Crítica | Gangues de Nova York

Que Martin Scorsese é um dos diretores mais talentosos da história do cinema norte-americano não há quem questione. O cineasta nova-iorquino cresceu no bairro de Little Italy, onde teve contato com vários dos arquétipos que ele mais tarde tornaria personagens de seus filmes. Pequenos criminosos de rua, mafiosos poderosos e toda sorte de homens e mulheres marginais e desequilibrados são frequentes em sua filmografia. Um boxeador instável e decadente protagonizou o extraordinário Touro Indomável (que contem uma das melhores cenas da história do cinema, quando Jake LaMotta conversa sozinho na escuridão de uma cela). A incomensurável violência da máfia foi mote de um dos melhores filmes já feitos no gênero – Os Bons Companheiros. Recentemente, mais uma história excêntrica sobre um gatuno de contornos insólitos chegou às telas com O Lobo de Wall Street.

Scorsese demonstra uma habilidade fora do comum em construir esses personagens e é raro encontrar exemplos em que ele tenha de fato fracassado tanto na concepção como no acabamento deles. Mais um ótimo exemplo disso é aquela que ele idealizou como a sua mais importante obra – Gangues de Nova York, lançada no ano de 2002 após uma longa discussão com o estúdio Miramax acerca da duração do filme. O diretor queria quase 4 horas de projeção, enquanto o estúdio tentava convencê-lo a editar a fita para um tempo de cerca de 2 horas e meia. Venceu a Miramax, lançando a obra com 167 minutos totais.

O enredo do filme não contem em si nada de extraordinário. Nova York encontra-se dominada pelo crime em meados do século XIX. Grupelhos de larápios e contraventores surgem por toda parte e os confrontos de rua tornam-se cada vez mais frequentes. Na abertura, o grupo do Pastor Vallon (Liam Neeson) tem um sangrento entrevero com seus rivais, comandados por um dos vilões mais pavorosos de Scorsese – o crudelíssimo Bill, o Carniceiro (Daniel Day-Lewis). O resultado é a morte do primeiro líder, presenciada pelo filho Amsterdam (Leonardo DiCaprio), que jura vingança por toda a vida. Mais tarde, o personagem de DiCaprio se integra ao grupo de Bill para se aproximar do homem que assassinou seu pai e acaba também se apaixonando por Jenny (Cameron Diaz), uma ladra que usa de sua sensualidade para surrupiar objetos de valor dos homens que atrai. Assim se fecha o quarteto que dará origem aos arcos dramáticos. Apesar de o Pastor Vallon aparecer brevemente na obra (na realidade, fisicamente ele está apenas na abertura), a sua importância se torna ressonante na figura do filho.

Gangues de Nova York é um épico sobre a formação de uma sociedade e uma nação. Mas não se deve perder de vista que é um épico de Scorsese e, portanto, não há lugar no filme para bom-mocismos. É melhor não esperar personagens de grande retidão moral ou alma pura e bondosa. Todos, em maior ou menor grau, carregam o mal dentro de si e o expressam de modo inquestionável, seja por meio de pequenos roubos, da subsistência dos sentimentos mais vis ou de assassinatos explícitos e sangrentos. E sangue é o que não falta durante toda a projeção. Os embates são realizados com o máximo de crueza e senso de realidade e toda a violência exposta na grande tela soa perfeitamente consonante com a obra. Scorsese sempre consegue imprimir a selvageria e a brutalidade em seus filmes sem torná-la postiça ou aborrecidamente hiperestilizada (como insiste em fazer Quentin Tarantino, cineasta de que gosto bem pouco).

Ao mesmo tempo, o cineasta estadunidense adiciona grandiosidade em sua direção. A câmera realiza panorâmicas belíssimas para dar conta de toda a grandeza do cenário (extraordinário, por sinal) e os personagens principais são frequentemente apresentados em tilt, tornando-os complexos, dramáticos e estilosos. Há também diversos movimentos verticais, expressando toda a dimensão das intermináveis batalhas de rua. Não há violência banal no filme de Scorsese. Todo o sangue derramado faz parte da edificação do maior país do globo terrestre e o americano sabe perfeitamente aonde quer chegar com seu filme.

Cada personagem representa um vício e uma perversidade. Da personagem de Cameron Diaz, que seduz para furtar relógios, à autoridade judiciária que afirma que “é importante manter a aparência da lei, principalmente quando ela for infringida”, por toda parte há degenerescência e corrupção. Bill, o Carniceiro, representa um instinto que acompanha a história humana desde o primeiro encontro entre os homo sapiens e os neandertais – o de matar e destruir. A tolerância nunca foi um dos melhores predicados da espécie e o ponto final dessa ideia é o ato de assassinar em massa todos aqueles que obstruírem seu caminho. O protagonista é monstruosamente interpretado pelo grande Daniel Day-Lewis, que o compõe de um nível de maldade que faria inveja a qualquer personagem degradado de Dostoiévski.

Já Amsterdam Vallon vive sua vingança até as últimas consequências em um contexto em que leis valem muito pouco e vidas ainda menos. Seria possível que conflitos tão bárbaros se sucedessem por tanto tempo sem o combustível da vendetta? É uma pergunta bastante oportuna que o filme de Scorsese deixa para ser respondida. Eu me arrisco a fazê-lo. Ao vingar seu pai morto, Amsterdam não elimina o mal que destruiu sua própria família. Ele apenas o perpetua. Toda essa construção de personagens é representativa da própria história norte-americana – um país poderoso e de admirável competência, inclusive para produzir devastação dentro do próprio território e insuflar ódios inesgotáveis.

A história humana é habitualmente contada a partir de figuras heroicas, cujos bustos são eternizados em praças públicas e cujos rostos são impressos em moedas. Com a história norte-americana, não é diferente. As figuras que ganham destaque dentro da narrativa oficial corrente são aquelas que venceram batalhas, assinaram documentos oficiais (como acordos de paz ou a própria Declaração de Independência) ou libertaram os escravos negros de uma opressão abjeta. Gangues de Nova York, baseado no livro As Gangues de Nova York – Uma História Informal do Submundo, de Herbert Asburry, traz à baila algumas das páginas mais indesejadas da história estadunidense, da qual passam a fazer parte personagens pouco lembrados, mas que ajudaram a erguer o país mesmo que ceifando tantas vidas de seus próprios concidadãos. Talvez, exatamente por isso. Scorsese encontra espaço para, inclusive, inserir questões passageiras, mas contundentes, em seu longa-metragem. No meio de uma das batalhas, todos se unem para atacar um homem negro. Sim, a mensagem é clara – o ódio mútuo só pode ter trégua para dar origem a outro ainda maior.

Após apresentar uma obra muitíssimo bem acabada, tanto em termos de direção como de cenário e figurino, Scorsese entrega um final majestoso. Os túmulos de seus personagens vão esvanecendo na tela. Mas o filme termina com a certeza de que um país tão complexo, possante economicamente e cheio de contrastes e distúrbios intrínsecos não poderia mesmo ser obra apenas de atos benevolentes e misericordiosos. Os Estados Unidos da América não pertencem apenas a Benjamin Franklin, George Washington e Abraham Lincoln. Também de banditismo, escamoteação, litros de sangue derramado e milhões de mortos e feridos se fazem uma pátria e uma bandeira.

Gangues de Nova York (Gangs of New York) – EUA, 2002
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Martin Scorsese
Elenco: Henry Thomas, Brendan Gleeson, Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Michelle Díaz, Liam Neeson, Jim Broadbent, John C. Reilly
Duração: 167 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.