Crítica | Gavião Arqueiro, Vol. 1 – My Life as a Weapon

estrelas 4,5

Como pode algo como a mais recente publicação solo do Gavião Arqueiro sair de uma editora mainstream como a Marvel? Como pode um autor ter esse grau de liberdade com um personagem tão clássico?

Essas são apenas duas perguntas que pularam na minha cabeça quando acabei de ler essa obra-prima na Nona Arte. Matt Fraction, David Aja e Matt Hollingsworth fizeram quadrinhos como se estivessem escrevendo uma obra autoral para uma editora indie. Mas não, esse é o mesmo Gavião Arqueiro que estamos acostumados, dentro da continuidade do semi-reboot Marvel NOW!, sem concessões. E, dessa forma, esse título se torna facilmente o melhor desse novo projeto da Marvel, além de ser, de quebra, uma das melhores coisas publicadas desde agosto de 2012.

E o trabalho de Fraction parte de uma premissa muito simples: o que um Vingador sem poderes faz quando não está lutando ao lado dos Vingadores? Clint Barton é um homem normal, vivendo sua vida normal, pagando aluguel, fazendo churrasco no telhado de seu prédio com seus vizinhos e, claro, volta e meia se metendo em enrascadas inomináveis. Seu poder – se é que podemos chamar isso de poder – é ser uma arma viva, é saber manejar o arco como ninguém, mas o arco, como ele mesmo deixa muito claro em um dos brilhantes monólogos internos da série, é um graveto do paleolítico.

E, transformando o Gavião Arqueiro em um homem normal, Fraction faz ele viver aventuras de um homem normal. Se ele cai de um prédio em cima de um carro, ele se quebra todo e fica semanas no hospital. Se ele leva um soco, sangra e desmaia. E ele nem sempre tem um arco ao alcance e tem que agir até com abajures. Ah, e, como membro da raça humana, ele também tem sentimentos, ao ponto de arriscar sua vida por um cachorro ferido que o ajuda. São momentos como esse que faltam nas histórias de super-heróis. Momentos de vida normal, de descanso, de reflexão. Ninguém consegue, como Tony Stark, pular de armadura em armadura e ainda comandar um império multi-bilionário 24h por dia. Isso é ficção, o Gavião Arqueiro de Fraction é realidade. Bem, pelo menos a realidade possível.

Afinal de contas, o que não falta no trabalho de Fraction é ação. Não espere ver Clinton deitado em uma rede por páginas e mais páginas. Muito ao contrário, aliás. Cada uma das cinco edições que formam o Volume 1 desse impressionante trabalho começa com o herói em alguma situação impossível que é trabalhada em flashbacks logo em seguida.  Mas o que interessa na verdade são as reações do personagem, o que ele fala, como ele interage com o resto do mundo. Ele não está acima de ninguém, mas sim no meio de todo mundo. Ele é apenas mais um. Mais um que sabe brigar e usar o arco e todas as outras armas brancas de forma exímia, mas, mesmo assim, mais um.

Peguem, por exemplo, a primeira história. Seu grande inimigo é um russo que resolve legalmente triplicar o aluguel dos apartamentos do prédio onde vive. Legalmente é a palavra-chave. O que Barton pode fazer a não ser esfregar uma mala de dinheiro na cara do homem? Sair na pancadaria não deve resolver, não é mesmo? E são essas coisinhas mundanas que Fraction lida em boa parte de seu trabalho, escorregando apenas nos números 4 e 5, que contam uma só história sobre Barton tentando recuperar uma fita de vídeo em que ele aparece assassinando um ditador. O problema dessa história está justamente em arrancar o herói de sua vida “comum” e envolvê-lo explicitamente com o Universo Marvel padrão, com direito à Maria Hill, S.H.I.E.L.D., Capitão América, Madame Máscara, Wilson Fisk e outros elementos. A história é boa, não se enganem, mas não combina muito com o que vem antes.

No quesito arte, o trabalho de David Aja é fenomenal. Com seu traço minimalista, sem se preocupar muito com feições, ele trabalha no essencial e é um artista no uso de quadros e painéis. A proficiência no trabalho de movimento, com a repetição de quadros com pequenas diferenças entre eles e uma cascata de outros percorrendo toda a página é uma obra de arte à parte, algo para se ver e apreciar por longos minutos, pois é tão orgânico à narrativa que fica difícil imaginar como isso seria nas mãos de alguém menos hábil.

Finalmente, não há como não mencionar o trabalho de cores de Matt Hollingsworth. Trabalhando com preto-e-branco com toques das cores padrão do antigo e clássico uniforme do Gavião Arqueiro – basicamente tons de roxo e lilás, para quem não se lembra – ele brinca eficientemente com o passado do herói, ao mesmo tempo que transforma cada página em um quadro digno de se pendurar na parede.

O esforço conjunto que é Gavião Arqueiro, Vol. 1 não pode ser perdido por nenhum fã  de quadrinhos, mesmo por aqueles que não gostem de super-heróis. Agora é torcer para que outros heróis da editora ganhem, também, o tratamento indie.

Gavião Arqueiro, Vol. 1: My Life as a Weapon (Hawkeye # 1 a 5) 
Roteiro: Matt Fraction
Arte: David Aja
Cores: Matt Hollingsworth
Editora (nos EUA): Marvel (Agosto a Dezembro de 2012)
Editora (no Brasil): Panini Comics (em publicação)
Páginas: 144

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.