Crítica | Garota Negra / A Negra De…

Garota Negra_A Negra De...

estrelas 4

O título original deste terceiro filme de Ousmane Sembène é  La noire de… As reticências após a preposição ficam por conta do espectador e foram postas aí como discussão inicial para o filme, afinal, a negra é de… algum lugar ou de… alguém?

Baseado em um conto do próprio Sembène, que por sua vez baseou-se em um fato real, Garota Negra / A Negra De… é um filme de contrastes estéticos e ironias semânticas. A dualidade preto/branco é marcada estruturalmente pela escolha de não filmar em cores e a fotografia de Christian Lacoste explora o máximo possível essa paleta bicolor para ajudar a contar a história de uma jovem senegalesa que é contratada por um casal de franceses que, em um primeiro momento, a tratam muitíssimo bem, presenteiam-lhe com coisas usadas e dão a ela a sensação de que o paraíso das oportunidades a espera em Antibes, na Provença-Alpes-Costa Azul, onde o casal reside.

Deixando sua família em Dacar, Senegal, Diouana segue para a França. Sua intenção é trabalhar e conseguir melhores condições para sua família, mas após alguns dias em seu novo lar ela percebe que o bom tratamento e as promessas feitas a ela ainda no Senegal não eram verdadeiras. O espectador é convidado, a partir desse momento, a ver os sinais do colonialismo francês disfarçado de relações sociais. Alguns espectadores até fazem uma leitura ligada ao trabalho feminino ou à dominação sobre a mulher, mas se olharmos para o todo da obra, fica claro que, se há este lado, ele é o menos importante para Sembène. O destaque está mais nas relações de classe — lembremos que a educação cinematográfica do diretor se deu na Gorki Film Studio, na União Soviética, e o discurso socialista quase sempre atraiu artistas africanos de sua época, apesar da suposta política de “não alinhamento” que tanto se pregava naqueles tempos — e na protagonista como indivíduo, como ser humano, como representação de um povo inteiro.

As relações de trabalho, poder e preconceitos dos mais diversos tipos (“posso te beijar? Eu nunca beijei uma negra” ou “ela só entende, mas não fala [francês]? É como os animais, então!) são postas no alto das discussões e através da dualidade de cores e da claustrofobia do cenário, muito bem explorado pelo diretor, vemos Diouana definhar, começando pelo desligamento de suas raízes, depois pela frustração do que esperava ter naquela terra estrangeira, depois pelo sentimento de ódio por ser mal tratada. Um espectador do século XXI pode achar estranho o trabalho do roteiro nesse aspecto, porque “todos os trabalhadores são maltratados por seus patrões” mas, embora haja alguma verdade nessa frase (ela peca na generalização), não há aí a realidade do que este filme representa. A questão não é exatamente os maus tratos, mas a desfaçatez inicial, como parte de uma “conquista da presa” para que depois a exploração “do caçador” venha. Diouana não foi contratada para ser faxineira, cozinheira, lavadeira. Ela foi contratada para cuidar das crianças. Mas onde estão as crianças? Conseguem perceber a bomba que o filme nos levanta de maneira quase despercebida, de tão natural?

Os conceitos relacionados ao colonialismo podem ser visto de várias formas no decorrer do filme, sempre mostrado sob a dualidade preto/branco e com o conflito de valores, onde pululam as ambiguidades, o que ajuda-nos a suportar as atuações pouco louváveis da dupla Anne-Marie Jelinek (Madame) e Robert Fontaine (Monsieur). A obra ainda tropeça na edição e mixagem de som, e também na montagem, especialmente no miolo, mas o desfecho surpreendente nos faz esquecer os erros. Aliás, a forma que quase clama uma maldição para o patrão de Diouana, através da máscara com que o garotinho o persegue, é extremamente propícia àquele momento e nos deixa a dúvida: há algo parecido com culpa, medo ou vergonha por parte de alguma metrópole após ver esgotadas todas as riquezas de suas colônias?

Garota Negra / A Negra De… (La noire de…) — França, Senegal, 1966
Direção: Ousmane Sembène
Roteiro: Ousmane Sembène
Elenco: Mbissine Thérèse Diop, Anne-Marie Jelinek, Robert Fontaine, Momar Nar Sene, Ibrahima Boy, Bernard Delbard, Nicole Donati, Raymond Lemeri, Suzanne Lemeri
Duração: 65 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.