Crítica | Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro

estrelas 5,0

Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido. – 1 Cor 13: 11-12

Afinal, o que nos define como seres vivos? Seria o conjunto de reações metabólicas de nosso organismo? A presença de uma atividade cerebral, por menor que seja? Ou a existência de uma alma ou espírito? A resposta certamente varia dependendo a quem perguntarmos e jamais encontraremos uma definitiva, independente de quanto tempo procurarmos. Ghost in the Shell, primeira adaptação em animação do mangá de Masamune Shirow lida com essa questão, nos jogando em um universo cyberpunk preenchido pelo existencialismo, perfeitamente retratado não só pelos seus personagens, como pelo próprio ambiente no qual vivem.

A trama acompanha a major Motoko Kusanagi (Atsuko Tanaka), uma agente da Seção 9, especializada em casos de ciberterrorismo, que está em busca de um hacker conhecido apenas como o Mestre das Marionetes (Puppet Master), capaz de se infiltrar no cérebro cibernético das pessoas e controlá-las a seu bel-prazer. Conforme persegue esse criminoso, contudo, a major começa a questionar sobre sua própria existência e memórias, indagando se ela não é apenas um produto, visto que seu corpo fora criado em uma fábrica. Sua busca pelo vilão se torna, então, uma jornada de auto-afirmação, com aquilo que a define como ser vivo em xeque.

A forma como tal questionamento afeta a protagonista pode ser testemunhada desde os minutos iniciais da obra – Kusanagi demonstra uma personalidade aparentemente fria, mas que logo entendemos como pensativa e até melancólica. Diferenciando da sua contra-parte mais animada do mangá, ela nos entrega o retrato da incerteza, da eterna dúvida que assola o ser humano, transmitindo uma atmosfera pesada ao longa-metragem, que certamente afeta o ânimo de seu espectador, que se vê, após a projeção, em uma posição igualmente indagadora. Há uma grande tristeza que preenche toda a narrativa de Ghost in the Shell. Ainda que parte da trama se resuma à inteligência artificial que fugiu ao controle dos humanos, temos uma abordagem única aqui, visto que ela não busca controlar ou destruir e sim arranjar uma forma de se enxergar como viva e não um mero programa construído em computador.

Esse caráter do roteiro é perfeitamente combinado com a direção de Mamoru Oshii, que trabalha com dezenas de planos e sequências contemplativas, algumas das quais apenas nos mostram o cenário aonde toda a história se desenrola. Nos vemos em uma cidade verticalizada por excelência, com ruas imundas, mal-cuidadas às sombras de arranha-céus imponentes, eclipsando a população que vive em suas sombras, o que reflete o domínio das corporações sobre essa sociedade. Mesmo com as diversas cores preenchendo os planos que retratam essas ruas não há a menor sensação de alegria e sim a de decadência, sensação ainda aumentada pelos tons azuis noturnos, que transmitem nada mais que uma grande solidão mesmo dentro daquela metrópole.

A trilha sonora do experiente Kenji Kawai se mistura de forma homogênea a essa escolha do diretor, nos entregando melodias que se apoiam igualmente na música tradicional japonesa e em temas praticamente meditativos. Assim como a imagem, o som não se preocupa em construir uma narrativa explosiva, configurando toda a obra como uma focada na psiquê de seus personagens, especialmente sua protagonista. As incidentais faixas que compõem a trilha funcionam a fim de complementar o que vemos em tela, ampliando a sensação de imersão ao construir a sensação de solidão tão almejada pelo longa-metragem.

É curioso observar como a obra alcançou um patamar de destaque dentre as animações japonesas, se popularizando consideravelmente no ocidente. Sua narrativa filosófica não se preocupa em ser ágil, mantendo o espectador em constantes sequências de ação, muito pelo contrário, a grande maioria do longa se destina a construir o existencialismo de sua protagonista, inserindo inúmeros conceitos e linhas narrativas sem se preocupar com o entendimento daquele que assiste. Dito isso, o anime certamente não é algo fácil de se entender, forçando uma concentração redobrada da audiência, que, ainda assim, pode acabar confusa. Mas Ghost in the Shell é mais sobre sentir do que efetivamente captar alguma mensagem e, nesse quesito, somos completamente absorvidos pelas imagens e sons nos oferecidos.

O traço, que muito se diferencia daquele de Masamune Shirow é simplesmente exuberante, adotando um realismo maior que chega a incomodar justamente por tornar mais próximo de nós todos os problemas retratados em tela. Isso, naturalmente, possibilita que o diretor faça as escolhas que faz, visto que somos imersos na imagem, da qual nossos olhares não conseguem se distanciar. Dito isso, a identificação com a protagonista ocorre logo nos primeiros minutos, visto que somos colocados em uma posição similar à dela, por mais distante e estranho que isso possa parecer.

Com todos esses elementos atuando em perfeita harmonia, fica fácil enxergar o porquê da adaptação em anime do mangá de Mamoru Oshii ter conseguido se separar da obra original. Ghost in the Shell é, sim, um longa-metragem confuso, que requer muita concentração, mas seu foco na construção de personagens e em sua atmosfera é tão envolvente que deixa o entendimento da trama geral como objetivo secundário, ao passo que se estabelece como uma obra que deve ser sentida, experimentada e não apenas assistida. Temos aqui uma marcante fusão de imagem e som que nos levam em uma jornada existencialista, que atinge em cheio a grande dúvida sobre o que, afinal, nos define como seres vivos.

Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (Kôkaku Kidôtai) — Japão/ Reino Unido, 1995
Direção:
 Mamoru Oshii
Roteiro: Kazunori Itô (baseado no mangá de Masamune Shirow)
Elenco: Atsuko Tanaka, Iemasa Kayumi, Akio Ôtsuka, Yutaka Nakano, Kôichi Yamadera, Tamio Ôki, Tesshô Genda, Namaki Masakazu
Duração: 83 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.