Crítica | Ghidrah, O Monstro Tricéfalo (Godzilla vs. Ghidorah)

Ghidrah, O Monstro Tricéfalo (1964) San daikaijû Chikyû saidai no kessen plano critico

Quando você lê um título como “Ghidrah, O Monstro Tricéfalo”, a reação mais coerente é imaginar que será um filme que vai abordar, em essência, tudo sobre esse bicho absurdo, afinal de contas, estamos falando de um tipo de dragão de três cabeças vindo do Espaço e que já destruiu a civilização de Júpiter, no passado distante, o que não é pouca coisa. E foi justamente ao ignorar o aspecto de “o monstro do título já é o bastante para estar ao lado de Godzilla” que o roteirista Shin’ichi Sekizawa acabou tornando muito problemático um enredo que, em tudo, poderia ser mais simples e melhor estruturado. O que não quer dizer que este Godzilla vs. Ghidorah não seja um filme divertido. Longe disso.

Existem duas nomenclaturas para o cabeçudo que faz a sua estreia aqui. A versão original, em japonês, o chama de Ghidorah, enquanto a versão da dublagem em inglês, de Ghidrah (para ficar mais parecido com HYDRA e fazer com que o público relacionasse os monstros, criando uma certa identificação). Na presente trama, o dragão espacial chega à Terra em um momento de mudanças alarmantes no clima da Terra — pelo menos no hemisfério norte –, fazendo com que o meio do inverno tivesse temperaturas absurdamente quentes. Essas transformações não passam despercebidas por membros de um grupo de Ufólogos, que estão observando o céu atentamente, esperando que um disco voador apareça e dê as respostas necessárias. Pois é.

Era até esperado que um ponto de partida “diferentão” fosse utilizado pelo roteirista para trazer o bicho do espaço. Mas o roteiro não se contenta em trabalhar com essa nova ameaça, ligando-a, claro, ao lagartão atômico, presença obrigatória nesses kaijus. E notem que este não é um apontamento solto ou sem precedentes. Filmes como Gojira (1954) e Mothra, a Deusa Selvagem (1961) provaram que é possível apresentar uma história sólida com um único (ou um par) de monstros, sem ter que bifurcar o roteiro em diversos dramas, seja para distrair o espectador, seja para tornar o suspense da destruição ainda mais emocionante, o que é uma bobagem tremenda, visto que isso poderia ser conseguido com boa montagem e relações mais cuidadosas entre o bloco das criaturas e o bloco dos humanos.

No texto de Sekizawa, temos ainda a história da princesa Maas Doulina Salno (do reino fictício de Selgina); aturamos as duas fadas cantoras da Infant Island; e temos as frentes narrativas ligadas ao núcleo de ação urbana, uma parte na polícia, outra na imprensa e outra em cidades mais afastadas, em pelo menos duas grandes áreas de pesquisa, geologia e medicina (eu fico só imaginando um ator do porte de Takashi Shimura no meio de tudo isso… o que ele deveria estar pensando enquanto filmava suas cenas nonsenses). E como se não bastasse, o roteiro ainda adiciona mais dois monstros na festa, Rodan e Mothra (em forma de larva). Ou seja, é bicho demais, é núcleo textual demais e muita ponta solta para que o roteiro dê conta. É evidente que a passagem de uma base para outra não corre bem e isso fica ainda mais frustrante quando a luta, apesar de grandiosa, é mais engraçada do que emocionante. Ver Godzilla gastar o sopro atômico em Rodan e optar por jogar pedras no King Ghidorah é algo que só faz rir e desmoraliza o lagartão.

Aliás, as lutas aqui são realmente hilárias. Em uma cena, Godzilla oferece o rabo para a Mothra-larva subir uma montanha mais rápido. Em outra, enquanto ainda estavam lutando entre si (não há justificativa plausível para isso, vale destacar), Rodan dá bicadas desesperadas na cabeça do Rei dos Monstros, e também o levanta em pleno voo e o derruba várias vezes. No meu íntimo, quero acreditar que este NÃO é o Godzilla verdadeiro… este é um clone ou um filhote ou uma versão recém acordada, qualquer coisa do tipo. O caráter badasss do personagem desapareceu e ele está aqui apanhando copiosamente de Rodan. Não é o Godzilla que eu conheço.

A luta final nos entrega, além dos momentos engraçados, um pouco daquelas boas sequências de cidades sendo destruídas e de pancadaria para todo lado entre os bichos. Claro que não é nada tão legal quanto King Kong vs. Godzilla (1962), mas se a gente souber ignorar a montagem sem sentido e as irritantes linhas paralelas, dá para aproveitar um pouco mais e se divertir.

Ghidrah, O Monstro Tricéfalo / Godzilla vs. Ghidorah (San daikaijû: Chikyû saidai no kessen) — Japão, 1964
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Shin’ichi Sekizawa
Elenco: Yôsuke Natsuki, Yuriko Hoshi, Hiroshi Koizumi, Akiko Wakabayashi, Emi Itô, Yumi Itô, Takashi Shimura, Akihiko Hirata, Hisaya Itô, Minoru Takada, Someshô Matsumoto, Ikio Sawamura, Kôzô Nomura, Kenji Sahara, Susumu Kurobe
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.