Crítica | Garota Exemplar

estrelas 4,5

Quando li, há bastante tempo, que a própria autora do romance Garota Exemplar escreveria o roteiro do filme para David Fincher dirigir, tremi nas bases. Afinal, em minha mente preconceituosa, imaginei que não só uma autora de obras literárias não teria o domínio sobre a arte de escrever roteiros, como ela estaria tão próxima de seu trabalho que não saberia transpor o essencial para uma nova mídia.

Engano meu. E que engano!

Gillian Flynn faz um trabalho próximo da perfeição, um filme completo, que vive independente da obra primígena (que, devo logo afirmar, não li) e que prende o espectador do começo ao fim. Claro que é o detalhismo visual de David Fincher que realiza a visão de Flynn, mas o trabalho da dupla é impressionante.

O primeiro aspecto que chama atenção é a narrativa bipartida. Vemos Ben Affleck vivendo Nick Dunne, um marido que, no dia das bodas de cinco anos de seu casamento, descobre que sua esposa desapareceu. Acompanhamos, então, no presente, a forma como ele lida com a situação, o que envolve sua irmã Margo (Carrie Coon) e a detetive Rhonda Boney (Kim Dickens), dentre outros. Intercalando esses momentos de dúvida, ações suspeitas e investigação policial, temos Amy Dunne, a esposa de Nick, vivida por Rosamund Pike, servindo de narradora em off, a partir de um diário, para diversas sequências em flashback, contando como o casal se conheceu e a vida de sonho que viviam até seu sumiço.

A costura entre as sequências, em mais um ótimo trabalho de montagem de Kirk Baxter (que trabalho com Fincher em O Curioso Caso de Benjamin Button, A Rede Social e Millennium), tem duas qualidades interessantes. A primeira delas é a brusquidão com que ocorrem, propositalmente interrompendo o fluxo temporal no presente para trazer informações do passado que são complementares. A outra qualidade é permitir a ligação de todos os eventos do primeiro e segundo terços do filme, levando, naturalmente, ao clímax. Não posso, claro, entrar em detalhes aqui, pois esse  filme é um daqueles que depende efetivamente de reviravoltas e da surpresa do público para funcionar em sua plenitude, mas basta dizer que a montagem de Baxter, a direção de Fincher e o roteiro de Flynn criam uma cadência quase que cientificamente exata ao filme, do primeiro ao último fotograma.

No recheio, há, como tem se tornado praxe nos trabalhos do diretor, uma fotografia impecável, novamente a cargo de Jeff Cronenweth (Millennium, A Rede Social e Clube da Luta). De certa forma, o trabalho de Cronenweth, aqui, lembra o de Harris Savides em Vidas em Jogo, com cores claras e aconchegantes para identificar o lar feliz dos Dunne que nunca chega verdadeiramente a nos cativar, nos avisando que há algo errado ali. Nas tomadas externas, há frieza, distanciamento, monocromia, só quebradas pelo circo midiático que se forma em torno do desaparecimento de Amy.

Aliás, um dos temas de Garota Exemplar é justamente esse: a oposição do jornalismo ao sensacionalismo. A necessidade dos jornais e TVs de explorarem todo e qualquer fato e de montarem uma estrutura condenatória a qualquer custo, com base em qualquer “prova”. Mas esses sedentos jornalistas são, da mesma forma e também conscientemente, manipulados pelos próprios acusados, especialmente quando o advogado Tanner Bolt (Tyler Perry) entra na história. Há sempre dois lados.

Outro comentário que perpassa toda a projeção pode ser ilustrado por intermédio de perguntas. O que exatamente é um relacionamento como o casamento? Que preço cada um paga para uma vida a dois? Será que uma parte tem que se submeter à outra para que uma vida em harmonia seja possível? O filme não tem a pretensão de responder as perguntas, mas sim fazê-las e nos deixar pensando sobre elas, mesmo depois que os créditos finais sobem na tela e que saímos da sala escura provavelmente com nossa cara-metade ao lado.

Mas Garota Exemplar não seria o que é não fosse Ben Affleck e Rosamund Pike. Affleck, que venho dizendo há muito tempo que é um grande ator, tem sua melhor performance até agora. Se seu trabalho cheio de nuances aqui não for recebido de braços abertos por parte do público que ainda esnoba o ator, não sei mais o que ele pode fazer para convencer. Seu Nick Dunne é um homem que, por mais que achemos que ele tem algum envolvimento com o desaparecimento da esposa, não conseguimos deixar de gostar dele, de nos identificarmos com ele. Essa relação com a plateia é extremamente importante para que a narrativa se desenvolva e, em última análise, funcione.

Do lado de lá, temos Rosamund Pike, nunca antes uma atriz de particular destaque, mas que nos convence em todos os momentos. Ela é a garota perfeita a que somos apresentados por ela mesmo por intermédio da narrativa em off e flashbacks e aos poucos vamos descortinando seu passado de “garota exemplar” e entendendo sua relação com o marido. Não consigo imaginar Reese Whiterspoon nesse papel – ela é produtora e adquirira os direitos da obra para ela própria estrelar no filme, somente para ser convencida do contrário por Fincher – por nunca ter visto latitude suficiente na atriz, mas diria o mesmo de Pike, pelo que o julgamento é difícil. Parece-me que, mais uma vez, a direção de atores de Fincher foi fundamental para extrair deles a harmonia que vemos na tela.

Se existe um problema na estrutura dessa obra, ele está no momento de entrada do personagem de Neil Patrick Harris e o desenvolvimento de seu papel no terço final. Sua presença na vida do casal é mencionada logo no início e nós também o vemos organicamente na narrativa mais para a frente. Mas sua entrada efetiva parece um pouco corrida demais, com informações demais que acabam subaproveitadas, levadas à cabo muito instantaneamente, sem que ao espectador seja dada a chance de efetivamente absorver o que acontece e acreditar naquilo. Não chega a ser a quebra do realismo que vemos em Vidas em Jogo, mas não deixa de incomodar, de parecer que, por alguns minutos, a cadência que tanto elogiei mais acima, foi quebrada.

De certa forma, porém, o rigor técnico de Garota Exemplar e as grandes atuações da dupla principal nos fazem aceitar as sequências com Harris como apenas um pequeno problema que era importante para o fechamento da trama. Nada que realmente afete o prazer de assistir o 10º filme de David Fincher.

Garota Exemplar (Gone Girl, EUA – 2014)
Direção: David Fincher
Roteiro: Gillian Flynn (baseado em romance de Gillian Flynn)
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon, Kim Dickens, Patrick Fugit, David Clennon, Lisa Banes, Missi Pyle, Emily Ratajkowski, Casey Wilson
Duração: 149 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.