Crítica | Ghost – Do Outro Lado da Vida

Ghost

estrelas 4,5

Eis um filme que você pode até não ter assistido, mas com certeza já deve ter lido comentários, escutado a música tema ou conferido o trecho belíssimo e bastante simbólico em que os protagonistas, interpretados por Patrick Swayze e Demi Moore, moldam uma escultura de barro. Ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante (Whoopi Goldberg), Ghost – Do Outro Lado da Vida é um daqueles filmes com temática marcante e roteiro bem amarrado, com clima bem híbrido entre a transição dos anos 1980 para a década de 1990.

Responsável por alavancar a carreira de seus protagonistas, o filme nos conta a história de Sam (Swayze), um jovem bancário que descobre uma transação fraudulenta milionária dentro da empresa que em trabalha. Sem a devida contenção, apela para seus princípios éticos e por conta disso, acaba assassinado, deixando a sua esposa Molly (Moore) abalada. Ela vai contar com o melhor amigo do casal, o aparentemente simpático Carl (Tony Goldwyn), para ser de sustentação para a superação do seu luto.

O que apenas Sam sabe é que há uma transação rocambolesca que pode colocar a vida de Molly em perigo. Para resolver o problema, ele conta com a ajuda de Mae Brown (Goldberg), uma falsária que utiliza religiões de cunho espiritualista para ganhar dinheiro com a dor de pessoas em estado de luto. O papel da personagem é convencer Molly de que ela precisa ajuda-lo a descobrir quem encomendou a sua morte.

Com direção de Jerry Zucker, cineasta oriundo do terreno das comédias, Ghost – Do Outro Lado da Vida é uma inesquecível história sobre morte e necessidade de superação, bem como flerta com temas universais (amor, traição, inveja, ciúmes). A fórmula que mescla momentos dramáticos com situações extremamente engraçadas e irônicas é o que faz o filme ser um digno exemplar do cinema hollywoodiano romântico.

A direção de Zucker é bastante segura, bem guiada pelo roteiro de Bruce Joel Rubin, profissionais que ganharam a colaboração do mestre da montagem Walter Munch, uma das maiores referências no campo da edição. Os efeitos especiais não são grande coisa, pois as possibilidades tecnológicas não eram tão evoluídas como as atuais, entretanto, o filme não envelheceu, afinal, o que mais importa é a dinâmica interna, os diálogos e a força que move os personagens.

O tema da vingança é bem trabalhado e nos possibilita um paralelo entre o filme e Hamlet, uma das mais famosas tragédias de Shakespeare. Enquanto retornam do teatro após terem assistido a uma montagem, eles são abordados e o criminoso ceifa a vida de Sam. Ele, após se conscientizar de que está morto, recorre a uma médium para entrar em contato com a sua esposa e deixar clara que há uma traição em jogo. Na dinâmica da peça, alguns elementos são diferentes, mas o pai que retorna para contar ao filho sobre a traição e clamar por vingança encontra ressonâncias neste filme que diante disso, prova ser algo mais que uma história sobre pessoas apaixonadas.

Na época de seu lançamento, o filme arrebentou nas bilheterias. No México emocionou tanto o público que os ingressos foram vendidos acompanhados de lenços. Em 2010, ganhou uma refilmagem japonesa intitulada Ghost: In Your Arms Again, além de ter sido adaptado para o teatro, com roteiro do mesmo autor do filme e música da dupla formada por Dave Stewart e Glen Ballard. Por falar em música, não há como dissociar o filme da sua canção tema, Unchained Melody, um clássico moderno que nos remete diretamente ao filme, tocada à exaustão nas rádios da época e uma referência ainda hoje.

Uma das maiores audiências da TV aberta, o filme também ganhou projeção no Brasil no campo das adaptações, com montagem teatral e recentemente, surgiram rumores de uma possível versão para a televisão, no formato seriado. Numa época marcada por fluxo intenso de refilmagens, Ghost – Do Outro Lado da Vida é um daqueles filmes rentáveis que ainda não foram explorados dentro de tal demanda.

Ghost – Do Outro Lado da Vida (Ghost) – Estados Unidos/1990
Direção: Jerry Zucker
Roteiro: Bruce Joel Rubin, Peter Barsocchini
Elenco: Demi Moore, Gail Boggs, Patrick Swayze, Rick Aviles, Tony Goldwyn, Vincent Schiavelli, Whoopi Goldberg
Duração: 122 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.