Crítica | Game of Thrones – 7X02: Stormborn

estrelas 4,5

– Contém spoilers do episódio. Acessem, aqui, todo o nosso material de Game of Thrones.

Depois de um season première com ritmo, felizmente, mais acelerado que a grande maioria dos episódios da série, Game of Thrones nos entrega mais um capítulo repleto de acontecimentos de destaque, evidenciando que David Benioff e D.B. Weiss têm completa noção do quanto devem correr para finalizar a série em um número reduzido de episódios. Mais gratificante que enxergar essa saudável agilidade da narrativa – ainda que traga os seus defeitos, ligados às problemáticas elipses do seriado – é observar um maior cuidado na montagem, que intercala os diversos focos contemplados nesses cinquenta e nove minutos de maneira orgânica, dispensando o burocrático trabalho apresentado em Dragonstone e diversos outros capítulos da série da HBO.

Stormborn justifica seu título logo em sua primeira sequência, com Daenerys conversando sobre as circunstâncias de seu nascimento, seu passado, o de sua família e seu futuro. O embate verbal entre ela e Varys vem com uma valorização do personagem, que há tempos não ganhava seu merecido destaque – Bryan Cogman, que assina o roteiro, cria o nítido vínculo com as temporadas iniciais da série, inserindo Viserys, Robert Baratheon e as prévias alianças de Varys no contexto, resgatando, portanto, não somente a nostalgia do espectador, como a sensação de que, realmente, acompanhamos os diversos passos de uma longa jornada e não somente um olhar sobre uma superfície fragmentada, que compõe toda a história de Westeros.

Evidente que essa cena também nos proporciona com uma atmosfera consideravelmente mais tensa do que a do episódio de estreia, nos lembrando de não nos acostumarmos com os “felizes” acontecimentos vistos recentemente (Arya acabando com os Frey, Sansa e Jon de volta em Winterfell, etc). Ao mesmo tempo, Cogman brinca com nossas expectativas, preparando o terreno para o esperado encontro entre Snow e a Targaryen, utilizando Melisandre e, mais uma vez, eventos do passado (as interações entre Tyrion e Jon na primeira temporada), para justificar tal evento. É seguro dizer, portanto, que, tanto esse arco quanto o de Jon, estabelecem uma narrativa bastante linear e intuitiva, com um fato levando ao outro, sem grandes devaneios ou enrolações, além de vincular, claro, os trechos de Sam na Cidadela à trama geral, não permitindo que esse lado da história soe como algo “extra” dentro do contexto geral da temporada.

Entramos, então, no primeiro dos problemas do capítulo, que evidenciam os já mencionados deslizes na construção das elipses. O corvo enviado por Tyrion chega imediatamente a Winterfell, o que não seria um grande problema, se Tarly não tivesse enviado outro, que ainda não chegara a seu destino, no episódio anterior. Evidente que qualquer um com o mínimo de senso comum irá entender que os focos apresentados não necessariamente acontecem na ordem na qual são exibidos, mas isso gera um incômodo que seria facilmente resolvido pelo próprio roteiro – bastaria trocar a ordem de recebimento das cartas e pronto.

Claro que tudo foi feito dessa forma para gerar suspense acerca da viagem de Jon para Dragonstone, mas o clímax desse dilema funcionaria perfeitamente sem essa inversão cronológica, já que a maior fonte de tensão são os questionamentos de Sansa em relação à decisão de Snow, o que cria um vínculo imediato com a primeira temporada, com Catelyn se opondo à ideia de Ned ir até King’s Landing. Esperamos que o resultado final não seja o mesmo, afinal, como bem aponta um dos seguidores do Rei do Norte, os Stark não tem uma boa história quando se trata de suas viagens para o Sul.

E já falando nessa nova jornada de Snow, naturalmente que ela coincidiria com a decisão de Arya em retornar a Winterfell, postergando a grande reunião dos irmãos mais uma vez. É importante ressaltar, porém, que sem Jon ao seu lado, Sansa ficará “sozinha” com Littlefinger. Claro que a personagem mais do que provou que sabe se virar por conta própria, mas pode ser que o seu arco se entrelace com o de Arya nesse ponto, com a irmã mais nova tendo de assassinar o lorde Baelish – mera suposição, claro, mas que funcionaria para fortalecer os laços entre as duas de uma maneira mais ágil, dispensando uma possível guerra entre as tropas do Rei do Norte e de Petyr, algo que poderia dilatar o enredo geral da temporada, considerando que há muitos conflitos já anunciados.

Ainda em Arya, vale notar mais uma referência à primeira temporada da série, primeiro de maneira mais óbvia, com o retorno de Nymeria, segundo com a fala da Stark “that’s not you”, que estabelece o paralelo com o diálogo entre a menina e Ned no primeiro ano, no qual o pai diz que ela irá se casar e viver como uma dama (ou algo assim), para o qual ela responde “that’s not me”. Um simples detalhe no roteiro, mas que evidencia a evolução da personagem desde então, tendo adquirido mais maturidade. Aliás, toda essa jornada de volta para casa representa isso, como pudemos ver no encontro entre ela e Hot Pie, que comenta sobre ele não ter percebido que ela era uma garota anteriormente – em outras palavras, Arya agora é uma mulher, não mais aquela jovem garota que escapara de King’s Landing.

Chegamos, então, à solidificação dos dois grandes antagonistas da temporada. Primeiro Cersei, mostrando que não irá se sujeitar aos dragões de Daenerys, em uma sequência bastante simples, mas que se aproveita da história desse universo e, claro, da pouca iluminação, para nos dar um certo frio na espinha. Há de se notar a diferença nas disposições de ambas as rainhas – uma se prepara para a guerra na capital e a outra se recusa a atacar diretamente King’s Landing, à recomendação de Tyrion, claro. Evidente que a Lannister não irá ser derrotada sem uma boa luta, mas a mera sugestão da Targaryen perder um de seus dragões nos remete, imediatamente, à ameaça vinda do Norte da Muralha, isso sem falar no impacto que tal morte poderá causar na Filha da Tormenta. Pouco a pouco, o cenário dessa guerra vai sendo estruturado, similarmente ao que vimos na segunda temporada, estratégia que possibilitou Blackwater ser um dos melhores episódios da série.

Claro, que se de um lado temos uma antagonista estrategista e maquiavélica, do outro temos o retrato da maldade mais bruta, algo que já fora bem representado por Joffrey e Ramsay Bolton nos anos anteriores. Euron Greyjoy, ao descer no navio de seus inimigos traz uma mistura de Stannis Baratheon (se recordarem ele foi o primeiro a subir nas escadas pelo muro de King’s Landing na segunda temporada) e o bastardo Bolton com sua crueldade. Ele verdadeiramente se diverte enquanto ataca a frota incauta enviada por Daenerys , com os tons de vermelho da imagem claramente criando um paralelo entre ele e o demônio. Aliás, toda a sequência é perfeitamente construída, misturando o caos com a desolação, intercalando as gritarias da batalha com breves momentos de silêncio. O som desempenha um papel crucial aqui, se apresentando mais direcional, ampliando os efeitos sonoros de cada pessoa morrendo em tela. O espaço sonoro acompanha a imagem, mudando de foco constantemente, contribuindo para que não tenhamos completa noção do que acontece em volta dos personagens mostrados, aumentando nossa tensão, visto que não sabemos exatamente quem irá ganhar.

 A direção de Mark Mylod, que, durante todo o episódio, optara por planos curtos e estáticos combina perfeitamente com esse trecho, dividindo a batalha em fragmentos, cada um com uma pequena história a ser contada – afinal, essa luta representa algo completamente diferente para os Greyjoy e para as guerreiras de Dorne. A rápida sucessão de cortes aumenta nossa confusão, além de tornar tudo mais visceral, tirando qualquer encantamento fantasioso da guerra, tornando-a o que ela realmente é: pura violência. Essa visceralidade, claro, explica a ação de Theon, traumatizado pelo que passara nas mãos de Ramsay, mostrado claramente pelos planos os quais o mostram aterrorizado pelos horrores à sua volta.

P.J. Dillon, na fotografia, mostra que sabe trabalhar com tomadas noturnas, não deixando a imagem tão escura, se apoiando, claro, nos flashes vermelhos das explosões, que muito bem caracterizam esse conflito marítimo, tornando-o um dos mais memoráveis da série. Dillon, em suas imagens, estabelece a plena concepção de tragédia, não somente pelas mortes de personagens relevantes, como pelos planos de Daenerys, que vão por água abaixo. É criado, também, um desconfortável paralelo com o fogo dos dragões da Targaryen, mostrando que tais criaturas podem não ser um trunfo tão grande assim, abrindo o diálogo, claro, com o trecho focado em Cersei, mostrado anteriormente.

Tim Porter, por sua vez, na montagem, sabe perfeitamente quando intercalar os diversos focos, não só nessa sequência final, como durante todo o episódio. Veterano de Game of Thrones, responsável por Hardhome, Battle of the Bastards, The Winds of Winter, dentre outros magistrais episódios do seriado, ele une as cenas de forma orgânica, aproveitando uma fala ou ação de personagem para encadear com outro dos enfoques da série. Um perfeito exemplo disso é a brincadeira com Sam tentando curar Jorah, com o pus se transformando em sopa – o que, claro, continua o humor negro estabelecido nas cenas de Tarly em Dragonstone. É importante notar como Porter minimiza a fragmentação narrativa tão comum em Game of Thrones, realizando transições intuitivas, as quais efetivamente fazem sentido: Daenerys estão falando sobre Jon, pulamos para Jon na sequência posterior e por aí vai, mantendo uma nítida fluidez na progressão do capítulo.

Dito isso, Stormborn nos mostra com clareza que, quando todos os aspectos técnicos de uma obra atuam de maneira orgânica, cada uma complementando a outra, o resultado não pode ser menos que excelente. Sim, o problema em relação às elipses da série continua, mas esse é um detalhe menor quando observamos o cenário geral do capítulo, que, enfim, nos lembra o porquê de Game of Thrones ser um seriado tão cultuado nos dias atuais. Com ritmo acelerado na medida certa, um roteiro que dispensa focos desnecessários, montagem intuitiva, direção precisa, que constrói a tensão através de planos, em geral, estáticos e um belo trabalho fotográfico, Stormborn nos satisfaz com uma obra bem estabelecida por si só, não dependendo exclusivamente de cliffhangers e do cenário geral para justificar sua relevância.

Game of Thrones – 7X02: Stormborn — EUA, 24 de julho de 2017
Showrunner:
 David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Mark Mylod
Roteiro: Bryan Cogman
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Aidan Gillen, Liam Cunningham, Sophie Turner, Maisie Williams, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, Conleth Hill,  John Bradley, Isaac Hempstead Wright, Hannah Murray, Kristofer Hivju, Rory McCann, Iain Glen, Jim Broadbent, Pilou Asbæk, David Bradley, Anton Lesser, Richard Dormer,  Paul Kaye, Jacob Anderson, Ellie Kendrick
Duração: 59 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.