Crítica | Game of Thrones – 7X01: Dragonstone

estrelas 3,5

– Contém spoilers do episódio. Acessem, aqui, todo o nosso material de Game of Thrones.

Assim como em qualquer texto cujo início deve cativar o receptor e ao mesmo tempo oferecer vislumbres da ideia central a ser desenvolvida posteriormente, um season première é algo extremamente difícil de ser feito. Quando se trata de Game of Thrones, com uma lista de personagens maior do que o nome completo de Daenerys, essa tarefa se torna ainda mais difícil, visto que precisamos ser lembrados de onde os diversos “jogadores” de Westeros (chega de Essos!) se encontram, enquanto enxergamos as peças sendo colocadas em seus devidos lugares, prontas para iniciarem mais uma partida desse gigantesco jogo de xadrez. Dito isso, depois de dois inícios de temporadas decepcionantes (que combinaram com o desenvolvimento de cada uma delas), nossos temores em relação a essa sétima estavam em um grau bastante elevado.

Estamos falando, contudo, de uma temporada consideravelmente menor que as outras, com apenas sete episódios, ao invés dos costumeiros dez. David Benioff e D.B. Weiss, showrunners da série, portanto, precisariam acelerar um pouco todo o processo e, embora esse seja o clássico capítulo de apresentação do cenário, a dupla demonstrou que está ciente do tempo que têm nas mãos, algo que já é deixado bem claro na sequência inicial, que nos mostra Arya Stark, disfarçada de Walder Frey, assassinando todos os Frey com alguma relevância no cenário político/militar. Naturalmente que essa breve introdução funciona para nos levar de volta aos momentos finais da sexta temporada, além de explicitar a elipse temporal que veríamos nessa premièreDragonstone.

Como sempre, tal pulo dentro da narrativa ocorre de forma discreta, sendo marcada através de diálogos, como o de Cersei e Jaime comentando sobre a necessidade de se ter aliados. Desde já começamos a enxergar como essa temporada irá se movimentar. De um lado, temos os Lannister recorrendo a Euron Greyjoy, preparando-se para a guerra contra Daenerys, que sabem que se aproxima. Do outro, no Norte, temos Jon e Sansa tomando as necessárias providências para combater o exército de mortos. E, claro, em Dragonstone, a Targaryen chega com suas tropas e dragões, pronta para começar a (re)conquista dos sete reinos, com a fortaleza sendo apresentada, claro, de forma imponente, com uma decupagem bastante previsível, a fim de evidenciar a importância do momento..

Com pinceladas, o roteiro de Benioff e Weiss une cada um desses personagens, utilizando outros “jogadores menores” para criar os necessários vínculos quando preciso. Peguemos o exemplo de Sam, na Cidadela. Ele busca exatamente aquilo que Jon precisa e descobre que uma das jazidas de vidro de dragão se encontra justamente onde Daenerys está, prenunciando, portanto, um encontro entre Snow (ou seria Targaryen/Stark?) e a Mãe dos Dragões. De maneira similar, temos a expectativa do encontro entre Clegane e o povo livre em uma das fortalezas da Muralha, próxima ao mar. Desenvolvimentos como esses costumam acontecer já no meio da temporada quando se trata de Game of Thrones, denotando que a urgência sentida pelos personagens é compartilhadas pelos próprios criadores da série.

Mas nem só de conversas com objetivos bem marcados e sangue é feita a série. Ouso dizer que seus melhores momentos são os mais simples, como o encontro de Ned e Robert na primeira temporada, ou as interações entre Arya e Tywin na segunda. Benioff e Weiss não se esquecem disso e nos entregam dois momentos específicos de construção de personagem, aparentemente “soltos” no capítulo. O primeiro é Arya no meio dos soldados dos Lannister, importante sequência que pode desconstruir sua visão branco no preto em relação a seus inimigos – é necessário que ela enxergue que todos ali são humanos e que os atos de pura vilania são realizados por alguns poucos. Outro desses trechos é aquele centrado em Sandor Clegane, que enterra o pai e a menina encontrados mortos dentro da casa. Essa simples cena denota com a maior clareza o quanto o personagem evoluiu desde o início da série, ou até o quanto nossa visão sobre ele foi se alterando com o passar do tempo.

O que chega a incomodar bastante nesse capítulo inicial é um fato já comum à série, fruto inevitável de como os roteiros são construídos. Refiro-me à montagem burocrática que nos leva de foco em foco como se fossem pedaços de histórias independentes e não parcelas de uma única obra. Claro que pular de personagem em personagem não é um problema e sim a maneira como isso é realizado, sem uma preocupação maior com o episódio como um todo. Tais focos funcionam como fragmentos da temporada, desconjuntados até o derradeiro fim, o que nos impede, por exemplo, de dizer que esse foi um ótimo episódio de Game of Thrones. Podemos apenas falar que esse capítulo trouxe ótimos momentos, sem criar fluidas obras de arte como fazem Noah Hawley ou Vince Gilligan, por exemplo.

Com tantos personagens relevantes, contudo, seria uma tarefa árdua fazer de Game of Thrones mais do que uma grande colcha de retalhos, se o que ganhamos são parcelas de histórias interconectadas, cada uma, ainda assim, independente uma da outra, que, ao menos vejamos algum progresso nelas. Felizmente, o desenvolvimento é notado aqui, constituindo um bom início de temporada, que, desde já, apresenta um ritmo mais acelerado que as duas anteriores. Resta torcer para que Benioff e Weiss não deixem a bola cair e que, de alguma forma, série possa nos apresentar episódios de verdade e não fragmentos de histórias unidos pela magia da montagem.

Game of Thrones – 7X01: Dragonstone — EUA, 16 de julho de 2017
Showrunner:
David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Jeremy Podeswa
Roteiro: David Benioff, D.B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Aidan Gillen, Liam Cunningham, Sophie Turner, Maisie Williams, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, Conleth Hill,  John Bradley, Isaac Hempstead Wright, Hannah Murray, Kristofer Hivju, Rory McCann, Iain Glen, Jim Broadbent, Pilou Asbæk, David Bradley, Anton Lesser, Richard Dormer,  Paul Kaye, Jacob Anderson, Ellie Kendrick
Duração: 59 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.