foi de trincar os dentes de tão óbvia e desnecessária, aqui o conflito em Correrrio ganha relevância e desenvolvimento inteligente, mostrando que a série não vive só de enforcamentos, decapitações, estupros e invernos (e zumbis) que nunca chegam. Brienne reunindo-se com Jaime foi um momento marcante e bem construído – com o paralelismo do diálogo de Podrick e Bronn do lado de fora da tenda – que ratifica o respeito mútuo que eles sentem. O pesar com que a conversa acaba, delineada por um possível combate entre os dois talvez tenha sido a verdadeira mola propulsora para Jaime ameaçar Edmure do jeito que ameaça logo em seguida, em mais um diálogo forte e crível. Sim, ele coloca tudo na relação dele com Cersei, deixando às claras seus relacionamento incestuoso pela primeira vez para terceiros (que me lembre…), mas o grande catalisador, tenho para mim, foi sua vontade de não enfrentar Brienne, não por qualquer coisa parecida com medo, mas sim por ver nela um espelho de si mesmo antes de ter sido “estragado” por seus atos hediondos de uma vida inteira.

Mesmo, porém, nesta sequência, vê-se o efeito volta ao status quo ante que mencionei no início. Há apenas dois episódios o núcleo de Correrrio ressurgiu e qual foi seu efeito prático se a situação perdurar dessa forma? Nenhum, não é mesmo? A narrativa não andou para frente de maneira a carregar a história maior e sim pareceu um desvio – por mais interessante que seja – para ganhar tempo para o conflito final, como se não houvesse história para contar. E há! Fica difícil justificar um cerco a um castelo que precisa de três episódios para ser resolvido se não houver uma consequência palpável para o final da temporada, o que não parece ser exatamente o caso (e espero estar enganado e realmente espero que Blackfish não apareça vivo mais uma vez…).

De toda forma, apesar da irritante incapacidade dos showrunners de fazer a temporada andar uniformemente para frente, sem sumir com núcleos inteiros por episódios a fio (as mulheres de Dorne? Bran? Jon e Sansa? Littlefinger? Ramsay?), No One é um exemplo competente em uma safra fraca. Só faltam dois episódios com a promessa de guerra no próximo. A pergunta que se deve fazer é: a jornada tem valido à pena?

Game of Thrones 6X08: No One (EUA, 12 de junho de 2016)
Showrunner:
 David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Mark Mylod
Roteiro: David Benioff, D. B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Liam Cunningham, Carice van Houten, Natalie Dormer, Natalie Dormer, Indira Varma, Sophie Turner,  Maisie Williams, Conleth Hill, Alfie Allen, Gwendoline Christie, Jonathan Pryce
Produtora: HBO
Disponibilidade no Brasil (na data de elaboração da crítica): HBO
Duração: 56 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.