Crítica | Gêmeas

GEMEAS

estrelas 3

Sabemos que o Brasil durante muito tempo foi um campo de produção na indústria do cinema mundial com um pé na maniqueísta relação sertão x favela, seja no Cinema Novo ou no Cinema da Retomada, mas algumas produções driblaram esta linhagem dual. Gêmeas é um dessas incursões. Dirigido por Andrucha Waddington, o filme é uma produção que não chega a se enquadrar no gênero terror, com as típicas facadas, ataques de histeria e outras alcunhas do gênero, mas é uma experiência que envolve obsessão e morte, temas comuns da obra do maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos: Nelson Rodrigues.

Baseado no conto homônimo do escritor, parte integrante da coletânea A Vida Como Ela É, o filme nos apresenta a vida das gêmeas idênticas Marilena e Iara, personagens interpretada diretamente por Fernanda Torres, numa atuação forte e compenetrada.

Assim como em Vestido de Noiva, peça teatral considerada como divisora de águas no teatro brasileiro do século XX, o conflito de Gêmeas está no amor que duas irmãs possuem pelo mesmo homem. E é através da rivalidade de ambas que a ação é conduzida, levando-as para um clímax trágico, com situações típicas de tramas cinematográficas e televisivas.

Gêmeas é um conto gótico assustador, com toques dos contos de fadas e thriller psicológico. Na abertura, a montagem se divide em revelar as duas irmãs em suas respectivas atividades: enquanto uma trabalha no laboratório, a outra costura. Marilena simpatiza com a Biologia e é a mais estudiosa, enquanto Iara pretende seguir a carreira da mãe, sendo costureira.

A cena pós-créditos iniciais abre com um plano geral na casa das irmãs. A mãe está na cama, doente. Marilena chega com o namoradinho, interpretado por Matheus Nachtergaele. Sobe, entra no quarto para cuidar da mãe e troca de roupa com Iara. Agora era a vez de a irmã sair com o rapaz. O pai, interpretado por Francisco Cuoco, ao perceber a trama das filhas, pega rispidamente o rapaz pelo braço e leva-o ao quarto onde Marilena está cuidando da mãe, já em processo de falecimento. Assustado, percebe que são gêmeas e que vivem de joguinhos, curtindo o mesmo namorado.

Com a morte da mãe, a cena corta para o enterro, em um cemitério iluminado por uma luz azul que nos remete ao gótico, assim como a câmera que se movimenta em eficientes planos inteiros, captando os objetos do cemitério. Trovões e muita chuva completam o clima da cena. Mais adiante, Marilena está saindo do laboratório quando escorrega e cai na frente de um carro. O automóvel é do taxista Osmar (Evandro Mesquita), que leva a moça até a sua casa.

Na despedida, ele trata de pegar o sapato da moça para consertar. Ao adentrar, Iara percebe que a irmã chegou da rua sem sapato e pergunta de forma irônica o que possivelmente teria acontecido. No outro dia, Osmar vai até a casa e encontra a moça sentada na porta, lendo. Aproxima-se e entrega o sapato. Mas a moça que está ali é Iara, que inicialmente se faz de desentendida. Esta marca um jantar com o rapaz às 21 horas, avisando a irmã apenas próximo ao horário.

Ao chegar ao local, Iara abre a porta. Osmar a cumprimenta e logo depois ela chama Marilena. Assustado, o rapaz olha com misto de mistério e encanto para as duas: é daí que elas começam um jogo que envolve, inclusive, a morte de quem tentar ser mais esperta. Gêmeas inicialmente seria um episódio do longa-metragem Traição, filme com três histórias ambientadas no universo de Nelson Rodrigues. Mas devido a algumas modificações no projeto, o filme se tornou um filme independente.

O interessante roteiro é assinado por Elena Soarez. A direção de arte ficou por conta de Gualter Gupo e a direção de fotografia, foi assinada por Breno Silveira, atualmente, diretor de filmes renomados como Gonzaga: de Pai Para Filho e Dois Filhos de Francisco. Todos estes elementos, cabe ressaltar, bem organizados para o produto final.

Em Gêmeas, logo na abertura, é possível perceber o abandono da casa, local em que boa parte da narrativa vai se desenvolver. No interior, móveis antigos e cores opacas. Muito uso do marrom e do bege, cores não vibrantes, azulejos envelhecidos no banheiro e na cozinha. A trilha sonora ocupa papel fundamental no desenvolvimento do suspense, assim como amplia as sensações de alucinações e mistério oriundos das estéticas expressionista e noir presentes no campo das imagens. A música cresce em uma progressão geométrica que nos remete ao uso da trilha sonora em (sempre, que paixão desse povo!) Psicose, de Alfred Hitchcock. De forma crescente, a música vai anunciando o que está por vir, o desfecho provavelmente trágico da narrativa, numa espécie de valsa de horror psicológico.

Gêmeas ganhou o prêmio de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro em 1999, no Festival de Brasília, além de ter sido indicado a prêmios internacionais, como o versátil Globo de Ouro. O filme manipula muito bem elementos como a trilha sonora, a direção de arte, a direção de fotografia, os planos e a movimentação de câmera, interpretando o conto de Nelson Rodrigues através de imagens e sons refinados, orquestrados de maneira equilibrada com as encenações, fazendo jus ao gênero que se encaixa: o suspense. Uma adaptação coerente e coesa, graças à parceria entre o roteiro substancial de Elena Soarez e a direção firme de Andrucha Waddington.

Gêmeas (Brasil- 1999)
Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Elena Soarez, baseado no conto homônimo de Nelson Rodrigues
Elenco: Fernanda Torres, Evandro Mesquita, Francisco Cuoco, Fernanda Montenegro, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira
Duração: 105 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.