Crítica | Game of Thrones – 7X06: Beyond the Wall

estrelas 2,5

– Contém spoilers do episódio. Acessem, aqui, todo o nosso material de Game of Thrones.

Eastwatch, episódio anterior de Game of Thrones, preparou o terreno para mais um explosivo clímax de temporada – que, como de costume, ocorre no penúltimo capítulo da temporada – mesmo introduzindo o plano mais estúpido da série até agora. Eis que, enfim, o dream team de Westeros formado por Jon, Jorah, Tormund, Beric, Thoros, Sandor e Gendry, acompanhados por algumas buchas de canhão, partem à procura de um morto-vivo para levarem de volta à King’s Landing.

O princípio de Beyond the Wall conta com uma veia mais cômica, perfeita para distanciar do tom mais pesado que se faria presente mais tarde. Alan Taylor, que assina a direção, faz uso de estabilishing shots que nos mostram a jornada dos treze guerreiros, dando a ideia de passagem de tempo, não deixando exatamente claro o quanto eles percorrem (mas dando a impressão que foi um bocado). Tais planos intercalam com outros mais fechados, nos trazendo diálogos entre diferentes grupos, alguns dos quais merecem destaque, como Jon oferecendo a espada à Jorah, que a recusa, demonstrando aproximação dos dois. Outro que deve ser citado é Tormund falando sobre Mance, acautelando Jon para não cometer o mesmo erro de fazer outros sofrerem por orgulho, o que dialoga com o desfecho do episódio. Por fim, temos Beric comentando sobre Jon não se parecer com Ned, deixando claro, mais uma vez, que ele não é filho do Stark. Além disso, nessa jornada, é importante notar que a montanha em formato de flecha é o mesmo local onde o Rei da Noite foi criado, conforme vimos na visão de Bran.

A tranquilidade, então, é quebrada pelo ataque do urso polar, cuja evidente função narrativa é a de mostrar o caminho (através das pegadas) até os mortos e, claro, matar Thoros, acabando, portanto, com a chance de qualquer um ali ser revivido. Assim, surge o primeiro notável problema do capítulo. Quando o urso atacou estavam com o grupo completo de treze. Ele golpeou alguns, matando um ou dois (dependendo da crueldade do roteirista). Quando ele atacou diretamente Thoros, permaneceu sobre ele por um bom tempo e, durante certo período, não há nem sinal dos outros, gerando, em nós, certo estranhamento, que afeta nossa imersão e nos faz enxergar a morte de Thoros como algo artificial por parte do texto.

Os problemas continuam quando o grupo, enfim, encontra os mortos, convenientemente andando separados do restante do exército, algo que, contudo, podemos relevar como batedores ou algo assim. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre o fato de alguns dos “zumbis” morrerem quando o white walker é destruído, questão que jamais fora sequer citada anteriormente, nem mesmo quando Jon acabou com um dos whites em Hardhome. Isso faz tal ponto soar como algo pensado posteriormente pelos showrunners e, por ser de extrema relevância, não há como deixarmos de lado. O escorregão ainda se agrava quando, para surpresa de todos, resta apenas um morto-vivo. Ora, que coincidência, não? Aparentemente os deuses – ou o Senhor da Luz – realmente existem na série e todos estão zelando por aquele grupo. Temos, portanto, o primeiro deus ex machina do episódio (isso se desconsiderarmos a inação do grupo durante a tragédia de Thoros).

A participação de Gendry, então, é limitada e colocam o rapaz para correr e, de fato, ele claramente é o mais rápido do grupo – algo que descobrem sabe-se lá como, visto que todos estavam andando juntos – já que chega na Muralha em menos de um dia (está de noite quando é encontrado por Davos). Tudo isso enquanto o texto tenta passar a ideia de passagem de tempo, alternando para o grupo preso no meio do lago. Não muito mais que um, dois ou até três dias poderiam ter passado, afinal, sobreviver ali no aberto, no meio do Norte da Muralha, cercados por gelo e neve, não seria algo possível por muito tempo – não sem uma fogueira e, como é mostrado no episódio, Beric só acende sua espada para queimar o corpo de Thoros.

Esse ponto, evidentemente, entra em conflito com o tempo necessário para Gendry chegar à Muralha, mandar um corvo para Daenerys e ela, por sua vez, ir até o Norte e salvar todos. Podemos colocar aí, no mínimo, uns três dias, possivelmente quatro, já que a velocidade máxima que um corvo pode atingir é a de 50-55 km/h e, sim, fizeram a conta de quanto tempo levaria para um corvo chegar até Dragonstone, baseando a distância na extensão, já revelada em algum ponto do livro, da Muralha. Tudo isso deixa claro que, na série, o corvo viaja na mesma velocidade que Gandalf, nunca chegando adiantado ou atrasado, mas precisamente quando ele bem entende. Mais um deus ex machina, mas serei “bonzinho” e juntarei esse com a chegada da Targaryen e seus dragões, queimando tudo pela frente.

Jamais diremos, contudo, que David Benioff e D.B. Weiss são injustos, já que o roteiro da dupla garante, também, poderes extras aos vilões, vide a lança super-poderosa do Rei da Noite, sua mira impecável (exceto quando está prestes a matar metade dos personagens relevantes da série) e, claro, sua super-força, que nos faz crer que a lança conta com propulsão a jato. Além disso, os showrunners/roteiristas evidenciam o orgulho do antagonista, que prefere acertar o dragão que está voando, longe, ao invés daquele que está pousado e mais perto. Além disso, é preciso notar como os poderes do Rei da Noite entraram em cooldown, já que ele consegue errar a segunda lança direcionada à criatura maiormais perto e ainda alçando voo, fazendo dessa a terceira vez que o roteiro, inexplicavelmente, salva os personagens centrais. Bem que Ned Stark gostaria dessa ajudinha lá atrás.

Tudo isso, claro, inclusive a missão suicida como um todo (agora mais estúpida do que nunca) funciona apenas para que o vilão ganhe o seu próprio dragão, como vemos no fim do capítulo, com os mortos puxando a criatura com enormes correntes, que surgiram do nada. Mas surgimentos e desaparecimentos não são novidade nesse capítulo, já que o terceiro dragão de Daenerys sumiu sem deixar traços logo após Viseryon ter sido atingido pelo míssil.

Ainda no norte da Muralha, Jon, que se deixara levar pela batalha, cai na água e somente sai dela quando todo o seu grupo vai embora, sendo salvo, mais uma vez, pelo deus ex machina na forma de seu tio Benjen, que surge do além, apenas para morrer logo em seguida, fazendo de sua participação pós-primeira temporada da série como um mero artifício narrativo com o objetivo de salvar personagens, vide Bran, que fora resgatado anteriormente. A maior surpresa e a mais poderosa armadura de roteiro, porém, é a vestida por Jon em sua jornada de volta, salvando-o da inevitável hipotermia. Toda essa tentativa de provocar tensão no espectador, obviamente, foi inserida no intuito de justificar o clima entre a Targaryen e seu sobrinho no final do capítulo, questão já levantada por Tyrion nesse mesmo episódio. Ao menos todo o drama do joelho se encerrou.

E quanto ao restante do episódio? As sequências envolvendo Sansa, Arya e Tyrion foram claramente utilizadas a fim de tentar transmitir alguma passagem de tempo e a montagem falha miseravelmente nessa tentativa a partir da metade da exibição. Felizmente, os problemas existentes no núcleo ao norte da Muralha não aparecem nos outros focos, que apresentam informações relevantes para a série como um todo.

Comecemos pelo conflito entre Arya e Sansa, evidentemente arquitetado por Littlefinger. Seus planos continuam a tomar forma, especialmente agora que ele arranjou uma forma de se livrar de Brienne, isolando mais ainda Lady Stark. Provavelmente tal embate entre as duas não durará muito, mas, ao menos, é uma forma de valorizar um dos melhores personagens da série (o próprio Baelish), que continua tão inteligente quanto sempre fora, ao contrário de certos personagens.

Já a presença de Tyrion, mais curta, garante a ele necessários diálogos, levantando a questão da sucessão de Daenerys, já que ela não pode ter filhos. Novamente a rainha demonstra-se imatura, mas, mesmo na discussão, fica difícil não enxergar a lealdade do Lannister à sua rainha, algo evidenciado pela atuação de Dinklage, que transmite perfeitamente suas emoções no olhar, especialmente quando implora para que ela não voe até o norte.

Essas questões, infelizmente, acabam sendo totalmente apagadas pelos muitos desastres narrativos desse episódio. Beyond the Wall começa muito bem, mas vai rapidamente desandando após a metade, apoiando-se ridiculamente em uma sucessão de deus ex machina, que, curiosamente, beneficiam os dois lados do conflito, já que o Rei da Noite sequer é ameaçado por qualquer um dos dragões. O plano mais estúpido de Westeros, por fim, acaba rendendo um capítulo extremamente irregular, que somente nos faz sentir saudades do Game of Thrones de outrora.

Game of Thrones – 7X06: Beyond the Wall — EUA, 20 de agosto de 2017
Showrunner:
 David Benioff, D.B. Weiss
Direção: Alan Taylor
Roteiro: David Benioff, D.B. Weiss
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Aidan Gillen, Liam Cunningham, Sophie Turner, Maisie Williams, Nathalie Emmanuel, Gwendoline Christie, Conleth Hill,  John Bradley, Isaac Hempstead Wright, Hannah Murray, Kristofer Hivju, Rory McCann, Iain Glen, Jim Broadbent, Pilou Asbæk, David Bradley, Anton Lesser, Richard Dormer,  Paul Kaye, Jacob Anderson, Ellie Kendrick
Duração: 70 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.