Crítica | Garota Interrompida

Um filme que navega em águas profundas, sem ter medo de trazer leveza para uma zona tão abissal. Talvez esta seja uma das principais características de Garota Interrompida, drama dirigido por James Mangold, baseado no livro autobiográfico homônimo de Susanna Kaysen. Com roteiro assinado pelo cineasta, numa parceria com Anna Hamilton Phelan, a narrativa aborda questões ligadas aos transtornos psicológicos de seus personagens, sem necessariamente as apresentarem como seres decrépitos, tal como acontece em muitos filmes deste estilo.

Como protagonista temos Susanna (Winona Ryder), uma jovem que precisa se machucar de alguma maneira, tendo em vista matar a dor e o sofrimento interno. Após uma overdose de comprimidos e vodca, ela é internada num hospital psiquiátrico. Quando chega ao local, logo faz amizade com a sociopata Lisa (Angelina Jolie). Manipuladora, mas atraente por conta dos seus jogos psicológicos, Lisa exerce uma enorme força catalisadora no local, sempre sob a supervisão da enfermeira Valerie (Whoopi Goldberg), personagem que constantemente contém os comportamentos em fluxo contínuo de mudança.

Vai ser assim que Susanna, inicialmente introspectiva, passa a conhecer melhor outras internas, estreita vínculos de amizade e dá novo significado à sua trajetória. Entre as suas novas amigas temos Polly (Elisabeth Moss), uma jovem que sofreu queimaduras e vive em conflito por conta da aparência; Georgina (Clea DuVall), e seus problemas anoréxicos, a mantém encapsulada por bastante tempo no hospital; Daisy (Britanny Murphy), moça que sofreu abusos paternos durante toda a sua vida e por conta de alguns conflitos com Lisa, encontrará um destino trágico para a sua trajetória. Ainda há outras garotas que são menos presentes que este trio de coadjuvantes, mas que para o desenvolvimento da história, possuem função dramatúrgica importante.

Com constantes ataques de autodestruição e sensação de profunda melancolia, Susanna frequentemente tem os seus ataques de fúria. Age com sarcasmo e o seu relatório diz que possui comportamentos sexuais promíscuos. Sempre questionadora, a personagem apresenta as suas necessidades dramáticas e conflitos por meio de muitos monólogos, diálogos que comprovam a sua sobrevivência sempre no “limite” das emoções. Diante das incertezas do futuro, as pressões profissionais e a sua dificuldade de se relacionar, Susanna é fruto de uma existência que sofre por falta da capacidade de compreensão por parte das pessoas em seu entorno. Desta forma, a personagem é um ser que delineia com precisão os jovens de muitas gerações, mas há um “quê” da juventude dos anos 1960, bombardeada pelos sacolejos culturais da época.

Entre as discussões, há a banalização dos problemas psicológicos, algo que consequentemente traz uma excelente discussão sobre o processo de relacionamento entre pacientes e médicos, sendo os primeiros, muitas vezes, vítimas da medicação errônea. Muitos profissionais de saúde, como sabemos, preferem aplicar medicação para apagar estes pacientes, ou deixa-los em estado letárgico, ao invés de buscar estratégias que tornem a existência destas pessoas, algo menos agonizante, isto é, permitir que os pacientes evoluam com o remédio, não torna-las dependentes.

Estas questões também dialogam com o abandono da família. Em certo momento, Susanna percebe que a sua ida ao hospital psiquiátrico não é apenas uma escolha da família em torno da sua sobrevivência. Susanna, tal como várias pessoas com transtornos psicológicos que trafegam pelo mundo afora encontrou, na família, um espaço de incompreensão profunda. Eles preferem afastá-la, pois lidar com o problema é mais complicado que pagar por sua internação.

Realizado no hospital psiquiátrico conhecido por atender celebridades dependentes nos anos 1960, Garota Interrompida foge do sofrimento, sem eletrochoques e sonoterapia. Não há tortura psicológica para deixar os espectadores mais sensibilizados, ao contrário, o filme aposta no lirismo da trilha sonora e nos elementos visuais para fazer com que mergulhemos nos anos 1960 e os sintamos por meio da imagem e do som.

Refletir sobre todos estes temas é trafegar por um campo minado. Por isso, a abordagem estilística e as escolhas narrativas do filme abriram esta reflexão por um motivo. Em 1999, quando lançado, houve um intenso debate, realizado por alguns críticos e espectadores. Era época de democratização da esfera virtual pública e as pessoas nesta época, diferente das cartas ao leitor das revistas impressas e dos jornais, espaços que eram mais seletivos, tinha a possibilidade de entrar em contato com o crítico e se possível, iniciar um debate que mantinha a obra em evidência. Alguns eram pertinentes, outros são apenas comentários vagos e sem força reflexiva alguma. Mas uma discussão ganhou bastante evidência. Alguns espectadores, dentre eles, especialistas da área, criticaram o posicionamento do crítico e cineasta Carlos Gerbase acerca dos questionamentos referentes ao conteúdo do drama, tratado, segundo as afirmações dos espectadores em debate, com muita leveza e sem a seriedade necessária para este tipo de história.

Creio que seja tarde, mas após quase vinte anos do profícuo debate, exponho o meu ponto de vista, mesmo que atrasado. Garota Interrompida é ficção, por isso, o tratamento denso das questões não precisa necessariamente de um design de produção carregado de espaços escuros e objetos com simbologia expressionista/surrealista, tampouco uma trilha sonora sufocante. Aposto que o interessante do filme é não buscar trafegar na mão dos estereótipos, algo que seria muito comum e mais óbvio. Escolher a atmosfera clean e apostar na construção dos diálogos com certeza foi uma estratégia mais eficaz, numa possibilidade de exposição de um tema complexo sem necessariamente tornar a narrativa hermética.  Lúdico, lírico e delicado, a produção é um presente para os apaixonados por discussões sobre problemas familiares, liberdade e seus desdobramentos.

Garota Interrompida — (Girl, Interrupted) Estados Unidos, 1999.
Direção: James Mangold
Roteiro: Anna Hamilton Phelan, James Mangold, Lisa Loomer
Elenco: Angelina Jolie, Brittany Murphy, Jared Leto, Misha Collins, Vanessa Redgrave, Whoopi Goldberg, Winona Ryder
Duração: 127 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.