Crítica | Game of Thrones 6X10: The Winds of Winter

estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas das demais temporadas, games e livros de Game of Thrones, aqui.

Após um ótimo episódio, precedido por uma tortuosa temporada, repleta da mais pura enrolação, com alguns pontos de virada semeando o roteiro, alguns deles sem qualquer relevância aparente (lembram da revelação sobre Melisandre?),  a sexta temporada de Game of Thrones encerra-se com um capítulo que muito tinha em suas mãos, mas, principalmente, a missão de salvar este ano do seriado da HBO. The Winds of Winter consegue apagar os erros dos oito episódios duvidosos que o precederam? Certamente que não, mas representa um pulo gigantesco para a série, posicionando todas as peças, deixando-as prontas para o finale que sabemos que ocorrerá dentro de duas temporadas de duração reduzida – uma com sete e outra com oito capítulos.

Não é somente de roteiro, porém, que se faz uma obra audiovisual – entremos, portanto, no que faz o season finale o melhor que essa temporada nos ofereceu, sim, ainda melhor que o anterior – podem se revoltar nos comentários, sabendo que eu adorei Battle of the Bastards, ainda que ele não seja perfeito como muitos têm pintado por aí.

The Winds of Winter começa com uma dramática melodia marcada por um melancólico piano, nos preparando para o que está por vir. A trilha aqui cumpre importante papel de criar a tensão da expectativa no espectador, visto que a série poucas vezes utiliza a música de forma tão delineada assim – o Casamento Vermelho é um dos exemplos onde a mesma estratégia foi empregada. Sabemos que o julgamento de Loras e Cersei viria aqui e Benioff e Weiss cuidadosamente fazem uso de uma montagem paralela para ao mesmo tempo nos mostrar o interior do septo e o exterior, onde tudo começa a se movimentar em direção à explosiva reviravolta desse núcleo. Quando percebemos o que irá ocorrer, ainda que as teorias apontassem para essa direção, Natalia Dormer, no papel da Tyrell, dá voz ao espectador e sua impotência dentro do cenário apenas nos deixa com o coração na boca, preparados, temerosos e até satisfeitos com o que está por vir, uma verdadeira jogada de mestre da, até então, melhor jogadora desta guerra dos tronos.

Grande parte do mérito do capitulo também deve ao seu roteiro cíclico, que nos traz, próximo ao desfecho, um retorno da marcante música, agora rearranjada em uma versão de The Rains of Castamere, simbolizando outra vitória, ainda que a grande custo, dos Lannister. Vitória essa, que definitivamente provocará uma cisão entre os dois irmãos, não só pela perda de seu último filho, como pelo fato de Cersei ter empregado a mesma tática que custou a vida do Rei Louco. O olhar de Jaime demonstra isso. O melhor de tal sequência, contudo, não é isso – é a direção de Miguel Sapochnik, que mostra que sabe dirigir muito mais que sequências de batalha, empregando uma decupagem simétrica na retratação da sala do trono, ampliando nossa percepção do poder, mesmo que frágil, recém adquirido da Lannister, em virtude do posicionamento da personagem no centro da imagem.

No Sul, por sua vez, assistimos as consequências do capítulo anterior. A saída de Melisandre da jogada certamente pode custar algo a Jon, mas não sabemos, de fato, se o Senhor da Luz sequer existe ou se é mera explicação dada pelos homens a um tipo específico de feitiçaria. Digno de nota é o fato de, pela primeira vez, vermos as maquinações de Littlefinger não produzirem o objetivo desejado por ele. Não somente Sansa recusou seu “amor”, como as famílias do Norte proclamaram sua lealdade ao bastardo Stark. Um evidente paralelo é traçado aqui com a primeira temporada – mais uma vez ouvimos “o rei do norte” ser gritado aos quatro ventos, como assistimos uma nova guerra de reis ganhando forma. Naturalmente, não temos como antecipar se Jon irá de encontro com Daenerys como inimigos, cabe isso às incontáveis teorias que definitivamente já se iniciaram nos fóruns afora pela internet. Ainda mais impactante para a trama é a revelação de que Snow é, de fato, um Targaryen. O encaixe da cena, contudo, soou um tanto forçado, nos fazendo nos indagar o porquê disso não ter sido mostrado antes, enquanto Bran ainda estava em seu “treinamento”. Obviamente isso foi deixado para o fim para que um maior efeito dramático fosse atingido, mas a duração do núcleo do jovem Stark foi tão curta que acabou parecendo desconexa dentro do capítulo. Ainda assim, um problema menor dentro do que assistimos no restante dele.

O mesmo ocorre com Sam e sua chegada à Cidadela. Somente o vimos mais três vezes no ano inteiro e todas soaram como se estivéssemos vendo um spin-off de Game of Thrones. Enquanto todo o resto se encaminhava para o final, ele inicia uma jornada sem fim aparente. A morte do Maester em King’s Landing pode significar que o Tarly irá ocupar seu cargo futuramente, visto que o atual apresenta métodos um tanto quanto erráticos, mas não consigo enxergar a relevância de seu foco dentro da temporada, apenas para nos mostrar mais uma arma capaz de acabar com os White Walkers, cuja ausência, aqui, foi definitivamente sentida.

Tal problema é contornado, por exemplo, quando vemos Arya Stark assassinar o algoz de Robb. Vejam como o ocorrido funciona como um desfecho para a subtrama do Correrio, além da morte ter sido profetizada para nós por Jaime Lannister pouco antes. A jovem assassina poderia ter aparecido mais, mas isso não chega a impactar negativamente o capítulo, apenas nos deixa temerosos em relação ao início da próxima temporada, que pode ser construído de forma idêntica ao que vimos nesse ano, no formato de epílogo. Mais notável da subtrama de Arya é a forma como o pulo temporal foi satisfatoriamente utilizado e o mesmo vemos com Varys. Sim, há muitos reclamando disso, mas a série precisa correr e o defeito se encontra na lentidão do passado e não no ritmo fluido no presente, lembrando que nem tudo, necessariamente, se dá em tempos paralelos.

Por fim, a Filha da Tormenta finalmente embarca com destino a Westeros e se algo foi mostrado nessas últimas temporadas é como a Targaryen se tornou feroz ao longo de seu crescimento como personagem. Uma incógnita se forma acerca de seu papel dentro dos Sete Reinos. Entrará como uma líder ou puramente uma maquiavélica conquistadora? A lealdade de Tyrion pode ser colocada em cheque, representando um possível triste impacto no personagem que se deixou acreditar na rainha. Há uma evidente frieza em Daenerys explicitada no diálogo entre ela e a mão da rainha e pouco sabe que há outro Targaryen na guerra dos tronos. Emília Clarke pode nunca ter sido a melhor atriz da série (Lena sempre ocupará esse cargo), mas ela conseguiu trazer uma nítida profundidade nas sequências que aqui presenciamos. O simples fato dela ocupar a cena final traz um forte sentimento de que entramos em uma nova fase no seriado, o desfecho já está sendo escrito e isso foi feito com uma impactante cena ao som da música tema e impressionante uso de CGI, além das emblemáticas velas portando o símbolo da família que há muito se acreditava destruída.

A sexta temporada de Game of Thrones definitivamente deixou muito a desejar, mas seus dois episódios finais deram o que falar e nos trouxeram a lembrança prazeirosa do que a série pode nos oferecer em seu primor. A torcida é para que vejamos mais disso nos dois anos finais que restam. The Winds of Winter não é perfeito, não é o melhor episódio do seriado, mas não por isso deixa de ser um verdadeiro deleite de ser assistido.

Game of Thrones 6X10: The Winds of Winter (EUA, 26 de junho de 2016)
Showrunner
: David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Miguel Sapochnik
Roteiro: David Benioff, D. B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Liam Cunningham, Carice van Houten, Natalie Dormer, Natalie Dormer, Indira Varma, Sophie Turner, Maisie Williams, Conleth Hill, Alfie Allen, Gwendoline Christie, Jonathan Pryce
Produtora: HBO
Disponibilidade no Brasil (na data de elaboração da crítica): HBO
Duração: 69 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.