Crítica | Getúlio

estrelas 4

Madrugada de 5 de agosto de 1954, rua Tonelero, Copacabana, Rio de Janeiro. Ao voltar para casa ao lado do filho, o candidato a Deputado Federal, Carlos Lacerda, um dos principais e mais conhecidos opositores do governo Vargas (1950 – 1954), sofreu um atentado no qual foi baleado, ironicamente, no pé. O episódio foi a abertura para a chamada “Crise de Agosto”, que tomaria proporções inimagináveis dentro de uma frágil e em polvorosa política nacional e causaria o suicídio do presidente Getúlio Vargas 19 dias depois.

Sendo um dos nomes mais presentes e de grande apelo popular na política nacional, Getúlio Vargas é uma de nossas personalidades histórias mais intrigantes e interessantes de se estudar. O cinema e a TV, é claro, se aproveitaram bastante disso.

Nos anos 30 e 40, durante o primeiro e longo governo Vargas (que compreendeu uma fase provisória, uma constitucional e uma ditadura), vários curtas-metragens sobre suas viagens e aparições públicas ou discursos foram filmados e exibidos em cinejornais pelo país afora. Em 1974, a diretora Ana Carolina lançou o documentário Getúlio Vargas, que, com narração de Paulo César Peréio, tentava fazer um retrato completo da vida pessoal e política do estadista, que também teve sua carreira abordada no documentário Jango, de Silvio Tendler. Até a TV Globo nos trouxe, em 1993, uma série de Jorge Furtado chamada Agosto, baseada no livro de Rubem Fonseca e que aborda o mês da grande crise. É dentro desse hype de curiosidade e sedução política que João Jardim, diretor ou co-diretor dos ótimos Janela da Alma, Lixo Extraordinário e Pro Dia Nascer Feliz, nos traz novamente a Crise de Agosto para as telas, desta feita, em um longa-metragem.

Getúlio (2014) surge de uma aposta do diretor para levar algum contexto político e histórico à população, algo louvável, diga-se de passagem, e que surpreendentemente teve produção da Globo Filmes, o que, muito mais surpreendentemente, não fez da obra uma coletânea de elogios rasgados, manipulações históricas e apologias ideológicas. O roteiro de George Moura é impiedoso, cru e objetivo. Getúlio Vargas não é pintado com cores escuras ou claras demais. Sua posição política, trajetória (inclusive com várias citações ao Estado Novo) e impacto histórico na política brasileira estão postos de maneira a abarcar pelo menos duas grandes visões sobre os fatos, mérito pouco alcançado quando falamos de obras políticas, sejam brasileiras ou não.

O filme começa com uma reflexão de Vargas em um momento de crise já no final de seu mandato. Aos 72 anos de idade, o então Presidente da República enfrentava as denúncias de Carlos Lacerda e políticos aliados a ele de que fora Vargas o mandante do atendado da rua Tonelero, que resultou na morte do Major-aviador Rubens Florentino Vaz. Não nos cabe aqui (embora vontade não me falte) discorrer sobre os amplos aspectos históricos do momento, elencar motivos para tamanha repercussão das denúncias e os fatores que mobilizaram de tal forma a Aeronáutica, a Marinha e o Exército. Vale apenas dizer que, ao longo de 19 dias, Vargas se viu cada vez mais cercado e sem muitas opções de manobra. Ele também se recusava a voltar ao político que fora em 1937 e não moveu quaisquer forças para barrar o levante que se arquitetava contra seu governo. A renúncia também não estava em pauta. Uma semana antes de seu suicídio, Vargas chegou a dizer que só morto sairia do Palácio do Catete. E cumpriu sua palavra.

João Jardim acerta a mão e o tom ao retratar esses 19 dias de tortura política a GV e tensão política que envolvia as Forças Armadas e os estadistas brasileiros. O filme tem uma atmosfera quase documental e consegue apresentar um número bem pequeno de falhas, o que faz com que o espectador aproveite melhor toda a projeção sem se incomodar a cada cinco minutos com absurdos estéticos ou narrativos. Dando maior espaço para pontos notadamente importantes sobre o evento, a vida pessoal de Vargas e a política nacional, o diretor estabeleceu marcos históricos ao longo da fita e, entre eles, inseriu fatos menores, sonhos, divagações, cenas familiares, sequências de planejamento para o golpe, intrigas do Catete, todos com figuração orgânica no filme. O resultado final surpreende pela coerência, pela quase aplaudível abordagem histórica “para a massa” e pela forma simples e elegante como é realizado.

Tony Ramos faz um ótimo trabalho interpretando o presidente. É uma pena que não o possamos ouvir discursando mais vezes, mas, na sequência em que vai a Belo Horizonte e discursa para trabalhadores da Petrobras, podemos ver a dicção, entonação e pausas estratégicas utilizada por Vargas durante os seus pronunciamentos. Drica Moraes é outro grande destaque no elenco, como filha, assistente de gabinete e pessoa mais próxima a Vargas. Vale ainda citar o Carlos Lacerda vivido por Alexandre Borges, talvez um pouco “maluco” demais, mas mesmo assim, uma boa representação. O elenco de apoio acompanha com louvor os protagonistas, sem nenhum tom dissonante a se ressaltar.

Com excelente maquiagem, figurinos precisos e austeros (talvez austeros demais) e bela trilha sonora — embora seu uso massacre o ouvido do espectador, visto que praticamente não há pausa — Getúlio é uma revisão história notável, mais uma eficiente realização de João Jardim, que, não há dúvidas, conseguiu fazer um filme acessível ao grande público, tendo o caráter histórico como ponto principal do enredo, sem meandros dramáticos novelistas e com uma abordagem bastante crítica. Uma ótima crônica política que deveria ser vista por muita gente.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Último parágrafo da Carta-testamento de Getúlio Vargas.

Getúlio (Brasil, 2014)
Direção: João Jardim
Roteiro: George Moura (baseado em uma ideia de João Jardim).
Elenco: Tony Ramos, Alexandre Borges, Drica Moraes, Leonardo Medeiros, Murilo Elbas, Fernando Luís, Daniel Dantas, José Raposo, Thiago Justino, Adriano Garib, Sílvio Matos, Luciano ChirolliCláudio Tovar, Clarisse Abujamra
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.